IPG ENTREVISTA ROLF DIERINGER

Com os fenômenos climáticos cada vez mais frequentes e intensos, a grande preocupação de moradores de cidades como Petrópolis, com alto grau de vulnerabilidade à tragédias socioambientais, é saber como se adaptar e evitar vítimas fatais. Muitas vezes essas soluções podem surgir de muito estudo que chegam a ideias simples e de fácil acesso à população.

O IPG entrevistou um de seus membros, Rolf Dieringer, engenheiro agrônomo, que desde a década de 80 se dedica a este tema, quando questões climáticas e suas graves consequências ainda não estavam tão presentes nas discussões do cotidiano, mas já eram uma realidade em Petrópolis. Com seu projeto “Vigilantes da Chuva” , Rolf já colaborou não só para informar, como para transmitir conhecimentos que podem salvar vidas.

Confira abaixo a entrevista e deixe seus comentários.

IPG: Em seu trabalho com previsões meteorológicas já vivenciou diversas tragédias em Petrópolis. Com o avanço das mudanças climáticas, explique o que melhorou em termos de previsão desde, por exemplo, a tragédia de 1988, para que se evite ou minimize tragédias.

RD: Em relação às mudanças climáticas, essa variação ao longo dos anos é muito pequena e não tem assim muita influência. Agora a própria previsão melhorou muito nos últimos trinta anos. Hoje com o advento das fotos, as imagens de satélite são muito perfeitas, captadas de dez em dez minutos, e as imagens do radar são muito bem detalhadas. Existem as imagens sobre previsão de intensidade de chuva, muito mais seguras do que há trinta anos. Só para dar um exemplo, temos oito modelos diferentes, computacionais de previsão e, talvez, mais oito globais nos Estados Unidos, Reino Unido e outros países da Europa. São bastante precisos e conseguem ter um horizonte entre cinco e sete dias e com grau de acerto de oitenta a noventa por cento. Quanto mais rápido, quanto menor o prazo, maior a precisão.

Então, podemos dizer que a precisão de vinte e quatro horas, quarenta e oito horas, ela é muito grande. Porém, a própria dinâmica da meteorologia pode mudar muito rápido. Sabemos que a única coisa certa é que ela é incerta, quanto à previsão. Mas, o nível de acerto é muito grande e tem que ser. Porque não é só a questão da cidade. Também por causa da aviação que utiliza muito esses dados. Só no Estado do Rio são cinco ou seis radares meteorológicos diferentes. Entrará mais um agora em Petrópolis e temos em Niterói, Sumaré, Macaé, Guarativa, todos do Inea, além do Pico do Couto, da Aeronáutica. São níveis fantásticos. Você vê a imagem de dez em dez minutos e pode acompanhar tudo pela internet. Outra situação interessante é que além dos modelos computacionais e da previsão do INMET, podemos acompanhar todas as situações nas áreas em termos de formações meteorológicas de todos os aeroportos do Brasil, de hora em hora, e acompanhar a previsão das próximas seis horas de cada um dos aeroportos principais do Brasil.

IPG- Os fenômenos climáticos estão ficando cada vez mais intensos e frequentes. Então quais os desafios para os meteorologistas atualmente realizarem previsões mais precisas?

RD: Quanto aos fenômenos cada vez mais intensos, infelizmente, isso é uma verdade, não é uma estatística, é física pura. Cada grau que aumenta a temperatura do ar, aumenta a evaporação, o que aumenta a quantidade de umidade no ar em 7 por cento. Se tiver temperaturas dois ou 3 graus mais quentes em determinado dia você tem praticamente 20 a 30 por cento mais umidade do ar, ou seja mais 30 por cento de chuva. O grande desafio não é a precisão da meteorologia. O desafio é tornar a cidade mais resiliente a partir de que tipo de chuva. Hoje estamos muito bem em termos de previsão porque diferenciamos dois tipos de chuvas. Uma é quanto a intensidade, quanto chove em termos de milímetros, quantos litros chove por metro quadrado em uma hora. Quanto maior a intensidade, se a chuva for fraca, moderada ou forte, isso vai causar problemas de drenagem, de alagamento, inundação e de transbordamento dos rios. Já a chuva que causa deslizamentos, é uma chuva que encharca bem o solo, pode demorar 10 ou 12 horas para encharcar, e se ainda houver nesse solo encharcado uma chuva forte, aí temos uma grande quantidade de deslizamentos.

Hoje já tenho alguns modelos desenvolvidos para Petrópolis, e também as próprias Defesas Civis do Brasil e também o Cemaden possuem modelos bem precisos que indicam quais são as chuvas e, digamos qual o gatilho, que é o momento a partir do qual haverá deslizamentos ou alagamentos e transbordamentos. Temos alguns limites bem definidos para Petrópolis para deslizamentos muito precisos. Podemos resumir isso que também está resumido no próprio pluviômetro artesanal que desenvolvemos, que os deslizamentos começam a ocorrer quando ocorre chuva acumulada de cem milímetros. Ou também quando a chuva for acumulada em quarenta milímetros em uma hora, também começa a ocorrer deslizamentos.

Quanto aos transbordamentos, ocorrem quando a chuva é muito forte. Por exemplo, na Coronel Veiga se tiver uma chuva acima de 26 milímetros já começamos a ver o transbordamento. Já no Bingen, Piabanha, no Santa Teresa ou no centro, aí a questão já é mais de 40 milímetros em uma hora. Nós já sabemos quanto à intensidade, fraca, moderada ou forte, que vai definir se vamos ter alagamentos e transbordamentos. Podemos ter os deslizamentos em função de uma chuva grande de cem milímetros ou acumulada em uma hora de 40. Então, deslizamentos são uma função que pode variar conforme a intensidade com o acumulado. Então, se estiver muito acumulado e pouca intensidade e tiver acumulado em 100 milímetros, vai ter deslizamento. E se tiver chuva forte de 40 milímetros, posso ter deslizamento também. Ou de 70 acumulado mais uma chuva de 30 em uma hora, pode ter também.

O que vemos hoje tanto no Inea, Cemaden, e que ouvimos falar são riscos geológicos e riscos hidrológicos. O hidrológico é quando a chuva e se refere a água, alagamentos e enchentes. E o geológico se refere aos deslizamentos e esses modelos do risco geológico são os que apontam risco de deslizamento e o hidrológico aponta o risco de alagamento e transbordamentos de rios. Hoje também estamos introduzindo mais um parâmetro de risco que chamamos de risco ambiental, que é no momento em que a terra estiver muito seca e houver risco de incêndios florestais ou stress hídrico da planta. Porque a planta (vegetação) pode morrer também e isso vai acarretar problema de instabilidade das encostas e de abastecimento de água da cidade, aumentando diretamente o lençol freático da cidade.

IPG: Como surgiu a ideia do projeto Vigilantes da Chuva?

RD: Eu comecei a pesquisar tudo isso em função de um grande problema que houve em Petrópolis, quando morreram 25 pessoas lá no Independência em 1981, e também teve uma tragédia na serra de Teresópolis, no posto do garrafão, onde morreram 30 pessoas. Não me conformei e pensei “mas isso não pode ser previsto?”. Todo mundo falava que era a chuva e aí naquela época eu estava fazendo o curso de aviação e uma das matérias mais importantes na aviação é a meteorologia. Então, perguntei ao previsor em 1981 se não poderia prever que ia chover tanto, que ia causar tragédia lá em Teresópolis e ele respondeu que sabia que ia chover muito, que ia ser problemático, mas que o seu trabalho era passar as informações para a aeronáutica, para fins de aviação e não avisar para as prefeituras. Foi assim que me dei conta quanto que as prefeituras estavam desconectadas da previsão meteorológica. Comecei a estudar e observar toda chuva que acontecia em Petrópolis. Desde 81 a 84, anotei chuva dia a dia, sabendo qual chuva que dava problema e a que não dava. Tive apoio da aeronáutica, consegui pegar dados meteorológicos de um período de 15 anos, das estações do Galeão, do Santos Dumont e Campos dos Afonsos. Fiquei um mês lá estudando esses dados e consegui levantar qual a quantidade de chuva que dava problema.

Então, em 84 publiquei meu primeiro trabalho no Primeiro Congresso Brasileiro de Defesa do Meio Ambiente. Esses dados também foram inclusive publicados nos jornais de Petrópolis. Achei que publicando isso, todo mundo ia levar em consideração e se prevenir desse tipo de chuva. Mas, em 88 eu vi o que estava acontecendo, avisei à radio, à polícia e falavam “o que que eu posso fazer?” E na rádio ainda falaram que não podiam avisar porque a população entraria em pânico. Aí quem entrou em pânico fui eu, porque eu sabia que ia acontecer uma tragédia aquela noite e não podia fazer nada, parecia que eu era o louco e infelizmente naquela noite morreram 173 pessoas, 1000 ficaram feridas e houve 500 deslizamentos. Se formos analisar os deslizamentos que ocorreram lá, se todo mundo tivesse sido avisado antes poderiam ter saído e não morreria quase ninguém. Foi daí em diante que eu fiz meu primeiro trabalho de diagnóstico. Em 88, dos 500 deslizamentos só quatro foram naturais e os outros 496 tiveram como causa falta de drenagem, aterro inadequado, drenagem ineficaz, corte inadequado de morro. Todas as causas foram por ocupação desordenada e critérios básicos de construção completamente ignorados. Com base nos dados que eu já tinha publicado em 84, avisei a todo mundo quais os níveis de chuva que poderiam acontecer deslizamentos.

