O Brasil é uma República Federativa composta de entes (União, Estados ou DF, e Municípios) autônomos. Basicamente, os Municípios cuidam dos assuntos locais. Não existem cidadãos federais, estaduais, distritais e municipais; cada um de nós integra cada um dos diversos entes. O maluco que se acha federal e maior que um estadual ou municipal, é ruim da cabeça ou doente do pé. Dependendo da hora, somos federais, estaduais (ou distritais) e municipais; pois votamos no prefeito, governador, presidente e parlamentares correspondentes. Completo: os Municípios se repartem em distritos, cujas sedes são vilas. A sede do Município é a vila do 1º distrito que virou cidade. Chamar Município de cidade é um equívoco ou uma tentativa de furar a autonomia municipal e meter o bedelho via a cidade. Se o leitor achar que a idade provecta me bagunça as idéias, bem pode estar certo, mas é o que leio na CF e na legislação.
Somente bancadas de partidos elaboraram a Constituição. Como Mateus, cuidaram dos seus. Somente bancadas de partidos votam leis. Como Mateus, embalam os seus. Acho curioso que uma República Federativa só tenha partidos de âmbito nacional, com sede em Brasília. Pois quando os dirigentes nacionais decidem uma diretriz nacional, sem confirmação local, estão a cometer uma inconstitucionalidade proibida a presidentes e governadores, como confirmou o STF na pandemia. Se o tema interessa o leitor, busque a Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental proposta pela OAB sob o nº 672. Existindo esta ADPF, partidos políticos nacionais devem cuidar dos temas nacionais e há que haver partidos estaduais, distritais e municipais ou solução outra que atenda ao nosso caráter federativo. Reconheço ser pessoa de ralo saber jurídico, mas todos devemos respeitar, amar e cumprir a CF e como seria tal possível se não entendêssemos o que estamos a ler, por hermético ao povo representado?
Sob outro prisma, a CF identifica cinco fundament6os da República (art. 1º). O quinto se refere ao pluralismo político. Como definir o conceito? Diz o Google: “Conceito ligado à própria noção de democracia, o pluralismo político é a admissão de ideias contrapostas, em todas as situações. É importante não confundir pluralismo político com multipartidarismo”. Ora, no artigo 17, quando a CF trata dos partidos, esqueceram do Fundamento da República e preferiram o pluripartidarismo. Assim, puderam criar o monopólio eleitoral, resistir aos avulsos até hoje, impingirem siglas e dirigentes eternos e criarem a cláusula de barreira que mudou de nome. Ou seja: negar o pluralismo político.
Que autonomia municipal é esta, exercida por prefeito e vereadores que representam partidos nacionais, para os quais cada Município é um alfinete de cabeça colorida a mais no mapa? E que técnica administrativa é esta que prevê plano diretor de desenvolvimento urbano (de cidade) esquecendo do Município (CF, arts. 182 e 183 e estatuto da Cidade)?
Não creio que algum candidato de partido nacional me responderá, nem ao povo de Petrópolis. Felizmente, o povo já despertou e montou o Plano Estratégico de Petrópolis 2020 (PEP20). Daqui para frente, teremos plano estratégico do povo, pelo povo e para o povo. Evoé!
Pois não é que, novamente, tornei a sonhar? Era eu, sentado naquela cadeira mais alta da mesa-ferradura da Câmara, a do vereador-presidente do Plenário. O tema que estava em debate era a situação pré-falimentar de Petrópolis, que não entendera os maydays emitidos por Brasília e Rio de Janeiro, embora estivesse na cara que, aqui como lá, a livre gastança na Casa Grande não se harmonizaria por muito tempo com o miserê da Senzala.
Já haviam falado doze vereadores, ainda faltavam dois discursos, fora o meu. O emprego de vereador era o filé-mignon de Petrópolis, pois aos ricos proventos básicos e colaterais não correspondia nada que lembrasse batente (e se alguma tarefa viesse a me caber, poderia escanteá-la para os assessores do gabinete). Mas aquelas reuniões onde o nada conduzia à coisa nenhuma eram chatas demais além da conta.
