IPG ENTREVISTA ROLF DIERINGER

Com os fenômenos climáticos cada vez mais frequentes e intensos, a grande preocupação de moradores de cidades como Petrópolis, com alto grau de vulnerabilidade à tragédias socioambientais, é saber como se adaptar e evitar vítimas fatais. Muitas vezes essas soluções podem surgir de muito estudo que chegam a ideias simples e de fácil acesso à população.

O IPG entrevistou um de seus membros, Rolf Dieringer, engenheiro agrônomo, que desde a década de 80 se dedica a este tema, quando questões climáticas e suas graves consequências ainda não estavam tão presentes nas discussões do cotidiano, mas já eram uma realidade em Petrópolis. Com seu projeto “Vigilantes da Chuva” , Rolf já colaborou não só para informar, como para transmitir conhecimentos que podem salvar vidas.

Confira abaixo a entrevista e deixe seus comentários.

IPG: Em seu trabalho com previsões meteorológicas já vivenciou diversas tragédias em Petrópolis. Com o avanço das mudanças climáticas, explique o que melhorou em termos de previsão desde, por exemplo, a tragédia de 1988, para que se evite ou minimize tragédias.

RD: Em relação às mudanças climáticas, essa variação ao longo dos anos é muito pequena e não tem assim muita influência. Agora a própria previsão melhorou muito nos últimos trinta anos. Hoje com o advento das fotos, as imagens de satélite são muito perfeitas, captadas de dez em dez minutos, e as imagens do radar são muito bem detalhadas. Existem as imagens sobre previsão de intensidade de chuva, muito mais seguras do que há trinta anos. Só para dar um exemplo, temos oito modelos diferentes, computacionais de previsão e, talvez, mais oito globais nos Estados Unidos, Reino Unido e outros países da Europa. São bastante precisos e conseguem ter um horizonte entre cinco e sete dias e com grau de acerto de oitenta a noventa por cento. Quanto mais rápido, quanto menor o prazo, maior a precisão.

Então, podemos dizer que a precisão de vinte e quatro horas, quarenta e oito horas, ela é muito grande. Porém, a própria dinâmica da meteorologia pode mudar muito rápido. Sabemos que a única coisa certa é que ela é incerta, quanto à previsão. Mas, o nível de acerto é muito grande e tem que ser. Porque não é só a questão da cidade. Também por causa da aviação que utiliza muito esses dados. Só no Estado do Rio são cinco ou seis radares meteorológicos diferentes. Entrará mais um agora em Petrópolis e temos em Niterói, Sumaré, Macaé, Guarativa, todos do Inea, além do Pico do Couto, da Aeronáutica. São níveis fantásticos. Você vê a imagem de dez em dez minutos e pode acompanhar tudo pela internet. Outra situação interessante é que além dos modelos computacionais e da previsão do INMET, podemos acompanhar todas as situações nas áreas em termos de formações meteorológicas de todos os aeroportos do Brasil, de hora em hora, e acompanhar a previsão das próximas seis horas de cada um dos aeroportos principais do Brasil.

IPG- Os fenômenos climáticos estão ficando cada vez mais intensos e frequentes. Então quais os desafios para os meteorologistas atualmente realizarem previsões mais precisas?

RD: Quanto aos fenômenos cada vez mais intensos, infelizmente, isso é uma verdade, não é uma estatística, é física pura. Cada grau que aumenta a temperatura do ar, aumenta a evaporação, o que aumenta a quantidade de umidade no ar em 7 por cento. Se tiver temperaturas dois ou 3 graus mais quentes em determinado dia você tem praticamente 20 a 30 por cento mais umidade do ar, ou seja mais 30 por cento de chuva. O grande desafio não é a precisão da meteorologia. O desafio é tornar a cidade mais resiliente a partir de que tipo de chuva. Hoje estamos muito bem em termos de previsão porque diferenciamos dois tipos de chuvas. Uma é quanto a intensidade, quanto chove em termos de milímetros, quantos litros chove por metro quadrado em uma hora. Quanto maior a intensidade, se a chuva for fraca, moderada ou forte, isso vai causar problemas de drenagem, de alagamento, inundação e de transbordamento dos rios. Já a chuva que causa deslizamentos, é uma chuva que encharca bem o solo, pode demorar 10 ou 12 horas para encharcar, e se ainda houver nesse solo encharcado uma chuva forte, aí temos uma grande quantidade de deslizamentos.

Hoje já tenho alguns modelos desenvolvidos para Petrópolis, e também as próprias Defesas Civis do Brasil e também o Cemaden possuem modelos bem precisos que indicam quais são as chuvas e, digamos qual o gatilho, que é o momento a partir do qual haverá deslizamentos ou alagamentos e transbordamentos. Temos alguns limites bem definidos para Petrópolis para deslizamentos muito precisos. Podemos resumir isso que também está resumido no próprio pluviômetro artesanal que desenvolvemos, que os deslizamentos começam a ocorrer quando ocorre chuva acumulada de cem milímetros. Ou também quando a chuva for acumulada em quarenta milímetros em uma hora, também começa a ocorrer deslizamentos.

Quanto aos transbordamentos, ocorrem quando a chuva é muito forte. Por exemplo, na Coronel Veiga se tiver uma chuva acima de 26 milímetros já começamos a ver o transbordamento. Já no Bingen, Piabanha, no Santa Teresa ou no centro, aí a questão já é mais de 40 milímetros em uma hora. Nós já sabemos quanto à intensidade, fraca, moderada ou forte, que vai definir se vamos ter alagamentos e transbordamentos. Podemos ter os deslizamentos em função de uma chuva grande de cem milímetros ou acumulada em uma hora de 40. Então, deslizamentos são uma função que pode variar conforme a intensidade com o acumulado. Então, se estiver muito acumulado e pouca intensidade e tiver acumulado em 100 milímetros, vai ter deslizamento. E se tiver chuva forte de 40 milímetros, posso ter deslizamento também. Ou de 70 acumulado mais uma chuva de 30 em uma hora, pode ter também.

O que vemos hoje tanto no Inea, Cemaden, e que ouvimos falar são riscos geológicos e riscos hidrológicos. O hidrológico é quando a chuva e se refere a água, alagamentos e enchentes. E o geológico se refere aos deslizamentos e esses modelos do risco geológico são os que apontam risco de deslizamento e o hidrológico aponta o risco de alagamento e transbordamentos de rios. Hoje também estamos introduzindo mais um parâmetro de risco que chamamos de risco ambiental, que é no momento em que a terra estiver muito seca e houver risco de incêndios florestais ou stress hídrico da planta. Porque a planta (vegetação) pode morrer também e isso vai acarretar problema de instabilidade das encostas e de abastecimento de água da cidade, aumentando diretamente o lençol freático da cidade.

IPG: Como surgiu a ideia do projeto Vigilantes da Chuva?

RD: Eu comecei a pesquisar tudo isso em função de um grande problema que houve em Petrópolis, quando morreram 25 pessoas lá no Independência em 1981, e também teve uma tragédia na serra de Teresópolis, no posto do garrafão, onde morreram 30 pessoas. Não me conformei e pensei “mas isso não pode ser previsto?”. Todo mundo falava que era a chuva e aí naquela época eu estava fazendo o curso de aviação e uma das matérias mais importantes na aviação é a meteorologia. Então, perguntei ao previsor em 1981 se não poderia prever que ia chover tanto, que ia causar tragédia lá em Teresópolis e ele respondeu que sabia que ia chover muito, que ia ser problemático, mas que o seu trabalho era passar as informações para a aeronáutica, para fins de aviação e não avisar para as prefeituras. Foi assim que me dei conta quanto que as prefeituras estavam desconectadas da previsão meteorológica. Comecei a estudar e observar toda chuva que acontecia em Petrópolis. Desde 81 a 84, anotei chuva dia a dia, sabendo qual chuva que dava problema e a que não dava. Tive apoio da aeronáutica, consegui pegar dados meteorológicos de um período de 15 anos, das estações do Galeão, do Santos Dumont e Campos dos Afonsos. Fiquei um mês lá estudando esses dados e consegui levantar qual a quantidade de chuva que dava problema.