Nesse trabalho observei bem claro que Petrópolis, se chover duas horas 90 milímetros vamos ter enchente na cidade e acima de 130 mm, deslizamentos. Quanto mais chuva acumulada, maior a quantidade de deslizamentos. Baseados nesses estudos é que desenvolvemos (Vigilantes da chuva) o pluviômetro. Na época não tinha PET, foi feito em lata de leite em pó e colocava uma régua dentro da lata para medir a altura que atingia o limite. Depois evoluiu para uma garrafa de 51, que a gente cortava em cima e a altura que ela atingia os milímetros era marcada por fora. Depois evoluímos para a lata de soja e o PET foi só em 2010. A primeira vez que foi implantado e que teve sucesso foi no governo Gratacós (década de 90), com o secretário da primeira Defesa Civil Municipal, Sílvio de Carvalho, e implantamos isso como voluntários e assim surgiu o “Vigilantes da Chuva”. Em 1990 e 1991 tivemos chuvas de 150 mm, novamente mais de 500 deslizamentos, só que foi durante o dia e a prefeitura e Defesa Civil orientaram os moradores a saírem de suas residências nas áreas de risco para evitar tragédias.

Esses foram os primeiros casos de sucesso de prevenção. Ocorreram duas vítimas fatais que não quiseram sair da residência. A partir daí ganhou uma dimensão e foi implantado inclusive em Teresópolis em 2000. Em 2002 fizemos pela primeira vez o sistema com a leitura dos pluviômetros e mandamos isso via internet e e-mail para os órgãos de Imprensa e que informava que a partir de um determinado nível a cidade estava correndo tal e tal risco e em tal bairro. Cada vigilante informava o índice e se passava acima de 100mm aquele bairro entrava em área de alerta. Com isso, salvamos dezenas de pessoas e conseguimos junto ao MPE em 2004 implantar o primeiro site do Vigilantes.

IPG: Normalmente as previsões meteorológicas são apresentadas para o público de um modo geral, para um estado ou município, sem muitos detalhes. O seu projeto Vigilantes da Chuva faz uma previsão mais específica para Petrópolis, explicando o que pode acontecer, por exemplo, dependendo do volume de chuva, citando inclusive os bairros, que podem ter previsões diferentes.

RD: Para Petrópolis podemos ter várias previsões e isto está relacionado ao tipo de chuva. Temos por exemplo, uma chuva de frente fria, ela vem mais do sul. Quando é de rios voadores da Amazônia, vem do noroeste, ou seja de Itaipava em direção ao Centro, para o interior de Minas para Petrópolis. No caso da frente fria que vem do sul, no Quitandinha, Bingen e Alto da Serra. Quando vem da frente localizada no mar, joga muita umidade para Petrópolis se concentra Zona Sul, Alto da Serra, Morin, Siméria, Independência, Quitandinha e Bingen. E pode até nem chover em Itaipava. Temos que levar em consideração que Petrópolis tem vários tipos de clima. Há regiões como Alto da Serra e Morin que chove 2 mil milímetros por ano, enquanto Pedro do Rio e Itaipava chove só metade disso, 1.100. Já em Araras 1.600 e no Centro 1.800.

Muitas vezes chegamos em Petrópolis por exemplo pelo Quitandinha, com nevoeiro, e no Centro faz até sol. A mesma coisa no Alto da Serra ou tem chuva no Centro até o Brazão, dali em diante para Itaipava agente tem um tempo bem ensolarado. Isso está relacionado com a direção dos ventos. Por exemplo, o vento que vem trazer umidade do mar e vai bater no Alto da Serra e quando chega no Brazão já não tem umidade nenhuma. Isso quer dizer que uma chuva de 100mm no alto da serra não acontece em Itaipava. Por isso que as previsões são muito diferentes em Petrópolis em função da localização de cada bairro. Podemos dizer no geral que a região da zona sul, Centro, Castelânea, Alto da serra, Morin, Independência, Quitandinha e Bingen são áreas que tem um índice de chuva bem maiores do que na Mosela ou em Itaipava, Cascatinha. Então, realmente os índices variam muito na cidade e isso acarreta uma diferença enorme também na vegetação. No Alto da Serra praticamente não pega fogo e em Secretário e Itaipava todo o inverno tem seca e muitos incêndios florestais e a própria floresta no alto da serra é uma floresta sempre verde e em Itaipava nós chamamos de floresta caducifólia. Ou seja, caduca as folhas. No inverno as florestas da região de Itaipava e Secretário, as árvores perdem as folhas por causa da seca e em outubro e novembro emitem folhas de novo em um verde até clarinho.

Isso aí é uma diferença da vegetação. Temos quatro biomas diferentes em Petrópolis: escarpa da serra, em Itaipava que já e una característica de região de seca, praticamente não chove no inverno; o clima de altitude, no Açu, onde tem geada e já não tem quase vegetação, é só uma vegetação rasteira; floresta de baixada, quase no Meio da Serra, já é uma vegetação mais intensa, mais forte, por causa do calor. Nota-se na região de Itaipava e Secretário que as gramíneas ficam praticamente secas no inverno e na região do Vale do Cuiabá, estrada para Teresópolis também.

IPG: Acredita que com os projetos desenvolvidos pelo Vigilantes da Chuva é possível alavancar melhorias na segurança não só em relação a deslizamentos, mas também a enchentes e incêndios? Se sim, como?

RD: O aumento da melhoria da segurança em relação aos deslizamentos foi em função desses gatilhos em cima de quais valores tínhamos. Esses dados foram muito importantes e melhoraram a segurança, a implantação em Petrópolis dos sistemas das estações pluviométricas, tanto do Inea quanto do Cemaden, depois da tragédia de 2011. Antes o que funcionava era o pluviômetro artesanal, mas dependia exatamente da leitura feita pelo próprio vigilante da chuva. Na tragédia de Cuiabá só tivemos um único vigilante fazendo a leitura e não houve mobilização. Então, enquanto não houver mobilização, conscientização e respeito aos níveis de gatilho não haverá progresso na segurança. Felizmente nas chuvas de 2024 e 2025 a cidade estava muito consciente sobre esses níveis de gatilho, mandou o pessoal ir para os apoios e houve comportamentos importantes, como feriado escolar, para evitar deslocamentos desnecessários, evitar carros e ônibus presos na rua, então são grandes avanços que a cidade já está tendo.

Paradoxalmente, os grandes avanços das estações pluviométricas que foram instaladas, provocaram a desativação do pluviômetro artesanal e aí ninguém mais faz leitura, ninguém tem acesso aos índices das estações. Por isso, houve um retrocesso muito forte e voltamos a ter tragédias, pessoas pouco conscientizadas, o que resultou na grande tragédia do dia 15 de fevereiro de 2022. Porque se os moradores lá no Alto da Serra, no Morro da Oficina, tivessem a informação do pluviômetro, do limite de gatilho, 100mm, sairiam das áreas de risco e não teríamos essa grande tragédia no Morro da Oficina. Teríamos sim a tragédia de desabamento das casas, mas essa área deveria ser desocupada a partir do momento que atingisse o nível de alerta para deslizamento e o nível tinha sido atingido uma hora antes e ninguém estava mobilizado, instruído para isso. Por isso essas 90 mortes no Morro da Oficina. Fora a população tentando atravessar ruas alagadas, problemas dos dois ônibus na Washington Luiz. Todos os problemas ocorreram em função de comportamentos inadequados para grandes precipitações. Quanto à melhoria de segurança dos deslizamentos hoje já se propaga, até através da imprensa, do risco geológico, do risco hidrológico, só está faltando o risco ambiental.

O sucesso da mobilização da cidade é ela entender que não podemos evitar nem a enchente, nem o deslizamento, mas podemos fazer com que as pessoas fujam das áreas de transbordamento, evitem essas áreas onde há mais probabilidades de os deslizamentos acontecerem. Se isso for respeitado e levado a sério pela população, não teremos vítimas fatais em função desse tipo de deslizamento. Não depende só da previsão, depende principalmente do comportamento da população de evitar as áreas de risco, no momento de risco.

IPG: Uma questão que também envolve a meteorologia é a comunicação de risco. Muitas vezes é divulgada uma previsão que não acontece e isso pode desacreditar a meteorologia. Ao mesmo tempo, se essa informação é minimizada ou até descartada, pode fazer com que a população não se previna adequadamente. Então, qual a sua sugestão para que essas informações sejam divulgadas, sem causar pânico ou não serem subestimadas? Como chegar a este equilíbrio?

RD: Esse talvez seja o nosso maior desafio. Uma comunicação direta e reta para a população e que não seja uma informação generalizada. Eu considero que é muito importante se adequar. Por exemplo, muitas vezes os órgãos de meteorologia dizem assim: “amanhã vai chover chuva que pode ser forte algumas vezes” e não informa nada sobre quantidade, se a chuva que está prevista para acontecer em termos de previsão de milímetros atingirá ou não o nível de início de deslizamento ou possibilidade de transbordamento dos rios. Então é nisso que o Vigilantes está tendo uma credibilidade muito grande porque interpretamos as previsões meteorológicas que possam atingir níveis daqueles que temos em nosso modelo, que podem ocorrer deslizamentos, se essa chuva vai chegar ao nível de deslizamento ou se essa chuva vai ter uma intensidade tão forte que possa causar transbordamentos. Acho que é isso que a população precisa saber. Ela não precisa só saber que vai chover ou não, mas se chover, pode dar enchentes? Sim ou não? Pode dar deslizamentos? Sim ou não? É informar o que tipo de chuva vai causar. Esse tipo de informação é que tentamos passar para a população.