No meu sonho, embalado pela voz monocórdia do orador da vez, que tédio!, sentia-me adormecer dentro do sono. No final do mês viria o meu, de qualquer jeito; tudo bem, então. Mas por que razão sentia-me enrubescer, ter nojo daquele vazio folheado a ouro, achar inaguentável aquela parolagem sem sentido? E o meu “eu” presidente do Legislativo não teve como manter o seu papel decorativo: cortou o som do orador, passou-o para si mesmo e desabafou: “Senhoras e Senhores Vereadoras, chega! Fico vexado em ver o que fizemos deste Parlamento, que custa horrores para produzir migalhas. Petrópolis clama por controles, medidas radicais, e estamos aqui a viajar na maionese, falando abobrinhas e doidos para que acabe esta reunião oca e voltar para casa. Basta! Voltemos ao caminho certo d’antanho. Votemos uma Lei que reduza o nosso salário a zero. Rosca, nada, bulhufas. Ser edil deixará de ser boca para ser honra, e centenas de petropolitanos éticos disputarão o direito de trabalhar por seu Município, como se fossem outros tantos Ouvidores que nos recusamos a eleger. Gabinetes de assessores? Fora as exceções, cabos eleitorais carentes de rendas mesmo compartilhadas… Coloquemos em seu lugar e via Concurso, uma dúzia de bons consultores na Casa, versados em direito, contabilidade, arquitetura, engenharia, saúde pública, educação, administração pública, assistência social, RH e Previdência, ao dispor de todos. Também proibamos que o vereador indique quem quer que seja para cargo de confiança no Executivo ou Legislativo. A vereança passará a ser a representação do povo, nos termos da CF, artigo 1º, parágrafo único, aquele mesmo que não se quer ler.
Os partidos, ervas de passarinho que sufocam o Brasil, serão convidados a se refundar e não negar legenda aos candidatos a vereador apoiados pelas entidades da sociedade civil organizada. Sendo o trabalho de graça, os picaretas não vão mais disputar o cargo de edil.
E assim, nós quinze, estaremos economizando entre vinte e cinco e vinte e sete milhões por ano, e trabalhando melhor. Leis não publicadas, Executivo ao léu, Ouvidor engavetado, audiências de fancaria, mordomias idiotas, atas atrasadas, nunca mais”.
Acordei. Tinha sido um sonho, mas estava feliz; nem que fosse só na minha cabeça e por um instante, o povo tinha recuperado 15 Vereadores.
Dez organizações de Petrópolis ligadas às áreas de assistência social e dos direitos da criança e do adolescente participaram, na última semana, no dia 19 de agosto, da segunda oficina proposta pelo projeto de pesquisa “Cartografia do Ecossistema de Inovação Social de Petrópolis”. O projeto parte de uma abordagem da área de políticas públicas que entende que são os agentes sociais, as pessoas que estão nos territórios, nas comunidades, vivendo o cotidiano dos problemas públicos da cidade, as pessoas mais indicadas para encontrar soluções para esses problemas. O coordenador, Gustavo Costa, e os pesquisadores Carla Magno e Reginaldo Braga Jr. têm trabalhado no mapeamento e no reconhecimento da rede de organizações, entidades, coletivos, grupos (formais e não formais) que se mobilizam para buscar e/ou propor soluções inovadoras para problemas públicos da de Petrópolis. São essas soluções que são chamadas de inovações sociais.
Durante a oficina, além de um panorama mais detalhado da base teórica da pesquisa, foi apresentado um protótipo da plataforma digital que está sendo desenvolvida para funcionar como uma ferramenta pública, colaborativa, que ajude na dinamização e no fortalecimento da rede de iniciativas de inovação social, facilitando a troca e a interação entre elas. “Estamos mapeando e buscando conhecer todas as iniciativas que identificamos como iniciativas de inovação social com o objetivo de reconhecer essa rede e alimentar essa plataforma para que ela possa, de fato, colaborar com o enfrentamento aos problemas públicos da cidade. Com ela no ar e com a ampliação do número de iniciativas cadastradas, a ideia é que as próprias iniciativas que se entendam enquanto iniciativas de inovação social se cadastrem e a plataforma passe a funcionar de forma mais orgânica”, ressalta Carla.
Para mapear esses agentes sociais e as iniciativas em que muitos deles estão organizados, a equipe de pesquisadores utilizou, como um dos pontos de partida, por exemplo, a base de dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) sobre organizações da sociedade civil e também estudou o território de Petrópolis, produzindo alguns mapas para que, posteriormente, seja possível entender como as iniciativas e sua disposição na cidade dialogam com a dinâmica territorial do município. Dinamizar a rede de iniciativas de inovação social pode facilitar a mobilização e a organização diante das esferas de poder e, consequentemente, favorecer o surgimento de mais iniciativas do tipo, ou seja, mais ideias de soluções para os problemas públicos de Petrópolis.