Então, em 84 publiquei meu primeiro trabalho no Primeiro Congresso Brasileiro de Defesa do Meio Ambiente. Esses dados também foram inclusive publicados nos jornais de Petrópolis. Achei que publicando isso, todo mundo ia levar em consideração e se prevenir desse tipo de chuva. Mas, em 88 eu vi o que estava acontecendo, avisei à radio, à polícia e falavam “o que que eu posso fazer?” E na rádio ainda falaram que não podiam avisar porque a população entraria em pânico. Aí quem entrou em pânico fui eu, porque eu sabia que ia acontecer uma tragédia aquela noite e não podia fazer nada, parecia que eu era o louco e infelizmente naquela noite morreram 173 pessoas, 1000 ficaram feridas e houve 500 deslizamentos. Se formos analisar os deslizamentos que ocorreram lá, se todo mundo tivesse sido avisado antes poderiam ter saído e não morreria quase ninguém. Foi daí em diante que eu fiz meu primeiro trabalho de diagnóstico. Em 88, dos 500 deslizamentos só quatro foram naturais e os outros 496 tiveram como causa falta de drenagem, aterro inadequado, drenagem ineficaz, corte inadequado de morro. Todas as causas foram por ocupação desordenada e critérios básicos de construção completamente ignorados. Com base nos dados que eu já tinha publicado em 84, avisei a todo mundo quais os níveis de chuva que poderiam acontecer deslizamentos.

Nesse trabalho observei bem claro que Petrópolis, se chover duas horas 90 milímetros vamos ter enchente na cidade e acima de 130 mm, deslizamentos. Quanto mais chuva acumulada, maior a quantidade de deslizamentos. Baseados nesses estudos é que desenvolvemos (Vigilantes da chuva) o pluviômetro. Na época não tinha PET, foi feito em lata de leite em pó e colocava uma régua dentro da lata para medir a altura que atingia o limite. Depois evoluiu para uma garrafa de 51, que a gente cortava em cima e a altura que ela atingia os milímetros era marcada por fora. Depois evoluímos para a lata de soja e o PET foi só em 2010. A primeira vez que foi implantado e que teve sucesso foi no governo Gratacós (década de 90), com o secretário da primeira Defesa Civil Municipal, Sílvio de Carvalho, e implantamos isso como voluntários e assim surgiu o “Vigilantes da Chuva”. Em 1990 e 1991 tivemos chuvas de 150 mm, novamente mais de 500 deslizamentos, só que foi durante o dia e a prefeitura e Defesa Civil orientaram os moradores a saírem de suas residências nas áreas de risco para evitar tragédias.

Esses foram os primeiros casos de sucesso de prevenção. Ocorreram duas vítimas fatais que não quiseram sair da residência. A partir daí ganhou uma dimensão e foi implantado inclusive em Teresópolis em 2000. Em 2002 fizemos pela primeira vez o sistema com a leitura dos pluviômetros e mandamos isso via internet e e-mail para os órgãos de Imprensa e que informava que a partir de um determinado nível a cidade estava correndo tal e tal risco e em tal bairro. Cada vigilante informava o índice e se passava acima de 100mm aquele bairro entrava em área de alerta. Com isso, salvamos dezenas de pessoas e conseguimos junto ao MPE em 2004 implantar o primeiro site do Vigilantes.

IPG: Normalmente as previsões meteorológicas são apresentadas para o público de um modo geral, para um estado ou município, sem muitos detalhes. O seu projeto Vigilantes da Chuva faz uma previsão mais específica para Petrópolis, explicando o que pode acontecer, por exemplo, dependendo do volume de chuva, citando inclusive os bairros, que podem ter previsões diferentes.

RD: Para Petrópolis podemos ter várias previsões e isto está relacionado ao tipo de chuva. Temos por exemplo, uma chuva de frente fria, ela vem mais do sul. Quando é de rios voadores da Amazônia, vem do noroeste, ou seja de Itaipava em direção ao Centro, para o interior de Minas para Petrópolis. No caso da frente fria que vem do sul, no Quitandinha, Bingen e Alto da Serra. Quando vem da frente localizada no mar, joga muita umidade para Petrópolis se concentra Zona Sul, Alto da Serra, Morin, Siméria, Independência, Quitandinha e Bingen. E pode até nem chover em Itaipava. Temos que levar em consideração que Petrópolis tem vários tipos de clima. Há regiões como Alto da Serra e Morin que chove 2 mil milímetros por ano, enquanto Pedro do Rio e Itaipava chove só metade disso, 1.100. Já em Araras 1.600 e no Centro 1.800.

Muitas vezes chegamos em Petrópolis por exemplo pelo Quitandinha, com nevoeiro, e no Centro faz até sol. A mesma coisa no Alto da Serra ou tem chuva no Centro até o Brazão, dali em diante para Itaipava agente tem um tempo bem ensolarado. Isso está relacionado com a direção dos ventos. Por exemplo, o vento que vem trazer umidade do mar e vai bater no Alto da Serra e quando chega no Brazão já não tem umidade nenhuma. Isso quer dizer que uma chuva de 100mm no alto da serra não acontece em Itaipava. Por isso que as previsões são muito diferentes em Petrópolis em função da localização de cada bairro. Podemos dizer no geral que a região da zona sul, Centro, Castelânea, Alto da serra, Morin, Independência, Quitandinha e Bingen são áreas que tem um índice de chuva bem maiores do que na Mosela ou em Itaipava, Cascatinha. Então, realmente os índices variam muito na cidade e isso acarreta uma diferença enorme também na vegetação. No Alto da Serra praticamente não pega fogo e em Secretário e Itaipava todo o inverno tem seca e muitos incêndios florestais e a própria floresta no alto da serra é uma floresta sempre verde e em Itaipava nós chamamos de floresta caducifólia. Ou seja, caduca as folhas. No inverno as florestas da região de Itaipava e Secretário, as árvores perdem as folhas por causa da seca e em outubro e novembro emitem folhas de novo em um verde até clarinho.

Isso aí é uma diferença da vegetação. Temos quatro biomas diferentes em Petrópolis: escarpa da serra, em Itaipava que já e una característica de região de seca, praticamente não chove no inverno; o clima de altitude, no Açu, onde tem geada e já não tem quase vegetação, é só uma vegetação rasteira; floresta de baixada, quase no Meio da Serra, já é uma vegetação mais intensa, mais forte, por causa do calor. Nota-se na região de Itaipava e Secretário que as gramíneas ficam praticamente secas no inverno e na região do Vale do Cuiabá, estrada para Teresópolis também.

IPG: Acredita que com os projetos desenvolvidos pelo Vigilantes da Chuva é possível alavancar melhorias na segurança não só em relação a deslizamentos, mas também a enchentes e incêndios? Se sim, como?

RD: O aumento da melhoria da segurança em relação aos deslizamentos foi em função desses gatilhos em cima de quais valores tínhamos. Esses dados foram muito importantes e melhoraram a segurança, a implantação em Petrópolis dos sistemas das estações pluviométricas, tanto do Inea quanto do Cemaden, depois da tragédia de 2011. Antes o que funcionava era o pluviômetro artesanal, mas dependia exatamente da leitura feita pelo próprio vigilante da chuva. Na tragédia de Cuiabá só tivemos um único vigilante fazendo a leitura e não houve mobilização. Então, enquanto não houver mobilização, conscientização e respeito aos níveis de gatilho não haverá progresso na segurança. Felizmente nas chuvas de 2024 e 2025 a cidade estava muito consciente sobre esses níveis de gatilho, mandou o pessoal ir para os apoios e houve comportamentos importantes, como feriado escolar, para evitar deslocamentos desnecessários, evitar carros e ônibus presos na rua, então são grandes avanços que a cidade já está tendo.