Nós não somos um órgão de previsão do tempo. A gente só interpreta as previsões que existem em cada uma das regiões de Petrópolis e analisa isso com a umidade do solo em cada uma dessas áreas. Por exemplo, uma chuva de 100mm em Itaipava, que já não chove há dois meses pode não causar absolutamente nada, mas no Alto da Serra que já choveu talvez semana passada, 100mm, então o solo está encharcado não vai aguentar 100mm sem problemas. Procuramos sempre definir os riscos que existem. geológico e hidrológico. Essa é a nossa principal missão: tentar traduzir isso para a população. O grande problema que está ocorrendo às vezes, é que o INMET manda uma previsão que pode ocorrer chuvas de 100mm, mas não diz nem onde, nem como e a gente procura trazer essa informação só quando está chegando algum temporal na cidade, quando no radar mostra que há possibilidade de chuva forte, nas nuvens que estão no radar e que elas estão chegando a Petrópolis. Nossa previsão procura chegar no nível de precisão de informar uma ou duas horas antes, que esta chuva vai dar problemas. A gente tem um cuidado muito grande sobre comunicação de risco, só informa quando temos uma certeza absoluta, ou se já temos informações concretas.

Recentemente, tivemos uma situação de chuva muito significativa em termos de alagamento vindo de muita chuva em Caxias. Já tínhamos informação do que havia caído no Pico do Couto e em Xerém. Aí realmente deu problema no Quitandinha e Bingen, mas parou por ali. Informamos antes que a chuva pudesse causar problemas de inundação, já sabíamos que podia ter um nível mais intenso de transbordamento. Quando falamos no nosso boletim chuva significativa é uma chuva que pode ser significante quanto a deslizamentos e também transbordamentos. Toda vez que a gente fala que a chuva pode ser significativa é um sinal de risco. Quando esses níveis de acumulados já foram atingidos e pode haver mais chuvas, aí a gente é mais incisivo quanto ao risco e informa para a população. Nós temos praticamente acompanhamento de 24 horas das chuvas no Estado do Rio e a Defesa Civil também. Quando não tem mais informação sobre ser significativa, procuramos não criar pânico e só informamos quando ela realmente ocorreu perto daqui. Infelizmente muitos informativos que são dados pelo INMET, por exemplo de hoje até amanhã de amanhã, de riscos de chuvas severos, às vezes a chuva vai embora e fica essa previsão pendente lá.

IPG: Divulgar a previsão é importante para que os moradores possam tomar decisões mais conscientes, porém muitas vezes a informação tem uma linguagem muito técnica e de difícil compreensão para um leigo. Além disso, o problema não se resume apenas se vai ou não chover, mas por exemplo, se numa determinada região pode ser habitada ou não e como as condições meteorológicas podem definir a decisão de um morador em construir uma casa em determinada região. Sendo assim, de que forma poderíamos capacitar os moradores para que possam decidir sobre questões de segurança?

RD: A linguagem em termos das observações meteorológicas é um problema quando falam muita questão técnica. É uma situação muito séria quando falam, por exemplo, sobre convergência do atlântico sul, núcleos, etc., e pouca gente sabe o que é núcleo, que são as nuvens de temporal. Então, é preciso um certo cuidado e evitar falar sobre núcleos. Podem ver que o Vigilantes sempre está falando que está chegando um temporal. Que pode ser forte ou fraco. Tem que tomar cuidado porque se fala forte o pessoal associa que pode ser um problema grave. Mas uma chuva forte se não durar muito, for rápida, não causa problemas. Mas, se durar muito aí sim pode ocorrer. Então a gente evita situar os moradores das áreas de risco porque se a chuva prevista pode ser significativa quer dizer que ela pode atingir níveis de deslizamentos ou causar transbordamentos. Temos um cuidado muito grande com isso para ficar claro que uma chuva forte não quer dizer que vai desabar tudo. Ela pode ter uma intensidade forte e demorada mais do que uma hora, pode sim dar sérios problemas na cidade. Agora se ela for uma chuva forte por algum momento, até 10, 20, 30 minutos não há problema.

Quanto à capacitação para a segurança das encostas, isso é principalmente uma questão de aprendizado dos moradores, e aí é uma questão de engenharia. Temos que trabalhar sobre drenagem, aterros adequados, muros de contenção, calhas nas casas. E, obviamente, na dúvida, o morador deve sempre solicitar orientação técnica da própria defesa civil e da prefeitura para saber o que fazer e ter segurança.

IPG – O Vigilantes da Chuva possui outros projetos, como o desenvolvimento de pluviômetros e de medidores de umidade do solo, que podem ser úteis para a segurança da população? Explique como estes projetos estão sendo desenvolvidos e como os moradores podem ter acesso?

RD: Quanto aos pluviômetros, nós já temos um modelo, padrão, mas pode variar um pouco porque temos tipos de leitura diferentes no pluviômetro de PET artesanal. Um que mede a chuva acumulada em 24 horas, com aquela régua de vigilância, atenção, e alerta acima de 100mm e outro com uma régua que informa que 40mm em uma hora, o que é importante para o risco de deslizamento, e também mede o risco de transbordamento de rios. Ano passado o pluviômetro artesanal foi distribuído pela SOS SERRA para mais de 1000 pessoas. Isso é importante para a conscientização do que é milímetro e da importância de saber o que cada quantidade significa. Temos o pluviômetro artesanal com sirene que leva em conta a intensidade, que apita sobre quais são as chuvas que podem causar transbordamentos. Ao usar o pluviômetro é preciso cuidado para que a graduação esteja correta e que o ponto a partir de onde ele é medido, o ponto zero, esteja num piso seguro para que não seja arrastado pelo vento.

Também estamos testando um, e que deve ser implementado em todo o Estado do Rio, através da Emater, com os produtores rurais, que servirá para o produtor acompanhar o que está acontecendo em termos de chuva na propriedade dele. Isso é muito importante para que ele saiba como está o solo para plantio. Estamos negociando com a Emater para ver tecnicamente como viabilizar isso para os produtores. Mas, com certeza é uma ideia que funciona muito bem, porque já temos isso na região de Cachoeiras de Macacu e muitos produtores nos dão retorno através de fotos enviadas pelo whatsapp, nos informando a quantidade de milímetros. Para o produtor, na verdade, ele usa dois pluviômetros. Um que é esvaziado todos os dias e outro que não. Isto informa o quanto choveu e o quanto evaporou, pois assim temos uma aproximação do balanço hídrico para cada região. Isso é muito interessante em termos também de uso sustentável da água. Porque dá uma ideia muito clara se estamos caminhando para uma época de seca, se o solo está ficando também seco, se as florestas estão ficando estressadas, se há riscos de incêndios.

Tudo isso depende do balanço hídrico. E é exatamente isso que estamos lançando em evento na UNIFASE, que é para o risco ambiental, que leva em consideração a questão do balanço hídrico, ou seja, a umidade que está no solo. Desenvolvemos um aparelho chamado medidor de umidade artesanal, que é bastante preciso, tem algumas peculiaridades, mas é muito importante para beneficiar as defesas civis sobre encharcamento. Petrópolis mais uma vez é pioneira, talvez, porque estamos lançando um instrumento que vai identificar exatamente onde a cidade está com riscos de incêndios florestais, baseado no índice da seca, como também previsões meteorológicas em função da seca, das altas temperaturas, da pouca umidade e também se a vegetação está seca ou não. Quando a vegetação de Itaipava está mais seca temos um risco muito maior de incêndios e se tiver temperaturas altas, pouca umidade e ventos, qualquer faísca, como de uma bituca de cigarro, pode causar incêndios de grandes proporções.

O modelo de gatilho para deslizamentos não depende só da chuva em termos de acumulados e intensidade, depende de uma outra coisa, que muita gente quebrou a cara porque não levou em consideração, que é o quanto o solo está seco ou encharcado e esse parâmetro não está sendo medido por nenhuma Defesa Civil. O modelo que estamos implantando, será um instrumento muito preciso porque dá um noção muito clara de quais sãos as regiões do Estado que realmente estarão com problemas de incêndio ou não, porque no Estado do Rio, temos pelo menos seis climas deferentes: Costa verde, Angra dos reis, onde chove bastante e tem muito verde; Baixada fluminense, chove bastante, mas faz muito calor e evapora rápido e o solo seca rapidamente; Baixada Litorânea, que engloba Campos, Cachoeiras de Macacu, Macaé, menos chuvas, bastante evaporação; e uma região que tem menos chuva, bastante evaporação, praticamente clima de nordeste, com floresta de cactos, Búzios e Cabo frio; Médio Paraíba, bastante chuva, atingido pelos rios voadores da Amazônia e a região serrana, que recebe os rios voadores da Amazônia e muita umidade do mar.