“Nossa instituição estava muito ansiosa para conhecer mais sobre a pesquisa, e a oficina foi extremamente esclarecedora. A ideia de reconhecer essa rede e promover interações e conexões entre as iniciativas é incrível. A possibilidade de identificar, por meio da plataforma, outras iniciativas que atuam na mesma causa e enfrentam os mesmos desafios é muito interessante. Isso nos permite iniciar um diálogo para resolver conjuntamente esses problemas, promovendo uma colaboração mútua e eficaz”, comentou Monique Boechat, que compareceu à oficina representando a Renovar, associação que presta assistência a crianças, adolescentes e famílias em situação de vulnerabilidade social na cidade desde 1998.
O projeto de pesquisa é uma parceria entre o Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional (IPPUR), da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o Instituto Phillipe Guédon (IPG) e a Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj). Presente na oficina, o presidente do IPG, Cleveland Jones, destacou que o evento foi um marco no andamento do projeto EIS Petrópolis, deixando evidente que os objetivos estão sendo alcançados. Cleveland apontou para a organicidade de engajamento dos setores da sociedade envolvidos com inovações sociais no projeto a partir dos movimentos dos pesquisadores, indicando um potencial cada vez maior de iniciativas envolvidas. “A condução da oficina pelo professor Gustavo Costa e pela pesquisadora bolsista Carla Magno contou com uma grande participação de entidades e indivíduos atuantes no campo de assistência social e dos direitos da criança e do adolescente. Os resultados do projeto certamente trarão grandes benefícios para os atores que já fazem parte do ecossistema de inovações sociais, e deve alavancar as ações e os resultados das diversas e dispersas iniciativas, que muitas vezes ficam restritas a uma atuação individual. Como representante do IPG, proponente do projeto, fiquei muito satisfeito ao observar que os participantes entenderam e se empolgaram com o potencial da plataforma que o projeto pretende desenvolver e oferecer à sociedade”.
Petrópolis é intitulada a Capital Estadual das Unidades de Conservação. Porém, no primeiro distrito, área urbana que faz parte da APA-Petrópolis, portanto uma UC também, a vegetação, tanto no que se refere às árvores e às matas ciliares dos rios que percorrem toda a cidade, tem diminuído bastante ao longo dos anos. Em tempos de mudanças climáticas, é fundamental ter uma boa vegetação nessas áreas. Mas, como reflorestar uma área urbana como Petrópolis onde ainda convivemos com árvores exóticas antigas, espécies da mata atlântica e animais como as capivaras passeando pelo asfalto, pássaros como quero-quero, jacus, em áreas tombadas pelo Patrimônio Histórico? Será possível essa convivência? Devemos trocar as espécies exóticas por nativas? Para tirar essas e outras dúvidas que surgiram nos grupos de discussão que elaboram o PEP 20 (Planejamento Estratégico para Petrópolis),o IPG conversou com especialistas em reflorestamento urbano: o biólogo e professor Dr. André Micaldas , a engenheira Florestal, Erika Melo Brandão Assis e a arquiteta do IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional),Isabelle Cury.
Siga a leitura e compreenda com os especialistas como deve ser feito um reflorestamento em áreas urbanas.
REFLORESTAMENTO: UM DESAFIO NAS ÁREAS URBANAS
Elaborar um projeto de reflorestamento urbano não é algo tão simples, não basta apenas plantar árvores de forma aleatória. De acordo com a engenheira florestal Erika Melo Brandão Assis, petropolitana, que possui larga experiência na área e hoje atua no Instituto Ação Socioambiental “é preciso que a equipe que vai fazer esse planejamento, que podem ser composta por biólogos, engenheiros florestais, paisagistas, sejam profissionais com conhecimento em dendrologia (ramo da ciência que compreende o estudo das árvores, identificação, características e distribuição natural das mesmas).
O reflorestamento urbano é um processo meticuloso, que o biólogo e também Educador Ambiental Dr.André Micaldas, explicou quais critérios devem ser seguidos, que são:
Dr.André Micaldas
As espécies devem ser autóctones, ou seja, nativas do local, pois já estão adaptadas ao clima, ao solo e servem de alimento e abrigo para a fauna local e podem fornecer sementes que podem ser utilizadas pela população para plantio.
Se a rede elétrica for aérea e as árvores forem ser plantadas sob a rede elétrica não podem crescer muito.
Se as árvores forem plantadas no calçamento e/ou próximas a muro, as raízes não podem ser do tipo emergentes ou adventíceas (como figueiras); devem ser do tipo pivotante (uma raiz principal com crescimento vertical em profundidade).