Paradoxalmente, os grandes avanços das estações pluviométricas que foram instaladas, provocaram a desativação do pluviômetro artesanal e aí ninguém mais faz leitura, ninguém tem acesso aos índices das estações. Por isso, houve um retrocesso muito forte e voltamos a ter tragédias, pessoas pouco conscientizadas, o que resultou na grande tragédia do dia 15 de fevereiro de 2022. Porque se os moradores lá no Alto da Serra, no Morro da Oficina, tivessem a informação do pluviômetro, do limite de gatilho, 100mm, sairiam das áreas de risco e não teríamos essa grande tragédia no Morro da Oficina. Teríamos sim a tragédia de desabamento das casas, mas essa área deveria ser desocupada a partir do momento que atingisse o nível de alerta para deslizamento e o nível tinha sido atingido uma hora antes e ninguém estava mobilizado, instruído para isso. Por isso essas 90 mortes no Morro da Oficina. Fora a população tentando atravessar ruas alagadas, problemas dos dois ônibus na Washington Luiz. Todos os problemas ocorreram em função de comportamentos inadequados para grandes precipitações. Quanto à melhoria de segurança dos deslizamentos hoje já se propaga, até através da imprensa, do risco geológico, do risco hidrológico, só está faltando o risco ambiental.

O sucesso da mobilização da cidade é ela entender que não podemos evitar nem a enchente, nem o deslizamento, mas podemos fazer com que as pessoas fujam das áreas de transbordamento, evitem essas áreas onde há mais probabilidades de os deslizamentos acontecerem. Se isso for respeitado e levado a sério pela população, não teremos vítimas fatais em função desse tipo de deslizamento. Não depende só da previsão, depende principalmente do comportamento da população de evitar as áreas de risco, no momento de risco.

IPG: Uma questão que também envolve a meteorologia é a comunicação de risco. Muitas vezes é divulgada uma previsão que não acontece e isso pode desacreditar a meteorologia. Ao mesmo tempo, se essa informação é minimizada ou até descartada, pode fazer com que a população não se previna adequadamente. Então, qual a sua sugestão para que essas informações sejam divulgadas, sem causar pânico ou não serem subestimadas? Como chegar a este equilíbrio?

RD: Esse talvez seja o nosso maior desafio. Uma comunicação direta e reta para a população e que não seja uma informação generalizada. Eu considero que é muito importante se adequar. Por exemplo, muitas vezes os órgãos de meteorologia dizem assim: “amanhã vai chover chuva que pode ser forte algumas vezes” e não informa nada sobre quantidade, se a chuva que está prevista para acontecer em termos de previsão de milímetros atingirá ou não o nível de início de deslizamento ou possibilidade de transbordamento dos rios. Então é nisso que o Vigilantes está tendo uma credibilidade muito grande porque interpretamos as previsões meteorológicas que possam atingir níveis daqueles que temos em nosso modelo, que podem ocorrer deslizamentos, se essa chuva vai chegar ao nível de deslizamento ou se essa chuva vai ter uma intensidade tão forte que possa causar transbordamentos. Acho que é isso que a população precisa saber. Ela não precisa só saber que vai chover ou não, mas se chover, pode dar enchentes? Sim ou não? Pode dar deslizamentos? Sim ou não? É informar o que tipo de chuva vai causar. Esse tipo de informação é que tentamos passar para a população.

Nós não somos um órgão de previsão do tempo. A gente só interpreta as previsões que existem em cada uma das regiões de Petrópolis e analisa isso com a umidade do solo em cada uma dessas áreas. Por exemplo, uma chuva de 100mm em Itaipava, que já não chove há dois meses pode não causar absolutamente nada, mas no Alto da Serra que já choveu talvez semana passada, 100mm, então o solo está encharcado não vai aguentar 100mm sem problemas. Procuramos sempre definir os riscos que existem. geológico e hidrológico. Essa é a nossa principal missão: tentar traduzir isso para a população. O grande problema que está ocorrendo às vezes, é que o INMET manda uma previsão que pode ocorrer chuvas de 100mm, mas não diz nem onde, nem como e a gente procura trazer essa informação só quando está chegando algum temporal na cidade, quando no radar mostra que há possibilidade de chuva forte, nas nuvens que estão no radar e que elas estão chegando a Petrópolis. Nossa previsão procura chegar no nível de precisão de informar uma ou duas horas antes, que esta chuva vai dar problemas. A gente tem um cuidado muito grande sobre comunicação de risco, só informa quando temos uma certeza absoluta, ou se já temos informações concretas.

Recentemente, tivemos uma situação de chuva muito significativa em termos de alagamento vindo de muita chuva em Caxias. Já tínhamos informação do que havia caído no Pico do Couto e em Xerém. Aí realmente deu problema no Quitandinha e Bingen, mas parou por ali. Informamos antes que a chuva pudesse causar problemas de inundação, já sabíamos que podia ter um nível mais intenso de transbordamento. Quando falamos no nosso boletim chuva significativa é uma chuva que pode ser significante quanto a deslizamentos e também transbordamentos. Toda vez que a gente fala que a chuva pode ser significativa é um sinal de risco. Quando esses níveis de acumulados já foram atingidos e pode haver mais chuvas, aí a gente é mais incisivo quanto ao risco e informa para a população. Nós temos praticamente acompanhamento de 24 horas das chuvas no Estado do Rio e a Defesa Civil também. Quando não tem mais informação sobre ser significativa, procuramos não criar pânico e só informamos quando ela realmente ocorreu perto daqui. Infelizmente muitos informativos que são dados pelo INMET, por exemplo de hoje até amanhã de amanhã, de riscos de chuvas severos, às vezes a chuva vai embora e fica essa previsão pendente lá.

IPG: Divulgar a previsão é importante para que os moradores possam tomar decisões mais conscientes, porém muitas vezes a informação tem uma linguagem muito técnica e de difícil compreensão para um leigo. Além disso, o problema não se resume apenas se vai ou não chover, mas por exemplo, se numa determinada região pode ser habitada ou não e como as condições meteorológicas podem definir a decisão de um morador em construir uma casa em determinada região. Sendo assim, de que forma poderíamos capacitar os moradores para que possam decidir sobre questões de segurança?

RD: A linguagem em termos das observações meteorológicas é um problema quando falam muita questão técnica. É uma situação muito séria quando falam, por exemplo, sobre convergência do atlântico sul, núcleos, etc., e pouca gente sabe o que é núcleo, que são as nuvens de temporal. Então, é preciso um certo cuidado e evitar falar sobre núcleos. Podem ver que o Vigilantes sempre está falando que está chegando um temporal. Que pode ser forte ou fraco. Tem que tomar cuidado porque se fala forte o pessoal associa que pode ser um problema grave. Mas uma chuva forte se não durar muito, for rápida, não causa problemas. Mas, se durar muito aí sim pode ocorrer. Então a gente evita situar os moradores das áreas de risco porque se a chuva prevista pode ser significativa quer dizer que ela pode atingir níveis de deslizamentos ou causar transbordamentos. Temos um cuidado muito grande com isso para ficar claro que uma chuva forte não quer dizer que vai desabar tudo. Ela pode ter uma intensidade forte e demorada mais do que uma hora, pode sim dar sérios problemas na cidade. Agora se ela for uma chuva forte por algum momento, até 10, 20, 30 minutos não há problema.

Quanto à capacitação para a segurança das encostas, isso é principalmente uma questão de aprendizado dos moradores, e aí é uma questão de engenharia. Temos que trabalhar sobre drenagem, aterros adequados, muros de contenção, calhas nas casas. E, obviamente, na dúvida, o morador deve sempre solicitar orientação técnica da própria defesa civil e da prefeitura para saber o que fazer e ter segurança.

IPG – O Vigilantes da Chuva possui outros projetos, como o desenvolvimento de pluviômetros e de medidores de umidade do solo, que podem ser úteis para a segurança da população? Explique como estes projetos estão sendo desenvolvidos e como os moradores podem ter acesso?

RD: Quanto aos pluviômetros, nós já temos um modelo, padrão, mas pode variar um pouco porque temos tipos de leitura diferentes no pluviômetro de PET artesanal. Um que mede a chuva acumulada em 24 horas, com aquela régua de vigilância, atenção, e alerta acima de 100mm e outro com uma régua que informa que 40mm em uma hora, o que é importante para o risco de deslizamento, e também mede o risco de transbordamento de rios. Ano passado o pluviômetro artesanal foi distribuído pela SOS SERRA para mais de 1000 pessoas. Isso é importante para a conscientização do que é milímetro e da importância de saber o que cada quantidade significa. Temos o pluviômetro artesanal com sirene que leva em conta a intensidade, que apita sobre quais são as chuvas que podem causar transbordamentos. Ao usar o pluviômetro é preciso cuidado para que a graduação esteja correta e que o ponto a partir de onde ele é medido, o ponto zero, esteja num piso seguro para que não seja arrastado pelo vento.