Cada uma tem seu balanço hídrico diferente, que vai impactar no gatilho de deslizamentos e inundações. Porque, por exemplo, se o solo tiver muito seco e tiver uma chuva de 100mm ou de 30mm ou 40 mm precisa encharcar o solo primeiro para jogar a água para o rio. Então a resposta à inundação é mais demorada se o solo estiver já encharcado.

Se a população compreender o que é ou não uma chuva significativa, aprender a medir, com certeza a população estará mais segura pois saberá da possibilidade de ter um deslizamento e poderá se proteger. Fico contente que hoje a população já entende o significado de milímetro. Há trinta ou quarenta anos até engenheiros não sabiam bem. Isso já mudou muito e se estiver enraizado na população, não vamos nos preocupar.

Entrevista e edição: Teresinha de Jesus Fidelles de Almeida

INTERNACIONALISTA PETROPOLITANA PARTICIPA DA CÚPULA DOS POVOS

A internacionalista Ana Lúcia de Lacerda Gonçalves, petropolitana do bairro Alto Independência, participou da Cúpula do Povos, realizada recentemente durante a COP 30. Bacharel e Mestre em Relações Internacionais e doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (PPGRI-UERJ), representou o Movimento de Atingidos por Barragens, que durante a cúpula construiu o eixo de Transição Justa e realizou o IV Encontro Internacional de Atingidos e Atingidas por Barragens e Crise Climática.

Ana atua na linha de pesquisa em Política Externa e sua tese tem como tema principal a cooperação internacional na área ambiental, com ênfase na internalização de parcerias e na formulação de políticas públicas. Possui também experiência em outras associações – foi educadora social no Centro Educacional Comunidade São Jorge – e faz parte da equipe do Projeto Incuba Aí, que será implementado pelo IPG no bairro Independência, através do programa PISTA (Parques de Inovação Social, Tecnológica e Ambiental), promovido pela Faperj.

Durante a Cúpula dos povos Ana participou das discussões da mesa “Atingidos pela Crise Climática- a reconstrução do Rio Grande do Sul”, refletindo sobre o contexto petropolitano, que historicamente tem sido atingido por desastres climáticos. Sobre a conjuntura de sua comunidade, Ana escreveu uma crônica, destacando a realidade do Independência. (Clique aqui para ler a crônica). Também participou da coordenação do alojamento, onde estavam 1200 pessoas, de todo o país, que foram atingidas por desastres socioambientais.

Em entrevista ao IPG, Ana relata que as áreas social e ambiental sempre constituíram para ela um foco central de estudo e reflexão e que a situação de Petrópolis ampliou seu senso de urgência e reforçou suas escolhas profissionais. Sobre os eventos, Ana acredita que “os encontros internacionais são fundamentais para a construção conjunta de soluções frente aos problemas ambientais, já que esses desafios são transfronteiriços” e que o projeto “Incuba Aí”, implementado pelo IPG “potencializa essa perspectiva para a comunidade, podendo transformar a forma como as pessoas compreendem e vivenciam a construção das políticas públicas”.
Para saber mais sobre a experiência de Ana, suas perspectivas e ideias sobre gestão participativa, confira abaixo a entrevista na íntegra.

IPG – Qual a sua motivação para entrar na área ambiental? A situação de
vulnerabilidade de Petrópolis foi um fator que estimulou esta escolha?


AG – As áreas social e ambiental sempre constituíram um foco central de estudo e reflexão para mim, especialmente no que diz respeito ao modelo de desenvolvimento econômico hegemônico intensificado a partir da Revolução Industrial. Ao longo da minha trajetória acadêmica, procurei examinar diferentes formas de organizar os territórios e os Estados a partir de modelos econômicos alternativos ao capitalismo. Por isso, durante a graduação, pesquisei Economia Solidária, e, no mestrado e doutorado, aprofundei o estudo sobre o Vivir Bien boliviano. A situação de Petrópolis ampliou meu senso de urgência e reforçou essa escolha. Ela evidencia, de forma concreta, como o uso desenfreado da natureza intensifica eventos extremos e, simultaneamente, escancara a desigualdade social. A maior parte das pessoas atingidas pertence às periferias, são negras e historicamente marginalizadas pelas políticas públicas e econômicas do Estado.


IPG – Poderia falar um pouco da sua experiência profissional, em movimentos sociais e também em projetos socioambientais? Por exemplo, quais os trabalhos que considera mais importantes.


AG – Participei anteriormente da construção de movimentos de juventude, debatendo a situação desse segmento na sociedade petropolitana. Como mulher jovem, vivencio diretamente como Petrópolis se tornou uma cidade hostil: não há investimentos políticos voltados para a juventude. Embora existam universidades importantes na cidade, observa-se que a população periférica ainda encontra grandes barreiras para ingressar nelas e, mesmo quando consegue se formar, muitos jovens precisam deixar Petrópolis para buscar empregos de qualidade. O mercado de trabalho local está cada vez mais limitado e pouco valorizado. Além disso, embora Petrópolis tenha uma vida cultural significativa, com juventudes organizadas em diversas expressões, sobretudo periféricas, vinculadas ao hip-hop e às culturas de matriz afro-brasileira, essa estrutura é sustentada essencialmente pela sociedade civil e pelos movimentos sociais, tendo pouca expressão nas políticas municipais.
A partir desse diagnóstico, atuei no Conselho da Juventude, na construção de manifestações populares e na organização do Festival de Cultura Periférica, realizado na Casa Socialista, na Vila São José. Em todos esses espaços, nosso objetivo era intervir no cotidiano político petropolitano, evidenciando a necessidade de debater juventude com foco nas demandas do presente. Afinal, se o jovem é considerado o futuro, não existe futuro possível sem ações concretas no presente e sem incentivos públicos para a juventude atual.
Minha atuação ambiental, especificamente, está mais vinculada ao campo profissional. Como pesquisadora, sempre busquei compreender como as instituições podem se tornar mais democráticas e orientadas por concepções que integrem natureza e ação humana. Por isso, tanto no mestrado quanto no doutorado, foquei a Bolívia, que se tornou uma República Plurinacional ao incluir o Vivir Bien na constituição do Estado. Mais recentemente, passei a integrar o Movimento de Atingidos por Barragens (MAB), que ampliou sua pauta para abranger a luta dos atingidos pela crise climática. O movimento compreende que a emergência climática tem gerado atingidos em larga proporção e que, portanto, é necessário construir saídas populares para essa crise. Desde 2022, o MAB atua em Petrópolis, mas no bairro Independência sua construção se intensificou no último ano. Em 2024, as chuvas provocaram quatro mortes e deixaram mais de 200 pessoas desalojadas.
Nesse cenário, o MAB atuou cobrando do poder público condições dignas para as pessoas atingidas, fortalecendo o poder de decisão das próprias comunidades diante da tragédia, por meio da organização da luta. Desde então, temos discutido direito à reparação, políticas de prevenção e adaptação às mudanças climáticas. Estamos construindo um plano emergencial que visa fortalecer a compreensão da população sobre seus direitos, para que possam cobrá-los diante das tragédias.

IPG – Como foi sua participação na Cúpula?

AG – Durante a cúpula, o MAB construiu o eixo de Transição Justa. Defendemos que o debate
sobre transição, além de considerar as distintas vulnerabilidades das pessoas e dos
territórios diante da crise, intensificadas pelas desigualdades, deve ser constituído com
participação deliberativa da população. Defendemos, portanto, uma transição justa e
popular. Atualmente, a transição energética tem sido tratada principalmente como substituição de fontes fósseis por energias limpas. Embora isso reduza emissões de GEE, não altera a lógica de desenvolvimento vigente, pois permanece a mentalidade de exploração ambiental para sustentar o crescimento econômico. Assim, novos problemas ambientais emergem. Além disso, há anos os impactos das energias renováveis vêm sendo sentidos no interior do país: inicialmente por hidrelétricas e, mais recentemente, pela expansão da energia eólica e solar. Diante disso, o MAB compreende que salvar o planeta exige transformar a lógica humana em relação à natureza, de posse para pertencimento. O impacto sobre as populações também precisa ser discutido de forma horizontal, com participação deliberativa, e não apenas consultiva.
Também realizamos o IV Encontro Internacional de Atingidos e Atingidas por Barragens e Crise Climática. Nele, debatemos as diferentes formas pelas quais territórios no mundo vêm sendo atingidos, traçando caminhos e estratégias para a defesa de direitos internacionais das populações afetadas. Compreendemos que, para que a mudança ocorra, os movimentos sociais do mundo precisam estar articulados, compartilhando experiências e construindo alternativas em união. Essa perspectiva fortalece o movimento nacional e influencia decisões globais. Fui delegada em ambos os encontros. Na cúpula, participei de debates sobre transição energética e reconstrução de territórios atingidos por desastres climáticos. No encontro internacional, a programação teve dois momentos: um primeiro destinado à discussão de conjuntura nacional e internacional e às estratégias do movimento; e um segundo dividido em eixos temáticos, onde participei do eixo destinado à juventude e às mulheres.

IPG – Qual a sua expectativa para a COP 30 e a Cúpula dos Povos?