Deve-se evitar o plantio de espécies tóxicas para seres humanos e fauna (plantas com látex).
Se o lugar for frio, deve-se dar preferência para espécies que percam as folhas no período do inverno pois facilitam a entrada do sol na cidade como, por exemplo, os ipês.
Deve-se evitar o plantio de árvores com frutos grandes (abricó de macaco) que podem provocar danos a veículos e ser um risco a vida de pedestres e animais como cães e gatos.
Devem ser evitadas espécies que apodreçam facilmente ou possam ser atacadas por cupins e outros organismos xilófagos (que se alimentam de madeira).
Devem ser evitadas espécies que liberem substâncias alergênicas e que possam causar coceira (como o fruto da palmeira rabo de peixe ou a folha que protege a gema do caule dos bambus).
As árvores devem ser plantadas respeitando a exposição ao sol ou ao sombreamento do local, caso contrário a maioria morre.
As mudas devem ser plantadas o maior possível para evitar o vandalismo.
Os reflorestamentos urbanos, seguindo os critérios acima, de acordo com André ainda são muito poucos. Ele cita o exemplo “da Alameda Sandra Alvim, localizada no Recreio dos Bandeirantes, em que foram utilizadas espécies autóctones de restinga ecossistema original do Recreio dos Bandeirantes e Barra da Tijuca, onde participei plantando algumas mudas de paineira que produzi no meu apartamento, como o humus do meu minhocário”.Erika citou também exemplos de Maringá no Paraná e Curitiba que são bem arborizadas.
Engenheira Florestal Erika Assis
Exemplo de falta de critérios.
Se os critérios não forem seguidos e, por exemplo, termos podas feitas de forma errada, sem a participação de técnicos e que são planejados muitas vezes movidos apenas pela questão do paisagismo, ou seja, só pela beleza da árvore, André explica que “Sem planejamento, as árvores que crescem muito ou têm raízes emergentes podem destruir a rede elétrica, se ela for aérea, destruir calçamento, muros, e sua queda pode ser um risco, os frutos grandes podem danificar carros, casas e causar acidentes até fatais com pessoas e animais. Árvores de espécies tóxicas podem causar envenenamento de pessoas, sobretudo crianças e também animais, filhotes de cachorros e gatos”. Também destaca que “A poda drástica às vezes pode matar a árvore ou causar a redução de abrigo e alimento para animais e redução de sombra para pessoas e carros além de diminuir a beleza do local”.Por isso, Erika, lembra que “é preciso ter também na equipe alguém especializado em fauna, deve ser feito um trabalho integrado para que os corredores sirvam de poleiro, mas também como alimento, é preciso trabalhar com frutíferas da mata atlântica em locais que comportam para atender nosso público especial que são as árvores”.
Polêmica: Exóticas ou nativa ?
Uma questão que sempre surge quando é pensado um reflorestamento urbano é se serão colocadas árvores nativas ou exóticas. De acordo com Erika essas árvores podem conviver sim. Mas quanto à preservar o que já existe, ela salienta que é necessária uma avaliação. “Se não estão bem, pode ser pensado um manejo para essas árvores, que podem ser substituídas por um tipo de floração, de cor, de algum grupo parecido, podemos fazer diversos tipos de composição. Assim exóticas e nativas podem conviver, dentro de um plano. Isso deve ser avaliado, é preciso ver o custo-benefício de uma intervenção e pode sim ser feito um manejo priorizando as nativas”, explica.
O que fazer em áreas tombadas pelo IPHAN?
Na prática, às vezes surgem situações onde é preciso lidar com a inserção ou manutenção de árvores exóticas. Em Petrópolis uma parte do Centro Histórico teve o conjunto paisagístico tombado pelo IPHAN. Então há uma polêmica na cidade, porque alguns acham que quando as árvores antigas morrerem devem ser substituídas por nativas, mas por causa do tombamento, outros acham que precisam plantar a mesma espécie, porque as raízes de muitas dessas árvores, causam problemas no calçamento. André explica que é “sempre favorável ao plantio de espécies autóctones ou nativas do lugar, já que estão adaptadas ao clima e ao solo e servem de alimento e abrigo para a fauna local”. Mas, destaca que se ocorrer a escolha por espécies exóticas que, pelo menos, atendam aos outros critérios que ele explicou. Em relação ao tombamento. Erika acredita que isto ocorreu “num momento que queriam mostrar a variedade botânica de diversos lugares do mundo, tinha um objetivo esse paisagismo” e acrescenta que hoje observa “que existe um grande desconhecimento da nossa botânica, de um ponto de vista popular” e acrescenta que “trabalhar um paisagismo com as nativas é uma forma de mostrar para a população as nossas árvores, é também um trabalho de Educação Ambiental. Petrópolis ter uma arborização com nativas, seria um movimento, um passo, muito interessante em diversos sentidos para a Educação Ambiental. Poderiam ser feitos corredores de fauna, se eu pudesse votar, votaria num paisagismo com nativas.”