Também estamos testando um, e que deve ser implementado em todo o Estado do Rio, através da Emater, com os produtores rurais, que servirá para o produtor acompanhar o que está acontecendo em termos de chuva na propriedade dele. Isso é muito importante para que ele saiba como está o solo para plantio. Estamos negociando com a Emater para ver tecnicamente como viabilizar isso para os produtores. Mas, com certeza é uma ideia que funciona muito bem, porque já temos isso na região de Cachoeiras de Macacu e muitos produtores nos dão retorno através de fotos enviadas pelo whatsapp, nos informando a quantidade de milímetros. Para o produtor, na verdade, ele usa dois pluviômetros. Um que é esvaziado todos os dias e outro que não. Isto informa o quanto choveu e o quanto evaporou, pois assim temos uma aproximação do balanço hídrico para cada região. Isso é muito interessante em termos também de uso sustentável da água. Porque dá uma ideia muito clara se estamos caminhando para uma época de seca, se o solo está ficando também seco, se as florestas estão ficando estressadas, se há riscos de incêndios.

Tudo isso depende do balanço hídrico. E é exatamente isso que estamos lançando em evento na UNIFASE, que é para o risco ambiental, que leva em consideração a questão do balanço hídrico, ou seja, a umidade que está no solo. Desenvolvemos um aparelho chamado medidor de umidade artesanal, que é bastante preciso, tem algumas peculiaridades, mas é muito importante para beneficiar as defesas civis sobre encharcamento. Petrópolis mais uma vez é pioneira, talvez, porque estamos lançando um instrumento que vai identificar exatamente onde a cidade está com riscos de incêndios florestais, baseado no índice da seca, como também previsões meteorológicas em função da seca, das altas temperaturas, da pouca umidade e também se a vegetação está seca ou não. Quando a vegetação de Itaipava está mais seca temos um risco muito maior de incêndios e se tiver temperaturas altas, pouca umidade e ventos, qualquer faísca, como de uma bituca de cigarro, pode causar incêndios de grandes proporções.

O modelo de gatilho para deslizamentos não depende só da chuva em termos de acumulados e intensidade, depende de uma outra coisa, que muita gente quebrou a cara porque não levou em consideração, que é o quanto o solo está seco ou encharcado e esse parâmetro não está sendo medido por nenhuma Defesa Civil. O modelo que estamos implantando, será um instrumento muito preciso porque dá um noção muito clara de quais sãos as regiões do Estado que realmente estarão com problemas de incêndio ou não, porque no Estado do Rio, temos pelo menos seis climas deferentes: Costa verde, Angra dos reis, onde chove bastante e tem muito verde; Baixada fluminense, chove bastante, mas faz muito calor e evapora rápido e o solo seca rapidamente; Baixada Litorânea, que engloba Campos, Cachoeiras de Macacu, Macaé, menos chuvas, bastante evaporação; e uma região que tem menos chuva, bastante evaporação, praticamente clima de nordeste, com floresta de cactos, Búzios e Cabo frio; Médio Paraíba, bastante chuva, atingido pelos rios voadores da Amazônia e a região serrana, que recebe os rios voadores da Amazônia e muita umidade do mar.

Cada uma tem seu balanço hídrico diferente, que vai impactar no gatilho de deslizamentos e inundações. Porque, por exemplo, se o solo tiver muito seco e tiver uma chuva de 100mm ou de 30mm ou 40 mm precisa encharcar o solo primeiro para jogar a água para o rio. Então a resposta à inundação é mais demorada se o solo estiver já encharcado.

Se a população compreender o que é ou não uma chuva significativa, aprender a medir, com certeza a população estará mais segura pois saberá da possibilidade de ter um deslizamento e poderá se proteger. Fico contente que hoje a população já entende o significado de milímetro. Há trinta ou quarenta anos até engenheiros não sabiam bem. Isso já mudou muito e se estiver enraizado na população, não vamos nos preocupar.

Entrevista e edição: Teresinha de Jesus Fidelles de Almeida

PROJETO INCUBA AÍ

IPG PARTICIPA DO ENCONTRO DE INICIATIVAS E TERRITÓRIOS PROMOVIDO PELO PROGRAMA PISTA-PETRÓPOLIS

O Presidente do Instituto Philippe Guédon, Professor Cleveland M. Jones, participou nesta quinta-feira (29/01) do Encontro de Iniciativas e Territórios, promovido pelo PISTA – Programa de Inovação Social, Tecnologia e Ambiental. Financiado pela FAPERJ, o programa é uma iniciativa que promove o empreendedorismo e a inovação sustentável, com foco em áreas de impacto social no estado do Rio de Janeiro, incluindo o município de Petrópolis. O objetivo é conectar ideias, pessoas e soluções sustentáveis, transformando realidades locais e fortalecendo o ecossistema de negócios de impacto no território de Petrópolis.

Cleveland Jones coordena o projeto “Incuba Aí”, um dos contemplados, em Petrópolis, dentro do edital para o Pista, e que está sendo desenvolvido no bairro Independência. O encontro, realizado na FATERJ, patrocinado pela equipe de apoio do PISTA, reuniu todos os envolvidos com a chamada da Faperj para o PISTA, inclusive aqueles de fora de Petrópolis, para uma troca de experiências entre os diversos territórios que participam do programa. Além de iniciativas petropolitanas, participaram projetos de Magé, Rocinha, Morro do Alemão e outras.De acordo com Cleveland “Como o projeto “Incuba Aí” será uma incubadora de iniciativas petropolitanas, despertou grande interesse, pois poderá apoiar os projetos incubados com orientação, capacitação, mentoria e consultoria, e até apoio para captação de recursos de editais e de outras fontes”.

O “Incuba Aí” conta com duas sedes para receber iniciativas incubadas e desenvolver as atividades. Uma na Acep (Associação Comercial Empresarial de Petrópolis) e outra no colégio Centro Educacional Comunidade São Jorge, no Independência. Além de Cleveland, a Internacionalista Ana Lucia de Lacerda Gonçalves também faz parte da equipe. O IPG participa como entidade associada e a Acep como parceira executora e administrativa do projeto, através da Diretoria de Inovação e Novos Negócios da ACEP, liderada por Roberto Musser.

A incubadora “Incuba Aí” já está recebendo ideias e projetos para serem incubados, e convida a todos os interessados para fazer contato e agendar uma reunião prévia para discutir como alavancar o sucesso dessas iniciativas, em prol do desenvolvimento local e sustentável em Petrópolis. Os contatos podem ser feitos através do e-mail ipgpar@gmail.com ou pelas redes do IPG: Instagram: https://www.instagram.com/ipgpar/

Facebook: https://www.facebook.com/institutoprogestaoparticipativa/

Linkedin: https://www.linkedin.com/in/ipg-instituto-philippe-guédon-1686b0226/

O IPG PRESTA HOMENAGEM A PHILIPPE Guédon


Para homenageá-lo, alunos de arquitetura participarão de concurso para elaborar uma placa comemorativa

Em 25 de outubro de 2020, coincidentemente, dia da democracia, falecia uma das figuras públicas mais carismáticas de Petrópolis: Philippe Guédon. Empresário, político, mas principalmente um cidadão consciente, que acreditava que a participação popular era a ferramenta para a consolidação do processo democrático. Por isso, para marcar a data e a importância de seu fundador, o IPG está lançando um concurso para elaborar um marco comemorativo que será instalado na Casa dos Conselhos, ao lado do prédio da Prefeitura Municipal de Petrópolis.

Cleveland M. Jones, Presidente do IPG, explica que a diretoria resolveu fazer esta ação “como lembrança de seu empenho em incentivar e liderar esforços em prol da gestão participativa, da melhoria da qualidade de vida e do desenvolvimento sustentável em prol da população, e um concurso é uma forma colaborativa de participação”.