AG – A COP ocorre desde os anos 1990 e, apesar do avanço das discussões se dar de forma lenta e
com poucos encaminhamentos efetivos, ela representa um espaço importante de consenso mínimo: a aceitação da necessidade de transformar a matriz de desenvolvimento econômico atual. O maior problema, a meu ver, é a falta de mecanismos de coerção para países que descumprem os acordos, além das desigualdades entre países, já que muitos não dispõem de tecnologias para avançar na transição. Ainda assim, a existência da COP já é, em si, um avanço. Como as duas últimas COPs ocorreram em países petroleiros, que defenderam fortemente a indústria fóssil, havia uma animação maior para esta edição, especialmente porque os movimentos sociais pretendiam ocupar as ruas de Belém, algo inviável nas anteriores devido à forte repressão. Não acredito que os encaminhamentos desta COP serão muito diferentes dos já
existentes, sobretudo no que diz respeito ao Artigo 6º do Acordo de Paris (descarbonização e mercado de carbono) e às responsabilidades comuns, porém diferenciadas (fundos de adaptação e perdas e danos). Entretanto, um possível avanço é o “mapa do caminho” proposto pelo governo brasileiro, que busca construir um consenso mínimo sobre quatro temas: financiamento, lacuna das metas climáticas, medidas unilaterais de comércio e relatórios de transparência.
Quanto à Cúpula dos Povos, sua realização é essencial para trazer à tona a perspectiva
da sociedade civil, diretamente afetada pelas decisões governamentais. Os encaminhamentos da cúpula orientam a construção da agenda climática dos movimentos sociais e fortalecem a capacidade de incidência popular. Esta edição, em particular, foi marcante: reuniu 23 mil pessoas credenciadas, distribuídas em sete eixos, com forte protagonismo indígena.
A carta final da Cúpula apontou os problemas da crise atual, enfatizou o avanço da extrema direita (que dificulta a agenda ambiental) e reforçou a necessidade de mudança sistêmica, já que o modelo vigente se baseia na predação ambiental e na desigualdade. Trouxe 15 propostas fundamentadas na construção coletiva de políticas públicas, com enfoque nas populações vulneráveis e na participação efetiva nos processos políticos e econômicos dos Estados.
Sobre Petrópolis, os eventos climáticos extremos se intensificam devido ao desmatamento e ao aumento de GEEs na atmosfera, que altera o fluxo global de chuvas. Isso evidencia que a cidade não superará a crise sozinha: necessita de políticas nacionais e internacionais que contenham a frequência desses eventos. Ainda assim, permanece a responsabilidade municipal de implementar políticas de prevenção, adaptação e reparação. Desde 2022, houve avanços nos mecanismos de alerta e emergência da Defesa Civil, mas ainda é insuficiente. As políticas habitacionais devem ser prioritárias, pois o modelo atual de aluguel social é insustentável a longo prazo. Os mecanismos de reparação também precisam ser revistos, já que as famílias precisam de condições mínimas para reconstruir suas vidas, nesse aspecto, o Rio Grande do Sul
oferece aprendizados relevantes. As respostas às tragédias devem integrar municípios, estados e União, com orçamentos e planos específicos para territórios vulneráveis. Os encontros internacionais possibilitam cooperações fundamentais para implementar políticas públicas. Nesse contexto, a paradiplomacia é uma ferramenta estratégica para criar redes capazes de financiar políticas climáticas na cidade.

IPG – Em relação a Petrópolis, quais os principais fatores para o agravamento
contínuo dos problemas socioambientais da cidade?


AG – O primeiro fator é a falta de políticas de prevenção. Já sabemos que eventos climáticos
extremos são uma realidade, e, por isso, políticas públicas capazes de prevenir perdas
materiais e, principalmente, mortes devem ser implementadas. A vulnerabilidade de
Petrópolis está vinculada à forma como a cidade foi urbanizada: pessoas foram
empurradas para periferias e áreas de risco, enquanto faltou planejamento adequado para
drenagem das águas de chuva e saneamento básico, resultando diretamente em enchentes. Até hoje, os governos petropolitanos trataram o tema majoritariamente por meio de
políticas de reparação. De um lado, o aluguel social, que, como já dito, é insustentável
porque o número de atingidos tende a crescer. De outro, as contenções nos locais de
deslizamento e o desassoreamento dos rios, que, embora necessários, permanecem insuficientes. Por isso, o segundo fator é a ausência de formas efetivas de reparação. É preciso desenvolver auxílios emergenciais e projetar políticas habitacionais específicas para pessoas atingidas. Um exemplo é o cartão Recomeçar, oferecido pelo governo do Estado, que não contempla todas as pessoas atingidas, dificultando a reconstrução da vida daqueles que já viviam em vulnerabilidade significativa.

IPG – Como o projeto com o IPG e sua experiência na Cúpula podem contribuir para
promover ações em Petrópolis que sensibilizem e ampliem a participação
comunitária nas políticas públicas?


AG – A participação popular nas políticas públicas depende diretamente dos métodos pelos
quais essas políticas são formuladas e implementadas. O modelo institucional atual oferece pouca abertura para a participação efetiva. Embora existam mecanismos constitucionais, como consultas públicas e plebiscitos, eles raramente são incentivados ou divulgados pelos órgãos do Estado, já que a classe política tende a centralizar as decisões no Legislativo e no Executivo, verticalizando o processo decisório.
Minha participação na Cúpula evidenciou como processos decisórios podem assumir
caráter horizontal, com encaminhamentos coletivos e abertos. As políticas debatidas
foram construídas com a participação de diversos setores sociais, buscando consensos
entre os integrantes de cada eixo. O modelo representativo atual concentra a decisão em indivíduos eleitos, que poderiam horizontalizar o debate, mas, na prática, frequentemente individualizam as decisões. Até mesmo os conselhos municipais têm caráter consultivo, e suas deliberações podem ser ignoradas pelos tomadores de decisão.
Dessa forma, é preciso pensar mecanismos que permitam incidência coletiva real. Mas,
antes disso, é necessário reencantar as pessoas para a política institucional, mostrar que
a política vai além da disputa partidária e diz respeito à construção coletiva de soluções
para demandas sociais diversas. Nesse sentido, promover debates sobre gestão participativa e criar espaços que permitam à população apresentar suas demandas e elaborar soluções é essencial para reconstruir o vínculo político. O aumento da incidência popular, por meio desses canais, tende a aproximar os tomadores de decisão da sociedade, já que dependem do voto para
permanecer em seus cargos. Os encontros em Belém mostraram caminhos interessantes para construir mecanismos de gestão participativa do território. O projeto implementado pelo IPG potencializa essa perspectiva para a comunidade, podendo transformar a forma como as pessoas compreendem e vivenciam a construção das políticas públicas.

IPG – Qual a sua percepção de gestão participativa?

AG – Compreendo a gestão participativa como um processo político e administrativo
fundamentado na construção coletiva das decisões, no qual as políticas públicas são
formuladas, implementadas e avaliadas com a participação direta da população. Trata-se
de um modelo que rompe com a lógica verticalizada e centralizadora, ainda predominante
no Estado brasileiro, e que busca promover uma relação horizontal entre governo e
sociedade, reconhecendo que as pessoas que vivem os problemas do território são
também aquelas que melhor conhecem caminhos possíveis para solucioná-los. A gestão participativa pressupõe, portanto, a democratização do processo decisório. Isso significa não apenas oferecer espaços formais de escuta, mas garantir mecanismos reais de deliberação, transparência e corresponsabilidade. É uma prática que valoriza o diálogo entre diferentes setores sociais, a diversidade de experiências e saberes, e a construção de consensos que reflitam os interesses coletivos, especialmente das populações historicamente marginalizadas dos processos políticos. Além disso, a gestão participativa envolve pedagogia política: é preciso criar ambientes que incentivem a população a compreender a política como parte do cotidiano e não
apenas como disputa institucional ou partidária. Isso significa investir em processos
formativos, fortalecer conselhos, promover assembleias territoriais e construir instrumentos permanentes de participação, não apenas consultivos, mas deliberativos. Por fim, percebo a gestão participativa como uma estratégia fundamental para responder aos desafios contemporâneos, sobretudo os socioambientais. Em territórios vulneráveis, onde as desigualdades se expressam de forma mais intensa, a participação popular não é apenas desejável, mas necessária, pois garante que as políticas públicas sejam mais justas, eficazes e enraizadas nas realidades locais. É, portanto, uma forma de produzir decisões mais legítimas, sustentáveis e conectadas às necessidades reais da população.


    Entrevista e edição: Teresinha de Jesus Fidelles de Almeida

    Entrevista Maria Fernanda Fadel – Vida Sustentável

    Quando pensamos em profissionais da área ambiental, quase sempre lembramos dos biólogos, engenheiros florestais e catadores de materiais recicláveis. Mas a sustentabilidade deve ser inserida em todas as áreas e profissões. E uma categoria que consegue implementar projetos sustentáveis, incluindo diversos profissionais em suas atividades, é o designer de interiores sustentável.