Já em relação às exóticas, quando morrerem, Erika, acha que “não deveriam plantar as mesmas espécies, temos que priorizar as nativas e pensar em quais seriam interessantes, pois existe a questão do calçamento, de toda estrutura de uma cidade, temos que pensar também na questão dos alagamentos, avaliar como um todo, a fisiologia da planta e todo o cenário que está no entorno dela”, destaca. Erika também esclarece que não é só desenhar o projeto dessa estrutura, mas mantê-la. “A gente precisa de um serviço olhando para as nossas árvores, para orientação de poda, para ver a sanidade delas, adubação, isso tudo, por exemplo, para o centro histórico porque é um patrimônio e elas fazem parte de todo esse visual.”
Dra,Isabelle Cury
Mas para fazer um reflorestamento em uma área tombada é preciso avaliar outros aspectos, além dos mencionados pelo biólogo. De acordo com a arquiteta Isabelle Cury, “há diferentes critérios a serem considerados nas áreas históricas, onde originalmente se incluíram as espécies exóticas”. Ela explica que “é exigido um maior conhecimento, já que existem exóticas que foram utilizadas no século XIX, algumas invasoras* e outras não”. Isabelle destaca também que “o critério não é o de espécies da Mata Atlântica e sim o de arborização urbana, pois é uma área antropizada”. Para este reflorestamento, é necessário analisar as características do local e o projeto de arborização original para definir o que será realizado. Independente do que for escolhido pela equipe que estiver elaborando o projeto em uma área onde o conjunto paisagístico foi tombado, Isabelle frisa que “o IPHAN precisa ser consultado pois a arborização interfere diretamente na preservação e na ambiência do bem tombado”.
*(As espécies exóticas invasoras sãoaquelas plantas e animais que estão fora da sua área de distribuição natural e que ameaçam hábitats, serviços ecossistêmicos, e a diversidade biológica, causando impactos em ambientes naturais.)
Mudanças climáticas: árvores são fundamentais
Independente das espécies sabemos que árvores em áreas urbanas em tempos de mudanças climáticas são fundamentais, pois como explica André “as árvores ao crescer retiram o gás carbônico da atmosfera (um dos responsáveis pelas mudanças climáticas) e o imobilizam na celulose do tronco e galhos e raízes, diminuem a temperatura ambiente em até 5 ou 6 graus C, diminuem o efeito das células de calor das cidades, absorvem as águas das chuvas, auxiliam as águas das chuvas a penetrar no solo e atingir o lençol freático mantendo a vazão dos rios por mais tempo, umidificam o ar deixando-o menos seco, retiram poeira do ar que ficam presas nas folhas e que depois são lavadas pelas chuvas, fornecem sombra para todos. As árvores ainda tem um papel no bem-estar psicológico das pessoas, tendo em vista que a cor verde acalma”.
Erika salienta que percebemos como o clima muda, “é nítida a diferença quando você está embaixo de uma árvore ou exposto ao sol. Além disso, toda área que uma copa ocupa, o impacto de cada gota é importante. Porque uma coisa é ela cair direto na superfície e escoar, outra coisa é cair nesse guarda-chuva enorme, que é a árvore, e ela vai batendo folha por folha, vai escorrendo no tronco, aí acontece a infiltração no solo, ela vai sendo disponibilizada de forma lenta para o lençol freático, o que vai ajudar na drenagem, em uma escala grande”.
Matas ciliares também entram no projeto de reflorestamento urbano.