Para realizar o concurso, o arquiteto e professor Adriano Gomes, também membro do IPG, convocará seus alunos para apresentar projetos de uma placa ou outro elemento comemorativo. Uma comissão julgadora composta por Karina Wilberg (arquiteta e Diretora de Estratégias do IPG), Cleveland M. Jones e o professor Adriano selecionarão a proposta vencedora, que será utilizada para elaborar o marco comemorativo e instalada na Casa dos Conselhos, em data a ser determinada.

Quem foi Guédon?

Temas como gestão e orçamento participativo, valorização dos catadores de materiais recicláveis, estímulo à formação de associações de moradores, observatório de transparência das contas públicas e muitos outros assuntos que parecem que surgiram há pouco tempo, já faziam parte dos objetivos de Guédon. Municipalista, Philippe Guédon acreditava que a gestão participativa era essencial para o pleno exercício da democracia, especialmente em relação às políticas municipais, que tão diretamente afetam os moradores. Cleveland M. Jones, atual Presidente do IPG, conviveu bastante com Guédon e destaca que “Guédon se dedicou intensamente a promover a gestão participativa e era um profundo pensador sobre como a política partidária é exercida no Brasil, e ele lembrava que nenhum dos estatutos partidários cita o princípio fundamental da Constituição –“Todo o poder emana do povo”.

Em 2013 fundou o Instituto Pró-Gestão Participativa que, após seu falecimento, foi transformado no Instituto Philippe Guédon, presidido por Cleveland M. Jones e que tem como presidente de honra sua filha Silvia Guédon. Um dos principais objetivos é manter vivo o legado de Guédon, através das ações do IPG. Cleveland também ressalta que Philippe Guédon ficou feliz pelas conquistas que chegou a ver realizadas, como a construção colaborativa do PEP20 – Planejamento Estratégico para Petrópolis com Visão de 20 Anos, “e certamente ficaria feliz de ver que o IPG segue fomentando e operacionalizando as iniciativas de participação cidadã, e alcançando novas conquistas”.

Além de um exemplo de cidadão preocupado com a Democracia e com as políticas públicas do município, Guédon também foi uma referência em seu núcleo familiar. Philippe Chaves Guédon e Rodolfo Guédon Tobler, netos de Guédon, em depoimento ao IPG, contaram como o avô foi importante para suas formações como cidadãos e relembraram momentos marcantes. O neto Philippe lembra de “quando Guédon subiu as escadas do Clube Petropolitano, quando o seu direito ao voto esteve ameaçado por um erro que colocava um senhor de 80 anos para subir escadas para votar, ele desceu da cadeira de rodas, rastejou, subiu as escadas e exerceu o seu direito”. Rodolfo conta que “Muitas vezes não entendia nem o assunto, mas admirava como ele podia, em todos os dias de sua vida, pensar em transformar o mundo em um lugar melhor”.

Para inspirar os participantes do concurso, o IPG reuniu os depoimentos, na íntegra, dos netos de Guédon e também o artigo “Trajetória de Guédon”, escrito por Maria Melo.

Confira abaixo, na íntegra, os depoimentos dos netos de Guédon

Philippe Chaves Guédon

Antes de iniciar, é importante que uma apresentação seja feita. Sou Philippe (Chaves) Guedon, neto de Philippe Guedon. Tive o privilégio de conviver com ele até a sua partida em 2020 e tê-lo como referência para sempre. Compartilhei com ele o gosto pela história, pela política e pelas discussões sobre participação. Esses assuntos moldaram a minha formação e minha atuação profissional e, sem dúvida, tem absoluta relação com o papel que ele desempenhou em minha vida. Hoje, o relato é para trazer lembranças do Philippe, cidadão engajado é apaixonado por Petrópolis. Lembro que, há cerca de vinte anos, ainda em meu período escolar, recebi a incumbência de chamar alguém para participar de um debate. Na hora, pensei no meu avô. Eu não tinha muita ideia sobre a sua importância para a cidade, para os movimentos participativas ou para o planejamento do município. Ele era meu avô e gostava de política; devia bastar, pensava eu. Ele foi. Já tinha suas dificuldades de locomoção, adentrou o auditório da escola e pegou o microfone para saudar o público e fazer suas primeiras observações. O público era de jovens, adolescentes, muitos não interessados sobre o que a política poderia trazer para vida deles. Não lembro o tempo da intervenção, mas não deve ter durado mais do que uma hora. A sua paixão pelos temas caros à cidadania era tão evidente que era difícil que alguém não se conectasse com o que ele dizia. Afinal, todos somos impactados pela política, diariamente, querendo ou não, percebendo ou não. Saímos de lá e foram muitas as manifestações positivas sobre o encontro, sobre o tema e sobre as suas falas. Ali, ficou claro para mim que aquilo era um dom. Era capaz de despertar interesse ou gerar uma inquietação até naqueles menos propensos a isso. E o mais bonito: esse dom estava à disposição de todos, pensando na coletividade e em como melhorar a nossa vida. Foi esse espírito que o guiou até os últimos dias. Foi esse mesmo espírito que o fez subir as escadas do Clube Petropolitano em uma espécie de rastejo quando o seu direito ao voto esteve ameaçado por um erro que colocava um senhor de 80 anos para subir escadas para votar. Ele desceu da cadeira de rodas, rastejou, subiu as escadas e exerceu o seu direito. Felicidade a nossa, enquanto família e apaixonados por Petrópolis, que tudo aquilo que ele trouxe até 2020 não se foi junto com ele. São muitos os que foram impactados por essa energia, que recebeu o nome de Philippe Guedon (o verdadeiro). As suas ideias continuam fortes e vivas e o Instituto Philippe Guédon representa essa importância. Agora, cinco anos após a sua partida, Petrópolis continua precisando dessa energia e é um privilégio continuar sentido ela, agora através de diversos outros amigos e companheiros. Um salve para o Instituto Philippe Guedon e um viva para o Philippão, meu avô, de quem tenho muita saudade.

Rodolfo Tobler Guédon

Ser neto do vô Philippe talvez seja o grande privilégio que tive em vida.
Nesses últimos 5 anos tem sido difícil equilibrar a saudade, que só aumenta, com a gratidão em ter convivido tanto tempo com uma pessoa tão especial. Ele continua presente em minha vida. Em toda decisão, novidade ou dificuldade, é nele que penso! Entender a importância de fazer o bem ao próximo, buscar uma sociedade melhor e viver em espírito coletivo, é a maior herança que poderíamos receber. Todos os dias tento ser um pouco mais PhG.Receber um e-mail ou ouvir os próximos planos para seu novo livro, é o que me faz mais falta. Muitas vezes eu não entendia nem o assunto, mas admirava como ele podia em todos os dias de sua vida pensar em transformar o mundo em um lugar melhor. Viver esse privilégio e carregar esse nome é o grande desafio que o IPG tem vem fazendo tão bem nesses anos. Viva vô Philippe, minha maior referência!

Entrevista Maria Fernanda Fadel – Vida Sustentável

Quando pensamos em profissionais da área ambiental, quase sempre lembramos dos biólogos, engenheiros florestais e catadores de materiais recicláveis. Mas a sustentabilidade deve ser inserida em todas as áreas e profissões. E uma categoria que consegue implementar projetos sustentáveis, incluindo diversos profissionais em suas atividades, é o designer de interiores sustentável.

Para compreender melhor sobre essa atividade, o IPG conversou com a gestora de projetos, Maria Fernanda Fadel. Formada em Design de Interiores, também é graduada em Administração Pública pela Universidade Católica de Petrópolis e possui MBA em Administração Pública, concluído na Fundação Getúlio Vargas. Com larga experiência em desenvolver projetos de interiores de forma consciente adotou a sustentabilidade também como um estilo de vida. Em seus trabalhos ela é responsável pela criação, execução e acompanhamento de  projetos de Arquitetura de Interiores em residências e espaços comerciais. Minimizar o impacto ambiental e promover a saúde e o bem-estar dos ocupantes é uma de suas prioridades. Por isso, utiliza materiais ecológicos, estimula a eficiência energética, a redução de resíduos e a incorporação de elementos da economia circular. Maria Fernanda reaproveita bastante materiais de demolição e foi uma das fundadoras do movimento Redesign Mood. Colaboradora do IPG, conheceu Philippe Guédon e acredita que ele deixou um grande legado para o município.