    Para compreender melhor sobre essa atividade, o IPG conversou com a gestora de projetos, Maria Fernanda Fadel. Formada em Design de Interiores, também é graduada em Administração Pública pela Universidade Católica de Petrópolis e possui MBA em Administração Pública, concluído na Fundação Getúlio Vargas. Com larga experiência em desenvolver projetos de interiores de forma consciente adotou a sustentabilidade também como um estilo de vida. Em seus trabalhos ela é responsável pela criação, execução e acompanhamento de  projetos de Arquitetura de Interiores em residências e espaços comerciais. Minimizar o impacto ambiental e promover a saúde e o bem-estar dos ocupantes é uma de suas prioridades. Por isso, utiliza materiais ecológicos, estimula a eficiência energética, a redução de resíduos e a incorporação de elementos da economia circular. Maria Fernanda reaproveita bastante materiais de demolição e foi uma das fundadoras do movimento Redesign Mood. Colaboradora do IPG, conheceu Philippe Guédon e acredita que ele deixou um grande legado para o município.

    Confira abaixo a entrevista na íntegra

    IPG – Você já está há algum tempo desenvolvendo projetos de sustentabilidade na área de moda e de design de interiores. O que te motivou a entrar nesta área?

    MF – Desde  a minha infância sentia uma necessidade interna de reaproveitar objetos e roupas e recriar em cima deles. Durante minha adolescência me interessei  por sustentabilidade através da criação e comercialização de peças de roupas e também do reaproveitamento de materiais em casa.Criei essa cultura também na minha casa com minhas filhas e depois  no trabalho, nos meus projetos de design de interiores, procurando reaproveitar itens e materiais  já existentes no espaço, assim como sempre apoiei a moda reciclada, brechós e feiras de sustentabilidade em Petrópolis e no Rio. Durante a pandemia, aumentei muito esse apoio e incentivo forte  à sustentabilidade.Me tornei líder de sustentabilidade no grupo Mulheres do Brasil, como voluntária, praticando com os grupos lá diariamente e, na minha vida incluí essa filosofia, tanto em casa quanto no trabalho,na forma de cuidar do  lixo, na forma de se locomover – na maior parte do tempo ando a pé – ou na  alimentação sustentável e saudável que iniciei em 2019 após um tratamento natural e que ocasionou uma regeneração completa da minha saúde física e hábitos, através do pouco consumo de itens desnecessários.Sempre me incomodei com todas as formas de desperdício e descartes desnecessários. Acredito que é uma outra forma de viver melhor e de maneira sustentável é priorizar estar sempre  perto da natureza para   manutenção da  própria saúde física e mental. É verdadeiramente um estilo de vida para mim!

    IPG – Quais projetos já desenvolveu?

    MF – Projetos de repaginação arquitetônica  e design de interiores, moda criativa, moda reciclada. Fui líder de sustentabilidade no grupo Mulheres do Brasil, onde participei de uma série de movimentos e projetos de logística reversa, reciclagem e cuidados com a natureza.

    IPG – Poderia explicar sobre o Redesign Mood?

    MF – Após  alguns anos na área de design, o Redesign mood nasceu com esse propósito de repaginação com o reaproveitamento de móveis, peças e materiais pré-existentes  que valorizam a história da cada um, valoriza os  materiais e peças nobres e de época e evitam o desperdício e custo excessivo.

    IPG – Quais as principais dificuldades para implementar os projetos nessa área de sustentabilidade?

    MF – Eu não tive grande dificuldades  em defender a sustentabilidade nos projetos pelo conceito. A não ser, claro, quando era um projeto totalmente novo e com um proposta geralmente comercial muito moderna. Mas ainda assim, quase sempre, conseguia  garimpar  peças antigas para trazer esse conceito e mostrar a importância de valorizar o antigo e que já existe a união com o novo.

    IPG – Pensando  na “Petrópolis Que Queremos”, teria alguma sugestão de como fazer a cidade se desenvolver de forma mais sustentável?

    MF – Acho que a melhor forma e a mais eficiente ainda é através da educação,  e da mudança de cultura ou melhor fazer o caminho de volta para o que realmente importa , pois só através da  consciência  pura e clareza do ser humano que transformamos a sociedade .

    Nas fotos abaixo alguns trabalhos de Maria Fernanda feitos com materiais reaproveitados.

    Entrevista, redação e edição: Teresinha Almeida

    INSTITUTO PHILIPPE GUÉDON PROMOVE CURSO GRATUITO SOBRE RESÍDUOS SÓLIDOS 

    Dando continuidade ao ciclo de cursos e capacitações oferecidos de forma gratuita pelo Instituto Phillipe Guédon (IPG) será realizado nos dias 28,29 e 30 de abril, de  9h  às 12h, o curso “Resíduos Sólidos – Responsabilidade Compartilhada _Descarte Consciente”.O curso terá como facilitadora a Jornalista, pós-graduada em Planejamento e Educação Ambiental, Teresinha de Jesus Fidelles de Almeida. Entre os temas que serão abordados estão  a legislação sobre resíduos sólidos e como ela deve ser aplicada no Município. As formas de descarte consciente dos resíduos, incluindo a logística reversa,  e a importância da reciclagem para o desenvolvimento econômico e sustentável da cidade e para a saúde da população, também fazem parte do conteúdo.

    O Presidente do IPG,Cleveland Jones, destaca que a proposta está “alinhada com os objetivos do Instituto de capacitar as pessoas para que possam exercer a cidadania de forma mais efetiva e trazer mais informações e compreensão sobre o tema, os problemas e desafios da gestão dos resíduos sólidos,  estimulando a sociedade a participar da construção de políticas públicas para serviços dos quais ela mesma usufrui”.

    De acordo com Teresinha “Como acontece em vários municípios do país, Petrópolis ainda não cumpre totalmente a Política Nacional de Resíduos Sólidos. Parte disso, se deve à desinformação sobre o assunto, o que faz com que a questão não seja tratada corretamente, tanto por parte do poder público, quanto do cidadão”. Por isso “Este curso se faz necessário para desenvolver o senso crítico dos participantes  pois fornecerá informações que normalmente não são discutidas de uma maneira que resulte em ações concretas”.

    Cleveland ressalta que “Numa época em que os municípios sofrem grandes restrições financeiras, mas a sociedade exige serviços de qualidade na coleta do lixo e na disposição dos resíduos sólidos urbanos, o cidadão pode e deve assumir um papel mais proativo  para promover o melhor funcionamento dos serviços públicos municipais. Os moradores do município precisam não só cobrar do poder público o que se espera dele, mas também fazer sua parte, assumindo práticas mais sustentáveis e se envolvendo nas questões que afetam os munícipes” e ressalta que “Isso é justamente a gestão participativa em ação, aquilo que o idealizador do IPG, Philippe Guédon, tanto apregoou e  assim o Instituto estará colaborando para a construção de um ambiente de mais oportunidades para o desenvolvimento de Petrópolis, e de mais qualidade de vida para todos.

    O curso acontece em parceria com a ACEP (Associação Comercial e Empresarial de Petrópolis),onde serão realizadas as aulas. “A Associação sempre teve o compromisso com temas relacionados aos cuidados com o município e com o meio ambiente. Apoiar um projeto como este é uma questão de responsabilidade social e requer o engajamento de entidades comprometidas com o propósito de incentivar práticas de sustentabilidade em todos os ambientes — desde as medidas adotadas dentro de casa até os grandes empreendimentos”, afirmou o diretor de desenvolvimento e competências da ACEP, Humberto Medrado. As inscrições para o curso, destinado a maiores de 18 anos, devem ser feitas até o dia 20 de abril através do link https://acesse.one/JkZgA. As vagas são limitadas. Serão elaborados certificados online para os interessados que informarem previamente. Qualquer dúvida será esclarecida através do e-mail ipgpar@gmail.com

    ENTREVISTA: FELIPE FACKLAM

    VETERINÁRIO ESPECIALISTA EM MEDICINA DE ANIMAIS SELVAGENS

    No Planejamento Estratégico para Petrópolis (PEP 20), desenvolvido pelo IPG em 2020, há um capítulo específico para o tema Fauna. Por isso, é importante termos conhecimento das características dessa fauna, para assim conseguir planejar uma estratégia, já que Petrópolis está em uma Área de Proteção Ambiental e convive com animais domésticos e exóticos. Para compreender melhor como lidar com esta questão, o IPG conversou com o veterinário Felipe Facklam, especialista em Medicina de Animais Selvagens e Responsável técnico pela clínica escola de medicina veterinária da Universidade Estácio de Sá, da unidade Petrópolis. Felipe também atua como Médico veterinário socorrista e resgatista do GRAD (Grupo de Resposta a Animais em Desastres) e é assessor técnico na Coordenadoria de Bem-estar Animal da Prefeitura de Petrópolis.

    Confira abaixo a entrevista e deixe seu comentário.

    IPG – Em relação a um reflorestamento urbano, os veterinários especializados em animais silvestres costumam ser chamados para participar desses projetos? Se sim, como atuam?

    FF -Sim, veterinários especializados em animais silvestres são frequentemente chamados para participar de projetos de reflorestamento urbano. Sua atuação é importante no planejamento e execução das ações, pois possuem conhecimento sobre as espécies nativas e exóticas que habitam ou poderão habitar as áreas reflorestadas. Eles atuam na avaliação de impactos ambientais, monitoramento da fauna, manejo de espécies, reintrodução de animais silvestres e no atendimento a possíveis casos de animais feridos ou doentes que surgem durante o processo. Além disso, contribuem para a criação de corredores ecológicos e travessias de fauna que são essenciais para a manutenção da biodiversidade e para a conectividade entre fragmentos florestais.