Ponte do Colono – Piabanha
As matas ciliares dos rios de Petrópolis, que cortam a cidade, também entram em um projeto de reflorestamento urbano. Segundo os especialistas é possível reflorestar, de uma forma rápida para evitar a construção de muros de pedra, gabião e outras intervenções que não são naturais. Erika explica que, “temos espécies como sangra d’água, ingás, entre outras, que se desenvolvem bem nesse ambiente úmido” E ela esclarece: “É uma estratégia. Pois a gente coloca espécies chamadas de preenchimento, as pioneiras, e as secundárias iniciais, porque elas vão crescer rápido, aí depois você vem com as espécies que são as tardias, as espécies de diversidade e elas vão crescer mais lentamente, mas também vão ficar mais tempo, e também vão fazer essa função de estruturação do solo, fazendo esse paisagismo pensado, no caso, por exemplo, da rua Piabanha, servindo como um grande corredor das margens fazendo essa integração para que essa fauna possa se movimentar. Isso seria muito lindo de ver”.
Reflorestamento urbano e APA-Petrópolis.
Será que o fato do primeiro distrito de Petrópolis estar dentro da APA-Petrópolis faz alguma diferença na forma de reflorestar as áreas urbanas? Para André “ estar dentro de uma APA é um privilégio que poucas pessoas têm consciência e o reflorestamento deve levar em conta ser uma APA, uma Unidade de Conservação”. Nesse contexto, “a restauração indica a necessidade de espécies autóctones”, ressalta André.
E para Erika o reflorestamento urbano “só agrega para APA e é bem interessante, porque se realmente fizerem um reflorestamento de nativas, um olhar assim pode até compor a revisão do plano da APA, alguma coisa nesse porte pensado como cidade, utilizando árvores nativas, isso pode estar integrado no plano de manejo da APA, com uma proteção maior, até para desenvolvimento de projetos.”
Benefícios para a economia local
André e Erika concordam que a economia também pode ser beneficiada por um reflorestamento urbano. André cita exemplos, como “a diminuição no uso do ar-condicionado que pode resultar em economia na conta de energia elétrica de estabelecimentos comerciais e o aumento do conforto térmico pode favorecer a vinda e permanência de turistas e clientes. Além disso “ a cidade vai ficar muito mais agradável e a economia ser beneficiada indiretamente, será uma consequência” destaca Erika que também alerta para o fato deste reflorestamento ter um custo, porque “para manter uma cidade assim, tão planejada com árvores, tem que ter uma resposta muita rápida, tem que primeiro estruturar e estar preparado, por exemplo, para uma chuva forte, com ventania, a resposta tem que ser rápida, um serviço eficiente para atender essa demanda”.
Mudança de comportamento: Educação Ambiental integrada ao projeto de reflorestamento
Como educador Ambiental André acredita que para mudar essa cultura urbana de que árvores atrapalham, sujam, é preciso “realizar vivências com troca de saberes para esclarecimento em instituições de ensino e outros espaços públicos e plantio de mudas das espécies autóctones em espaços urbanos com crianças e adultos, com participação do poder publico municipal, se houver interesse e disponibilidade”. Para André “o reflorestamento urbano pode ser realizado junto com a Educação Ambiental, auxiliando na mudança de mentalidade do ser humano com o ambiente do qual faz parte em busca de uma vida mais harmônica”.
Entrevistas, redação e edição Teresinha Almeida, Jornalista, Educadora Ambiental e Gestora de Comunicação do IPG. // Fotos: Karina Wilberg, participante do IPG.
A primeira oficina do projeto “Cartografias do Ecossistema de Inovação Social de Petrópolis” aconteceu, nesta quarta-feira, 03 de julho, no Cefet Petrópolis.O projeto do Instituto Philippe Guédon (IPG) é uma parceria do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional (IPPUR/UFRJ) e da Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj), tem trabalhado na pesquisa de reconhecimento da rede de organizações, entidades, coletivos, grupos (formais e não formais) que se mobilizam para buscar e/ou propor soluções inovadoras para problemas públicos da cidade. São essas soluções que são chamadas de inovações sociais.
Ramiro Farjalla
Representando o IPG, o Vice-Presidente, Ramiro Farjalla, destacou que “a parceria com o IPG tem como o principal propósito o uso da plataforma para impulsionar o PEP20 porque é o espaço de iniciativas sociais para empoderar a sociedade civil organizada e que a inovação social está inevitavelmente aliada ao digital para fortalecer a cultura da participação cidadã ou cidadania participativa nos dias atuais e para as gerações presente e futuras.”.