Confira abaixo a entrevista na íntegra

IPG – Você já está há algum tempo desenvolvendo projetos de sustentabilidade na área de moda e de design de interiores. O que te motivou a entrar nesta área?

MF – Desde  a minha infância sentia uma necessidade interna de reaproveitar objetos e roupas e recriar em cima deles. Durante minha adolescência me interessei  por sustentabilidade através da criação e comercialização de peças de roupas e também do reaproveitamento de materiais em casa.Criei essa cultura também na minha casa com minhas filhas e depois  no trabalho, nos meus projetos de design de interiores, procurando reaproveitar itens e materiais  já existentes no espaço, assim como sempre apoiei a moda reciclada, brechós e feiras de sustentabilidade em Petrópolis e no Rio. Durante a pandemia, aumentei muito esse apoio e incentivo forte  à sustentabilidade.Me tornei líder de sustentabilidade no grupo Mulheres do Brasil, como voluntária, praticando com os grupos lá diariamente e, na minha vida incluí essa filosofia, tanto em casa quanto no trabalho,na forma de cuidar do  lixo, na forma de se locomover – na maior parte do tempo ando a pé – ou na  alimentação sustentável e saudável que iniciei em 2019 após um tratamento natural e que ocasionou uma regeneração completa da minha saúde física e hábitos, através do pouco consumo de itens desnecessários.Sempre me incomodei com todas as formas de desperdício e descartes desnecessários. Acredito que é uma outra forma de viver melhor e de maneira sustentável é priorizar estar sempre  perto da natureza para   manutenção da  própria saúde física e mental. É verdadeiramente um estilo de vida para mim!

IPG – Quais projetos já desenvolveu?

MF – Projetos de repaginação arquitetônica  e design de interiores, moda criativa, moda reciclada. Fui líder de sustentabilidade no grupo Mulheres do Brasil, onde participei de uma série de movimentos e projetos de logística reversa, reciclagem e cuidados com a natureza.

IPG – Poderia explicar sobre o Redesign Mood?

MF – Após  alguns anos na área de design, o Redesign mood nasceu com esse propósito de repaginação com o reaproveitamento de móveis, peças e materiais pré-existentes  que valorizam a história da cada um, valoriza os  materiais e peças nobres e de época e evitam o desperdício e custo excessivo.

IPG – Quais as principais dificuldades para implementar os projetos nessa área de sustentabilidade?

MF – Eu não tive grande dificuldades  em defender a sustentabilidade nos projetos pelo conceito. A não ser, claro, quando era um projeto totalmente novo e com um proposta geralmente comercial muito moderna. Mas ainda assim, quase sempre, conseguia  garimpar  peças antigas para trazer esse conceito e mostrar a importância de valorizar o antigo e que já existe a união com o novo.

IPG – Pensando  na “Petrópolis Que Queremos”, teria alguma sugestão de como fazer a cidade se desenvolver de forma mais sustentável?

MF – Acho que a melhor forma e a mais eficiente ainda é através da educação,  e da mudança de cultura ou melhor fazer o caminho de volta para o que realmente importa , pois só através da  consciência  pura e clareza do ser humano que transformamos a sociedade .

Nas fotos abaixo alguns trabalhos de Maria Fernanda feitos com materiais reaproveitados.

Entrevista, redação e edição: Teresinha Almeida

INSTITUTO PHILIPPE GUÉDON PROMOVE CURSO GRATUITO SOBRE RESÍDUOS SÓLIDOS 

Dando continuidade ao ciclo de cursos e capacitações oferecidos de forma gratuita pelo Instituto Phillipe Guédon (IPG) será realizado nos dias 28,29 e 30 de abril, de  9h  às 12h, o curso “Resíduos Sólidos – Responsabilidade Compartilhada _Descarte Consciente”.O curso terá como facilitadora a Jornalista, pós-graduada em Planejamento e Educação Ambiental, Teresinha de Jesus Fidelles de Almeida. Entre os temas que serão abordados estão  a legislação sobre resíduos sólidos e como ela deve ser aplicada no Município. As formas de descarte consciente dos resíduos, incluindo a logística reversa,  e a importância da reciclagem para o desenvolvimento econômico e sustentável da cidade e para a saúde da população, também fazem parte do conteúdo.

O Presidente do IPG,Cleveland Jones, destaca que a proposta está “alinhada com os objetivos do Instituto de capacitar as pessoas para que possam exercer a cidadania de forma mais efetiva e trazer mais informações e compreensão sobre o tema, os problemas e desafios da gestão dos resíduos sólidos,  estimulando a sociedade a participar da construção de políticas públicas para serviços dos quais ela mesma usufrui”.

De acordo com Teresinha “Como acontece em vários municípios do país, Petrópolis ainda não cumpre totalmente a Política Nacional de Resíduos Sólidos. Parte disso, se deve à desinformação sobre o assunto, o que faz com que a questão não seja tratada corretamente, tanto por parte do poder público, quanto do cidadão”. Por isso “Este curso se faz necessário para desenvolver o senso crítico dos participantes  pois fornecerá informações que normalmente não são discutidas de uma maneira que resulte em ações concretas”.

Cleveland ressalta que “Numa época em que os municípios sofrem grandes restrições financeiras, mas a sociedade exige serviços de qualidade na coleta do lixo e na disposição dos resíduos sólidos urbanos, o cidadão pode e deve assumir um papel mais proativo  para promover o melhor funcionamento dos serviços públicos municipais. Os moradores do município precisam não só cobrar do poder público o que se espera dele, mas também fazer sua parte, assumindo práticas mais sustentáveis e se envolvendo nas questões que afetam os munícipes” e ressalta que “Isso é justamente a gestão participativa em ação, aquilo que o idealizador do IPG, Philippe Guédon, tanto apregoou e  assim o Instituto estará colaborando para a construção de um ambiente de mais oportunidades para o desenvolvimento de Petrópolis, e de mais qualidade de vida para todos.

O curso acontece em parceria com a ACEP (Associação Comercial e Empresarial de Petrópolis),onde serão realizadas as aulas. “A Associação sempre teve o compromisso com temas relacionados aos cuidados com o município e com o meio ambiente. Apoiar um projeto como este é uma questão de responsabilidade social e requer o engajamento de entidades comprometidas com o propósito de incentivar práticas de sustentabilidade em todos os ambientes — desde as medidas adotadas dentro de casa até os grandes empreendimentos”, afirmou o diretor de desenvolvimento e competências da ACEP, Humberto Medrado. As inscrições para o curso, destinado a maiores de 18 anos, devem ser feitas até o dia 20 de abril através do link https://acesse.one/JkZgA. As vagas são limitadas. Serão elaborados certificados online para os interessados que informarem previamente. Qualquer dúvida será esclarecida através do e-mail ipgpar@gmail.com

Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO)

A LDO é uma lei que define as metas e prioridades da administração pública de um município. A partir dessa lei, o Poder Executivo elabora o orçamento anual, a Lei Orçamentária Anual (LOA) e precisa entregar a proposta da LOA para a Câmara Municipal até o dia 15 de abril. Nesta proposta são estabelecidas metas e prioridades da administração pública, como por exemplo, as relacionadas às questões fiscais, previsão de despesas referentes a cargos, salários e plano de carreiras dos servidores e controle de custos e avaliação de resultados de programas.

O ideal é que essas metas sejam definidas com a participação da sociedade. Então anote aí: dia 08 de abril na Casa dos Conselhos será realizada uma audiência pública para debater essa lei. Participe! Começa às 18h. Exerça sua cidadania.

Em alguns artigos, que estão no site Dados municipais, Guédon refletiu diversas vezes sobre esse tema. Ele acreditava que o Município deveria ter mais autonomia e não ficar reduzido ao Sistema Orçamentário: PPA – Plano Plurianual, LDO e LOA. “Não entendo o silêncio obsequioso da comunidade municipal ao acolher normas perniciosas, mal formuladas e que agridem a sua autonomia.” Essa era a sua opinião sobre a forma de planejar o orçamento. Guédon sempre deixou claro que para maior participação da sociedade civil o ideal seria ter um Instituto de Planejamento.

Confira abaixo um artigo de Guédon sobre o Orçamento Municipal que poderá colaborar para a sua participação na audiência pública.

Onde o pé e a cabeça?