    IPG – Os petropolitanos convivem muito com animais silvestres (gambás, capivaras, jacus, etc.) e algumas dessas populações têm aumentado nos centros urbanos, inclusive parece que alguns desses animais não são da nossa região (miquinhos, tucanos). Poderia explicar os motivos desse aumento e o que acontece com o ecossistema a partir dessa convivência?

    FF – O aumento da presença de animais silvestres em áreas urbanas, como ocorre em Petrópolis, pode ser explicado por diversos fatores, incluindo a expansão urbana que fragmenta habitats naturais, a busca por alimento e abrigo nos centros urbanos, e as alterações climáticas que afetam a disponibilidade de recursos naturais. Algumas espécies, podem não ser nativas da região e são classificadas como exóticas. A introdução dessas espécies pode causar desequilíbrios no ecossistema local, como a competição com espécies nativas por recursos, a transmissão de doenças, e a alteração das cadeias alimentares. Esses desequilíbrios podem levar à redução da biodiversidade e à degradação do ambiente natural.

    IPG – Como os moradores devem agir se encontrarem um animal silvestre seja na rua ou na sua residência? E se este animal estiver ferido, o que fazer ou não fazer?

    FF – Ao encontrar um animal silvestre, é importante que os moradores mantenham a calma e evitem qualquer contato direto, pois o animal pode estar estressado, doente, com dor e pode reagir de forma imprevisível. O ideal é acionar as autoridades competentes, como a Polícia Ambiental, IBAMA (linha Verde), ou o Corpo de Bombeiros, que possuem equipes treinadas para o manejo e resgate desses animais. Se o animal estiver ferido, deve-se evitar tocá-lo ou tentar alimentá-lo, pois medidas inadequadas podem agravar a lesão. Aguarde a chegada dos profissionais que farão o resgate e prestarão os cuidados necessários.

    IPG – Você tem recebido muitos chamados de resgate?

    FF – Sim, o número de chamados para resgate de animais silvestres tem aumentado, principalmente em áreas urbanas onde a expansão e a fragmentação dos habitats naturais são mais intensas. Esses chamados geralmente envolvem animais que invadem residências, que são encontrados feridos ou desorientados, ou que estão em locais perigosos tanto para eles quanto para os humanos. Muitas pessoas alimentam esses animais e até deixam que fiquem nas residências, como ouriços e gambás.

    IPG – Esse comportamento pode trazer danos para o animal, para o ser humano e para os animais domésticos? Se sim, quais.

    FF – Sim, alimentar animais silvestres e permitir que fiquem nas residências pode trazer sérios danos tanto para os animais quanto para os seres humanos e animais domésticos. Para os animais silvestres, essa prática pode resultar na perda de seus instintos naturais de busca por alimento, tornando-os dependentes do ser humano, o que pode comprometer sua sobrevivência a longo prazo. Além disso, há o risco de transmissão de doenças zoonóticas, que podem afetar tanto humanos quanto animais domésticos, além de potenciais conflitos que podem resultar em ferimentos. Outro problema é a competição por alimento e espaço entre os animais silvestres e os domésticos, o que pode levar a brigas e ferimentos. Portanto, é fundamental que os moradores evitem alimentar ou abrigar animais silvestres e que busquem orientação das autoridades competentes em caso de contato com esses animais.

    Entrevista a Teresinha Almeida.

    ACEP e IPG firmam parceria para novos projetos em Petrópolis

    Uma combinação perfeita”. Assim Roberto Musser definiu a parceira da ACEP com o IPG. Responsável por articular a parceria, Roberto acredita na importância de “incorporar as visões das duas organizações com o compromisso do desenvolvimento sustentável de Petrópolis. Por um lado com a gestão social participativa e por outro na criação de um ambiente favorável aos negócios”.

    A parceria foi formalizada em junho e de acordo com o Presidente do IPG, Cleveland Jones, “é uma demonstração de uma colaboração que pode beneficiar ambas as partes, e ampliar a oferta de serviços úteis aos empresários e à sociedade, fortalecendo o ambiente de negócios no município e ajudando a melhorar a qualidade de vida dos petropolitanos.”
    Cleveland acrescentou que “o IPG está muito satisfeito com a parceria celebrada, que reúne as competências da ACEP e do IPG em prol do desenvolvimento sustentável de Petrópolis”.

    Além de ofertar novos cursos focados no conceito de ESG e outros, Cleveland destaca que esta união “também permitirá ao IPG continuar ampliando sua atuação para fortalecer a gestão participativa e promover um ambiente digno de uma cidade inteligente, um objetivo comum do IPG e da ACEP.”

    A Presidente de Honra do IPG, Silvia Guédon, disse estar muito contente e afirmou que “a união de instituições como o IPG e a ACEP que possuem em suas diretorias pessoas bastante capacitadas, com uma trajetória de credibilidade, proporcionará a realização de grandes projetos”.

    INSTITUTO PHILIPPE GUÉDON (IPG) APRESENTA PROPOSTAS PARA SECRETARIA MUNICIPAL DE MEIO AMBIENTE

    Nesta quinta-feira (22/02), o Instituto Philippe Guédon (IPG), representado por Silvia Guédon (Presidente de Honra), Cleveland M. Jones (Presidente), Maria Cristina Franca Melo, Roberto Musser, e Luís Carlos Dias de Oliveira, receberam na sede da ACEP (Associação Comercial e Empresarial de Petrópolis), junto com Paulo Marcos dos Reis (Presidente da ACEP), a visita do Secretário de Meio Ambiente de Petrópolis, Carlos Alberto, Secretário Municipal de Meio Ambiente e de Mauro Corrêa, técnico da Secretaria de Meio Ambiente.

    No encontro, o Secretário relatou o histórico do Parque Natural Municipal Padre Quinha e dos projetos que a Secretaria apresentou para a reforma do casarão do parque e da construção do novo Pavilhão Oscar Niemeyer e também o que considera os possíveis impactos do Pavilhão Oscar Niemeyer no turismo, nas ações de Educação Ambiental e na imagem de Petrópolis.

    O IPG reafirmou a sua posição apartidária em prol do debate amplo e livre e o compromisso com a promoção de políticas públicas construindo um ambiente de oportunidades para o desenvolvimento sustentável e a qualidade de vida em Petrópolis.

    Em relação ao Pavilhão Niemeyer, o IPG mantém o seu entendimento de que existem assimetrias de informações e que o melhor caminho é o entendimento mútuo.

    O IPG apresentou cinco propostas de projetos em temas considerados prioritários no entendimento da Secretaria de Meio Ambiente e serão desenvolvidas alternativas de parcerias com o IPG em projetos na área ambiental.

    SOLUÇÕES PARA O DESCARTE DOS RESÍDUOS SÓLIDOS

    ENTREVISTA COM CLEVELAND JONES – Presidente do IPG (Instituto Philippe Guédon) Pesquisador do INOG – Instit. Nac. de Óleo e Gás/CNPq – UERJ Membro, Geosciences Advisory Board – NXT Energy Solutions

    IPG – Os aterros sanitários são a melhor solução para destinar o lixo gerado em uma cidade?Explique o porquê.

    CJ – Os aterros são uma solução ambientalmente aceitável para a destinação final dos resíduos sólidos urbanos (RSU) gerados na maioria das cidades brasileiras, conquanto sejam construídos e operados adequadamente. Mas é importante lembrar que aterro sanitário não é lixão, e vice-versa.

    Cleveland Jones

    Qualquer aterro deve funcionar dentro de um plano maior, que inclui, além da coleta e destinação adequada de RSU, programas de coleta seletiva, reciclagem, destinação diferenciada de lixo verde e entulho de obras, e compostagem de resíduos orgânicos, sempre que possível. Os aterros exigem uma área relativamente grande para sua instalação, para poder armazenar os RSU gerados diariamente por um prazo relativamente longo, de pelo menos alguns anos. Sua construção envolve muito mais que o preparo do terreno escolhido, pois envolve técnicas construtivas específicas, para assegurar que não haja impactos adversos, como contaminação do solo e recursos hídricos, e para minimizar outros impactos, como ruído, cheiro, efeitos na vizinhança (especialmente próximo a aeroportos, pela inevitável presença de aves que têm preferência por esses locais). Também têm que cumprir certas exigências ambientais e técnicas, como assegurar espaço logístico para sua operação, distância mínima de recursos hídricos e populações, etc.

    Infelizmente, como em Petrópolis, é comum que seja difícil encontrar espaços suficientemente grandes e adequados para a instalação de um aterro sanitário. E a questão logística, envolvendo a distância entre centros geradores e o aterro, assim como o trajeto até o aterro e seus impactos na vizinhança e vias transitadas, também representam uma dificuldade para instalar novos aterros.

    IPG – Quais são as alternativas para a instalação de um aterro sanitário, como em Petrópolis?

    CJ – Em alguns casos, é possível justificar uma alternativa aos aterros, que são geralmente a forma mais barata e confiável para o destino dos RSU. Entretanto, Petrópolis tem poucos espaços disponíveis que podem ser utilizados como aterros, e sua topografia dificulta a construção de um aterro dentro das exigências técnicas e ambientais.

    Nesses casos, o governo federal e o estado do Rio de Janeiro têm estimulado a criação de consórcios intermunicipais para a destinação dos RSU de um ou mais municípios, em um aterro de outro município. É o sistema que temos em funcionamento atualmente, em Petrópolis, em que os RSU de Petrópolis são levados ao aterro do Consórcio Intermunicipal Três Rios, no município de Três Rios, a uns 70km de Petrópolis.