Na oficina, o coordenador do projeto, professor Gustavo Costa, e os pesquisadores Reginaldo Braga Jr. e Carla Magno falaram um pouco sobre a abordagem teórica de políticas públicas que sustenta a pesquisa, apresentaram um protótipo da plataforma digital que está sendo desenvolvida para funcionar como uma ferramenta pública, colaborativa, e contaram como tem sido o trabalho de estudo e mapeamento da rede de iniciativas de inovação social e seus atores de suporte. “Na década de 90, um teórico chamado Frank Fischer propõe uma virada argumentativa das políticas públicas, que é a ideia de pensar as políticas públicas a partir dos agentes sociais situados no território. Então, basicamente, o que ele diz é que o Estado tem especialistas que pensam as políticas públicas de cima para baixo e esses especialistas do governo estão muito afastados dos problemas públicos, o que faz com que nem sempre a interpretação deles seja adequada para resolvê-los. Por outro lado você tem, na sociedade, organizações ou indivíduos que estão lidando com os problemas públicos cotidianamente, pensando soluções para esses problemas públicos e agindo sobre eles”, explicou Gustavo.
Gustavo Costa
Para mapear esses agentes sociais e as iniciativas em que muitos deles estão organizados, a equipe de pesquisadores utilizou, como um dos pontos de partida, por exemplo, a base de dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) sobre organizações da sociedade civil e também estudou o território de Petrópolis. “Dentro desse processo de preparação, desse trabalho inicial do planejamento do campo, a gente produziu alguns mapas até para entender, em uma etapa posterior, como é que essas inovações sociais dialogam com a dinâmica territorial do município”, comentou Reginaldo.
As informações sobre as iniciativas de inovação social, o perfil, a localização, as causas e as regiões em que atuam e de que forma agem são recolhidas a partir de um formulário, o que permite que os próprios agentes sociais possam cadastrar suas iniciativas e que a plataforma, futuramente, seja alimentada de forma orgânica e colaborativa. Por meio da produção de mapas e gráficos que vão cruzar essas informações, os pesquisadores pretendem, com essa ferramenta pública, produzir e disponibilizar conhecimentos que permitam dinamizar as trocas e interações entre as iniciativas e fomentar as inovações sociais, facilitando a mobilização e a organização diante das esferas de poder e, consequentemente, favorecendo o surgimento de mais iniciativas do tipo, ou seja, mais ideias de soluções para os problemas públicos de Petrópolis. No atual estágio da pesquisa, os pesquisadores têm agendado entrevistas diretamente com as iniciativas já mapeadas para aplicação do formulário, de forma que a ferramenta contenha uma base minimamente robusta de dados.
Uma combinação perfeita”. Assim Roberto Musser definiu a parceira da ACEP com o IPG. Responsável por articular a parceria, Roberto acredita na importância de “incorporar as visões das duas organizações com o compromisso do desenvolvimento sustentável de Petrópolis. Por um lado com a gestão social participativa e por outro na criação de um ambiente favorável aos negócios”.
A parceria foi formalizada em junho e de acordo com o Presidente do IPG, Cleveland Jones, “é uma demonstração de uma colaboração que pode beneficiar ambas as partes, e ampliar a oferta de serviços úteis aos empresários e à sociedade, fortalecendo o ambiente de negócios no município e ajudando a melhorar a qualidade de vida dos petropolitanos.” Cleveland acrescentou que “o IPG está muito satisfeito com a parceria celebrada, que reúne as competências da ACEP e do IPG em prol do desenvolvimento sustentável de Petrópolis”.
Além de ofertar novos cursos focados no conceito de ESG e outros, Cleveland destaca que esta união “também permitirá ao IPG continuar ampliando sua atuação para fortalecer a gestão participativa e promover um ambiente digno de uma cidade inteligente, um objetivo comum do IPG e da ACEP.”
A Presidente de Honra do IPG, Silvia Guédon, disse estar muito contente e afirmou que “a união de instituições como o IPG e a ACEP que possuem em suas diretorias pessoas bastante capacitadas, com uma trajetória de credibilidade, proporcionará a realização de grandes projetos”.
PESQUISADORA DO PROJETO EIS DESENVOLVIDO PELO INSTITUTO PHILIPPE GUÉDON
Conhecer a rede de interações e transações dos atores do Ecossistema de Inovação Social de Petrópolis é o objetivo do projeto de pesquisa “Cartografia do Ecossistema de Inovações Sociais de Petrópolis – EIS” que está sendo desenvolvido pelo Instituto Philippe Guédon (IPG). O projeto faz parte do programa pesquisador na empresa, da FAPERJ, que financia as bolsas para os profissionais que são encarregados de fazer a pesquisa, e conta também com a parceria do IPPUR (Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional/UFRJ).