A crise se abate sobre todas as instâncias e áreas da Administração Pública. Haja ajuste fiscal, geração de receitas e corte de despesas. Doze milhões de desempregados e número ainda maior de cidadãos à míngua de serviços públicos básicos dignos são os mais atingidos pelos efeitos da tormenta que varre a União, Estados e Municípios.

Improvisos vão resolver? Não mais. 

Aqui, nosso primeiro passo é completar o Plano Diretor, que desde 2.014 mofa incompleto, como documento supérfluo. A seguir, cuidar da estrutura e dos efetivos da PMP e da Câmara. Sem estes dois pontos, como vamos montar o plano plurianual e as diretrizes orçamentárias? Bomtempo negou o Instituto Koeler (INK) que asseguraria a ativa e gratuita colaboração da sociedade, os Poderes preferiram errar sozinhos. Tomara que  seja recolocado o tema na pauta.

A Lei do Orçamento Anual 2017 (LOA) acaba de sair (dia 17, em data de 3) segundo unidades orçamentárias antigas, o que vai exigir mudanças muitas. Sem Plano Diretor completo e participativo, sem Código de Obras, sem Lei de Uso Parcelamento e Ocupação do Solo (Lupos) revista, sem Lei Orgânica nem Regimento da Câmara (não publicados), também deixamos passar a ocasião de dispor dos dados exigidos pelo art. 79 da Lei Orgânica do Município (LOM) nas transições. Água mole em pedra dura tanto bate até que fura. Tomara. 

Basta? Não. A estrutura da Administração é aquela mesma de 1990, distorcida por gatos e gatilhos, e os nossos efetivos (fonte: Governo e Sindicatos) são de 12.000, mais do dobro de 1.989 (Censo) enquanto a população não cresceu 30%. A Associação Contas Abertas (Gil Castelo Branco) cita o IBGE: a proporção servidores/população era de 2,1% em 2001, 3,2 em 1994. Aqui, estamos em 4% e com mais dívidas do que grana, ou seja, insolventes. A equação não fecha, já a PMP bem pode fechar… A Câmara? Acaba de voltar do primeiro de seus muitos recreios anuais.

Uma boa parte de nossa sociedade, inclusive parcelas que deveriam assumir responsabilidades compatíveis com os papéis que desempenham, parece acomodar-se com este quadro e não se pronuncia. Eu não consigo calar e pergunto como podemos aceitar um Poder Legislativo que nos custa dez vezes mais do que seria razoável para o desempenho de suas tarefas. Nossa Câmara não é o Senadinho que se acha; se custa 25 milhões a mais do que o indispensável, retirados dos serviços públicos essenciais, que justifique o fato e prove que não é só para mimos internos. Se Petrópolis acha que os partidos políticos, omissos na nossa vida coletiva, vão resolver a parada, recomendo tirar o cavalinho da chuva.

Até prova em contrário, não entendo para onde os Governos nos querem levar, sem planejamento nem participação. E também sem respeito às leis e transferindo fortunas do setor privado para a área pública que já quebrou, e sem citar o Regime Próprio da Previdência Social (RPPS). 

Estou pronto a jogar-me cinzas na cabeça e pedir perdão, caso, por exemplo, estiverem o Plano Diretor completo, a Lei Orgânica e o Regimento Interno publicados nos termos da Lei, o Ouvidor pronto para ser votado e a Câmara mantiver uma relação custo/benefício minimamente razoável.

Já, se não for o caso, que tal repensar no INK, que somaria a população ao Governo sem ônus adicionais? Se é para mudar a estrutura, poderíamos pensar neste avanço.

PETRÓPOLIS INICIA EXECUÇÃO ORÇAMENTÁRIA E FINANCEIRA DO ANO

Com receita estimada em R$ 1.457 bilhão, a gestão municipal baixou o Decreto de execução do orçamento para o exercício 2025. A receita estimada para este ano é bem menor do que a receita corrente do exercício anterior, 20,33%, na ordem de R$ 1.829 bilhão. A queda de receita originária do ICMS é apontada por alguns especialistas como uma das causas para esta diminuição. Quando isto acontece, inibe investimentos, pois o planejamento decorre daquilo que está estimado para o exercício. Assim, o município tem que buscar recursos nos convênios com os governos federal e estadual, emendas parlamentares e patrocínios privados para realizar ações de melhoria para o município.

Esses valores estão no Diário Oficial do Município, que é uma importante ferramenta para o cidadão compreender o que está sendo realizado na Cidade. Quem tiver interesse é só acessar https://www.petropolis.rj.gov.br/pmp/index.php/servicos-cidadao/diario-oficial

ENTREVISTA: ARQUITETA MARIA CRISTINA FRANCA MELO

INSTITUTO DE PLANEJAMENTO: GARANTIA DA CONTINUIDADE DOS SERVIÇOS PÚBLICOS

O Planejamento estratégico é um processo que define metas, objetivos e estratégias, quase sempre associado às empresas, e que é elaborado considerando princípios da Organização, seus recursos, a cultura e fatores internos e externos. Mas você sabia que esse planejamento pode ser adotado nas administrações municipais? Uma das formas de se implementar este planejamento seria através dos Institutos de Planejamento. Algumas cidades do Brasil já possuem e também existe até uma Rede para estimular a criação desses Institutos, a ReDUSRede Brasileira de Institutos de Planejamento.Um dos argumentos para a implementação, seria facilitar a continuidade dos serviços públicos independente de quem for o gestor municipal.

Para entender melhor sobre como isto poderia ser aplicado em Petrópolis, o IPG conversou com a arquiteta Maria Cristina Franca Melo. Mineira de Sete Lagoas, embora sua primeira graduação tenha sido em Biblioteconomia na Universidade de Brasília, ao longo da vida profissional adquiriu larga experiência em planejamento. Trabalhou como analista de sistemas, nas Prefeituras do Rio de Janeiro e de Petrópolis, onde passou pelas Secretarias de Obras e Planejamento e no IPLAN-Rio, Instituto de Planejamento do Rio. Em 2018 concluiu graduação em Arquitetura e Urbanismo (UCP), se especializou em Paisagismo Ecológico (PUC-RJ) e recentemente mestrado em História Crítica da Arte com foco na paisagem (UFRJ). Maria Cristina também participou da elaboração do PEP 20 (Planejamento estratégico para Petrópolis), organizado pelo IPG, portanto conhece bem os problemas de Petrópolis e sua história.

Confira abaixo a entrevista concedida ao IPG.

IPG – Como o planejamento estratégico pode ser aplicado à gestão pública?

MC – Não se trata de uma tarefa fácil. A principal pergunta a ser respondida pelos diversos atores envolvidos seria: Qual a cidade que queremos para os próximos 20, 30 anos? Um sonho, uma utopia, conhecemos a nossa cidade? Os Planos Plurianuais para aplicação do Orçamento Municipal refletem o que realmente a cidade precisa? A administração pública deveria ser a maior interessada nas respostas, bem como na liderança deste processo, de mãos dadas com os nossos representantes na Câmara Municipal. A participação da sociedade civil seja por seus representantes de classe, de associações, de comunidades, de conselhos ou pelo simples cidadão é prerrogativa de acerto.

IPG – A gestão participativa sempre foi um dos objetivos de Philippe Guédon. Então, neste planejamento como podemos inserir e estimular a participação dos moradores?

MC – Sinto muita falta do nosso amigo e defensor incansável da cidade. Admirava imensamente o seu trabalho meticuloso no acompanhamento da execução orçamentária do Município, seus apontamentos e preocupações com o futuro. Sua “voz” nos faz muita falta! O IPG trava uma luta diária na tentativa de comunicação e inserção da população na participação e colaboração com vistas ao Planejamento Estratégico da cidade, o PEP20 continua a ser um exemplo e uma ferramenta, mas como mencionei acima este processo precisa contar com os diversos atores.

IPG – A partir da sua experiência como servidora pública e que esteve a frente da Secretaria de Planejamento por um período, explique quais as dificuldades de se implementar na prática as políticas públicas?