A jornalista e escritora carioca, Carla Magno, é uma das pesquisadoras do projeto, coordenado pelo Dr.Gustavo Costa. Formada em Comunicação Social pela PUC-Rio, trabalhou em diversos veículos de comunicação de Petrópolis. Mestre em Educação pela Universidade Católica de Petrópolis (UCP), Carla participa pela primeira vez de um projeto de pesquisa com este tema. Em entrevista ao IPG, descreveu as atividades que desenvolve e também explicou sobre a importância desta pesquisa para Petrópolis.
IPG – O Instituto Philippe Guédon foi a Instituição que submeteu este projeto a um edital da Faperj. Então, poderia explicar sobre a importância de uma Organização da Sociedade Civil dar estímulo e apoio a pesquisas?
CM – Graças a essa disposição do Instituto Philippe Guédon estamos conseguindo trabalhar o nosso olhar cuidadoso e atencioso para algo que é fundamental, que é o envolvimento da população em torno das decisões e das resoluções dos problemas que são públicos, sendo assim, que atingem a todas e todos cotidianamente. Acredito que isso já é um forte indicativo sobre a importância do estímulo e do apoio à pesquisa.
IPG– O que te motivou a participar deste projeto?
CM – Ao longo de toda a minha formação, desde que comecei a tomar consciência das formas sociais extremamente injustas que sustentam esta sociedade, senti a necessidade de participar das questões públicas e de buscar caminhos, não apenas para melhorar a vida da população trabalhadora, mas para envolver as pessoas que constroem a cidade diariamente nas decisões e debates sobre suas próprias vidas, decisões estas que estão, quase sempre, nas mãos de pouquíssimas pessoas, em geral, homens brancos que ocupam os espaços de poder. Este projeto tem um objetivo incrível e muito importante que é facilitar e promover a articulação popular em torno de problemas que atingem a todas e todos nós diante do abismo social que provoca um dia a dia de luta por sobrevivência e não de vivência. Foi isso que me motivou a participar.
IPG – Qual as atividades que você desenvolve no projeto EIS?
CM – No momento estou trabalhando na parte de mapeamento de iniciativas que se encaixam no perfil das inovações sociais, assim como de seus atores de suporte, comunicação, agendamento e realização das entrevistas de cadastro. Também começo a produzir material para comunicação com a imprensa e organização de oficinas.
IPG – Quais os setores da sociedade serão mais beneficiados? Explique o porquê e quais esses benefícios.
CM – Qualquer setor que procure se organizar em torno de problemas públicos será beneficiado pelo projeto, porque ele pretende oferecer uma ferramenta de estímulo à articulação e à participação popular. Entre os benefícios que ele pode oferecer, através da plataforma digital em desenvolvimento, de perfil colaborativo, está o fortalecimento em torno das mesmas lutas com o reconhecimento de iniciativas com propósitos semelhantes; o contato com atores de suporte para apoio, financeiro ou não; a robustez na hora de demandar soluções e ações diante do poder público; ou seja, o benefício da dinamização da organização popular e da possibilidade de se criarem mais iniciativas de inovação social. Essa ferramenta pode estimular melhores práticas de transparência, participação social e gestão de informações. Conectada com uma base cartográfica, a plataforma terá a capacidade de gerar múltiplas leituras espaciais do conjunto de relações que compõem a rede do EIS, conectando suas expressões espaciais, temporais e informacionais. Além da cartografia, a plataforma pode abrigar dados e informações a respeito do EIS em diversas linguagens e formatos, como gráficos, diagramas, infográficos, dashboards, bancos de dados e mapas interativos, dentre outras formas de representação dessa complexa rede.
IPG – Qual a importância deste projeto para o município de Petrópolis?
CM – Petrópolis é uma cidade que, além de todos os problemas que já conhecemos, ligados à educação, à saúde, ao transporte, ao direito à moradia entre muitos outros, vem, mais recentemente, sofrendo com os efeitos das recorrentes alterações climáticas, muito por conta de um péssimo planejamento urbano e uma falta de atenção e de ações urgentes do poder público. Mesmo depois da inesquecível tragédia de 2022, quando terra e água levaram famílias inteiras e deixaram pessoas vivendo com esse trauma diário e com o medo de novos episódios como aquele, ainda não vemos um município preparado para lidar com as chuvas. A importância deste projeto está, justamente, em estimular e oferecer ferramentas para facilitar a organização e para incentivar a participação popular, diante deste cenário de urgência, em torno das decisões sobre nossas próprias vidas.
Entrevista à Teresinha Almeida – Gestora de Comunicação – IPG