MC – Em mais de 30 anos de atuação na área pública, seja na Prefeitura do Rio de Janeiro ou em Petrópolis, identifico diversos fatores limitantes, para citar apenas alguns: a ausência de um planejamento a curto, médio e longo prazos que perpasse as trocas dos titulares e visem a eficiência operacional e o atendimento às prioridades das cidades; a implementação de concursos e plano de cargos e salários para os funcionários, incluindo requalificação periódica e avaliação de desempenho; a existência de um “escritório de projetos” interdisciplinar, capaz de apresentar às instâncias estadual e federal soluções para aporte de recursos no Município; a introdução intensiva de recursos tecnológicos e ferramentas de acompanhamento e fiscalização na gestão pública e na sua relação com o cidadão.

IPG – O IPG tem como objetivo a implementação de um Instituto de Planejamento e você realizou uma pesquisa sobre os Institutos de Planejamento existentes no Brasil. Acredita que esta proposta pode mesmo ser aplicada em Petrópolis? Se sim, como?

MC – A proposta de um Instituto de Planejamento para a cidade pelo IPG vem ao encontro principalmente à necessidade de planos para a cidade, que possam ter continuidade independente das substituições de seus governantes. Então vejamos, a contar de 2014 retornei à área acadêmica para uma segunda formação em Arquitetura e Urbanismo, na qual ainda permaneço, iniciando um ciclo de doutoramento e mais do que nunca acredito na pesquisa para embasar os processos de transformação. A criação deste Instituto a meu ver precisa analisar dados e informações sobre a cidade, sua gestão, e até concluir sua viabilidade alguns passos precisam ser considerados: elaboração de um estudo e proposta da base legal; pesquisa e apresentação de modelos existentes (cases de sucesso); traçar um plano de sensibilização, desenvolvimento recursos de mídia social e pesquisa de opinião, divulgação e comunicação junto à sociedade civil.

IPG – Petrópolis foi planejada através do Plano Koeler, porém a cidade mudou muito desde então. Mas, ter sido construída a partir deste plano, de alguma forma, isto ainda beneficia a cidade?

MC – Não resta qualquer dúvida que Planejamento Urbano para uma cidade é imprescindível, funciona, mas a sua revisão e adequação periódica é de suma importância. A legislação também precisa acompanhar as transformações ocorridas no tempo e no espaço.

IPG – Pensando no desenvolvimento da cidade, em termos urbanísticos, quais as suas sugestões para Petrópolis ser uma cidade considerada mais sustentável e que, consequentemente melhore a qualidade de vida dos seus moradores?

MC – A centralização da prestação de serviços no Centro Histórico precisa ser revertida para os bairros, tornando-os capazes de atender os seus moradores com menor tempo de deslocamento possível. Planejar alternativas de mobilidade urbana para diminuir o volume de tráfego nas horas de pico, bem como para o acesso aos demais distritos. Implementação de SbN – Soluções baseadas na Natureza, para minimizar os efeitos das mudanças climáticas, como bacias de retenção, jardins de chuva, IPTU verde, dentre outros.

O BRADO DE PETRÓPOLIS Pró-Gestão Participativa: ANO V – Nº 55

Boletim mensal dedicado à prática da Gestão Participativa – 15 de Julho de 2018

1º BRADO: UTOPIA MUNICIPAL – 1º CENÁRIO

De repente, em alguns dos 5.570 Municípios brasileiros, uma lufada de loucura do bem arrebata alguns prefeitos em curso de mandato. Percebem o descalabro à sua volta, a gerar um mundo chapa-branca moribundo por diagnóstico de corporativismo galopante, agravado por um quadro de hegemonia partidária fatal. Pessoas de bem que ingressaram na política por idealismo constatam que se tornaram feitores da exploração de comunidades inteiras, para satisfaze a ganância de alguns e a falta de consciência cívica de tantos. Elegeram-se para mudar o mundo, e são soldados do exército multipartidário da mesmice predadora. Aqui e ali, multiplicam-se exemplos de prefeitos (as) que “chutam o balde” dos partidos que ordenham a população. Do alto das margens de seus riachos ipirangas, açudes, rios ou costões que mergulham no mar, bradam “Sou prefeito do povo, não de uma sigla! E nesta condição agirei doravante!”.

2º BRADO: UTOPIA MUNICIPAL – 2º CENÁRIO

De repente, em alguns dos 5.570 Municípios brasileiros, um vereador sobe à tribuna ou ocupa o parlatório, e convida a maioria dos edis que compõem a Casa do Povo local a ser exatamente isto que não são: a Casa do Povo. Em vez de buscarem o seu bem-estar e a satisfação das patotas que lhes trouxeram até este nicho dourado, convida os seus pares a servir o povo. O povo, que deveriam representar desde o primeiro dia, e que logo foi reduzido ao papel de patrocinador da festa onde não pode entrar. O povo que deve cumprir leis e pagar taxas, votar em quem lhes é empurrado goela abaixo, e que recebe em troca pífios serviços públicos apresentados como benesses concedidas por este ente generoso chamado Poder Público.

3º BRADO: UTOPIA MUNICIPAL – 3º CENÁRIO

De repente, em alguns dos 5.570 Municípios brasileiros, o presidente do Sindicato dos Servidores locais, pede a palavra na reunião do Conselho Diretor e declara que acordou no meio da noite por força de um pesadelo. Imerso no sono, se vira conversando com alguns conhecidos e conhecidas da cidade que lhe pediam para definir se o seu papel era o de defensor dos interesses corporativistas de uma categoria, mesmo se às custas da comunidade inteira, ou se entendia ser um membro da comunidade encarregado de assegurar a justiça e a harmonia entre os servidores e o povo. E começara, no sonho, a chorar, ao reconhecer que lutava apenas pelos interesses de sua categoria, pouco lhe interessando os ônus, necessários ou insuportáveis e injustos, que seus esforços acarretavam para a comunidade de onde todos os seus filiados provinham. Sabia ele que o regime de previdência própria tornara-se um sistema de exceção, custeado à razão de dois terços por verbas públicas, formadas por impostos e taxas de quem jamais poderia gozar das mesmas venturas. Reconhecia que os interesses dos seus filiados deviam levar em conta os do povo ou todas as “conquistas” alcançadas implicavam, ao fim e ao cabo, na falência do seu próprio povo, sinônimo da falência de sua própria classe… E neste momento acordara em lágrimas, pois não enxergara antes o absurdo em que se metera.

4º BRADO: UTOPIA MUNICIPAL – 4º CENÁRIO

Prefeitos, vereadores e lideranças sindicais de servidores de alguns dos 5.570 Municípios brasileiros se encontram à volta de mesas ou instalados em auditórios, convencidos que o modelo da hegemonia dos partidos – construído por quase todos, fora três ou quatro – já tinha levado as suas comunidades a deslizar, barranco abaixo, em direção ao desastre final. Era hora e vez do brado de “BASTA!”, da reversão de expectativas, do cumprimento do Princípio Fundamental da Constituição Federal, que as maiores Autoridades do País ignoravam todos os dias da semana: “Todo o poder emana do povo que o exerce por meio de representantes (dele, povo, adendo nosso) eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição”. A representação se dá por meio dos partidos, mas não é dos partidos, e sim do povo. A César o que é de César, a Deus o que é de Deus; aos representantes do povo o que lhes cabe, ao povo o que a Constituição assegura. Mas que foi surrupiado.

5º BRADO: FAZENDO O CERTO NOS MUNICÍPIOS

Tão fácil! Apenas cumprindo a Leis fundamentais e corrigindo os enxertos lá colocados pelos partidos do “pró-grana”. Se os representantes são do povo, não cabe aos partidos ditarem com exclusividade em quem se pode votar. Se todo o poder emana do povo, e se este o exerce por meio de representantes eleitos para mandatos de quatro anos, o que excede os quatro anos é parte de um poder que o povo não delegou. E a isto se chama de planejamento estratégico, de longo prazo (20 anos); ao povo, diretamente, cabe dizer para onde quer rumar, e não a administradores de quadriênios. Pombas, a lógica não morreu, mesmo se foi engavetada ou usurpada pelos Poderes! Deve-se cumprir TODA a Constituição, e não apenas os artigos e parágrafos que interessam aos poderosos. Por exemplo, por que sumiu o texto do art. 5º, XX: “ninguém será compelido a associar-se ou a permanecer associado”? Ou há diferença entre “associado” e “filiado”?