    Obviamente, além da necessidade de uma estação de transbordo, onde os RSU são colocados em caminhões diferentes dos que coletam os RSU, o transporte por longas distancias gera custos significativos, e impactos ambientais adicionais. Enquanto não houver alternativa mais atraente para Petrópolis, essa continuará sendo a solução empregada para a destinação de seus RSU.

    Mas devemos lembrar que em qualquer sistema de coleta e destinação de RSU de qualquer centro populacional, seja ele grande ou pequeno, o incentivo à coleta seletiva e reciclagem, e à compostagem, podem reduzir os custos do sistema, pois reduzem a quantidade de RSU que precisa ter destinação final adequada, enquanto podem gerar benefícios ambientais, emprego e renda, além de reduzir dos custos para obter novos materiais que a economia demanda.

    IPG – Haveria outras soluções para a destinação dos RSU de Petrópolis?

    CJ – Quando as alternativas mais em conta, como aterros próprios ou consorciados, não estão disponíveis ou não são viáveis, por falta de espaços adequados, logística inviável, limitações ambientais ou custos elevados, as usinas de lixo são uma alternativa.

    Nessas instalações, os RSU são incinerados a altas temperaturas ou pirolisados (alta temperatura sem oxigênio). Com o devido controle das emissões (filtros), pouquíssimos resíduos finais são gerados (basicamente cinzas). Essas usinas também podem ser construídas para gerar energia pela queima dos RSU, assim como outros produtos de valor agregado, como o biochar (carvão vegetal) e outros, que podem ser utilizados na agricultura, no paisagismo, etc.

    Entretanto, há de se considerar que geralmente essa forma de destinação final dos RSU pode ser significativamente mais cara do que em um aterro, e geralmente é escolhida em países mais ricos ou centros urbanos onde o transporte em longas distancias é proibitivo, ou implica em impactos inaceitáveis do transporte de lixo por centros de alta densidade populacional.

    IPG – Como a população que mora no entorno ou que sobrevive do trabalho feito nos aterros poderia ser beneficiada?

    CJ – Não somente essa população adjacente, mas muitos outros trabalhadores que se dedicam à coleta e reciclagem dos RSU, dependem dos RSU gerados em uma cidade ou município. Eles são uma parte importante da destinação final dos RSU, pois quanto mais material for retirado do fluxo destinado aos aterros ou outro destino final, menor a quantidade levada aos aterros ou processada em uma usina, o que pode reduzir os custos significativamente, além de fornecer sustento para esses trabalhadores.

    A coleta, separação e reciclagem de materiais do fluxo de RSU gerados, especialmente através de cooperativas ou associações de catadores de materiais reutilizáveis e recicláveis faz parte, inclusive, da política nacional de resíduos sólidos, constante da Lei 12.305 de 2010. Reconhecendo os benefícios ambientais, sociais e para a cadeia produtiva desses trabalhadores, essa lei imputa ao “titular dos serviços públicos de limpeza urbana e de manejo de resíduos sólidos” o apoio à organização e o funcionamento de cooperativas desses trabalhadores.

    Infelizmente, o que se observa na prática, em Petrópolis como em praticamente todo o Brasil, é uma desobservância a essa obrigação, assim como a diversas outras obrigações que a Lei 12.305 criou, mas que foram ignoradas, e algumas das mais importantes, como a obrigação de pôr fim aos lixões, tiveram sua vigência adiada repetidamente, para atender aos municípios que desrespeitaram suas obrigações, ao invés de exigir o cumprimento da lei.

    Diante dessa realidade, os trabalhadores que se dedicam à coleta, separação e reciclagem dos materiais recicláveis, especialmente os mais frágeis dessa cadeia, os chamados catadores, sofrem com a falta de incentivos para realizar seu trabalho com remuneração e condições dignas. E quem perde, além deles, é toda sociedade, que deixa de auferir os benefícios ambientais e econômicos do reaproveitamento de materiais que poderiam deixar de ser destinados como RSU e se transformar em emprego, renda e recursos produtivos para a economia.

    IPG – Como deve ser feito o descomissionamento de aterros, ao final de sua vida útil?

    CJ – O descomissionamento de um aterro é uma fase integral do ciclo de vida de um aterro, desde sua concepção e licenciamento, até o fim de sua operação, que envolve o período em que não mais recebe RSU para destinação final, mas que ainda deve ser operado para assegurar que seus impactos ambientais sejam minimizados.

    Após o encerramento das atividades de recebimento e condicionamento dos RSU (cobertura regular e constante com material adequado, como argila ou terra), o aterro ainda deverá ser operado por vários anos, enquanto o chorume e o biogás continuarem a ser gerados.

    O chorume continuará sendo gerado por bastante tempo, portanto seu tratamento, ou disposição final em estação de tratamento de efluentes (ETE) capacitada para tal recebimento, precisa continuar até que sua geração seja insignificante.

    Da mesma forma, o biogás proveniente da decomposição da matéria orgânica também continuará sendo gerado por bastante tempo, e necessita ser captado e aproveitado, ou incinerado nos pontos de escape, para evitar sua emissão como potente gás de efeito estufa (predominantemente composto por metano e dióxido de carbono, além de outros componentes altamente tóxicos e perigosos).

    Finalmente, as instalações que abrigavam a operação de um aterro precisam ser convertidas para um uso adequado, permitindo que um possível passivo ambiental seja transformado em um ativo útil. Geralmente, a superfície de um aterro é convertida em áreas vegetadas, parques, etc., ou em outras instalações condizentes com os cuidados exigidos pela necessidade da continuada captação e tratamento do chorume e biogás.

    IPG – Quais os impactos e riscos do descomissionamento?

    CJ – O descomissionamento de um aterro deve levar em conta os impactos ambientais possivelmente ocasionados, como o da geração continuada de chorume e biogás, mas também o impacto social que pode ocorrer com o fim de seu funcionamento, especialmente para as pessoas cujo trabalho dependia da operação do aterro, como aqueles que coletavam materiais recicláveis no local ou próximo dele.

    Medidas eficazes para mitigar os impactos sociais podem ser muito complexas e de difícil implementação, já que podem exigir a transferência de populações afetadas, orientações para essa transição, oferta de oportunidades alternativas, recolocação ou capacitação, etc., e tudo de forma não impositiva, mas através de ações participativas.

    IPG – O descomissionamento do aterro em Petrópolis pode ser feito? Quem seria o responsável?

    CJ – O descomissionamento deveria ser responsabilidade do operador, que geralmente é o titular dos serviços públicos de limpeza urbana e de manejo de resíduos sólidos, mas que pode ter concedido o serviço através de contrato. Como vimos, as ações de descomissionamento, inclusive seu monitoramento, por exigências legais e técnicas, podem durar anos após o encerramento das atividades de recebimento de RSU.

    Dessa forma, o descomissionamento se configura como uma etapa potencialmente onerosa, e de longa duração, motivo pelo qual qualquer ente responsável por essa etapa busca reduzir os custos e as atividades associadas ao máximo. Resta à autoridade municipal concedente, que no caso de Petrópolis é a Comdep fiscalizar a operação e assegurar a adequada realização dos serviços tecnicamente, ambientalmente e legalmente necessários. E resta ao órgão estadual fiscalizador, que no caso de Petrópolis é o INEA, acompanhar e exigir o cumprimento dessas obrigações, monitorando a operação através de relatórios do operador e por fiscalização própria, independente. Mas no caso de Petrópolis, a Secretária de Meio Ambiente, que está capacitada a fazer licenciamento de operações cujos impactos residem exclusivamente no município, também teria que monitorar e fiscalizar a operação durante a fase toda do descomissionamento.

    Em Petrópolis, o aterro de Pedro do Rio já teve sua operação encerrada, e teoricamente não deveria haver mais destinação de RSU para lá. As medidas mais básicas de descomissionamento, como o tratamento do chorume e biogás, deveriam estar sendo realizadas e monitoradas. A transformação do local para outro uso adequado e útil parece não ter sido realizado, até porque o local, até onde sabemos, continua recebendo outros resíduos, que tecnicamente também são RSU, mas que são categorizados separadamente. Esses resíduos são basicamente entulho (resíduos inertes de obras) e lixo verde (de podas, jardinagem, etc.).

    Se a situação atual constitui ou não uma atuação de acordo com a lei e com as obrigações contratuais e legais das partes e dos órgãos fiscalizadores, é uma questão em aberto, que não é facilmente determinada. Isso porque não há transparência nas ações e operações realizadas, nem por parte do operador nem por parte dos órgãos fiscalizadores responsáveis. A falta de transparência impede uma avaliação da real situação atual.

    O que pode ser dito é que eu visitei o Aterro de Pedro do Rio em duas ocasiões, em 2012 e 2014, quando fiz relatórios técnicos da situação encontrada, e em ambas as ocasiões apontei grosseiros erros e falhas em sua operação. Esses relatórios estão disponíveis na página do Dados Municipais, mantido pelo IPG (www.dadosminicipais.org.br). Entretanto, se quando o aterro ainda estava operando e gerando receita para o operador, e essas receitas ainda podiam justificar e permitir uma operação correta, isso não ocorria, imagino que agora, sem que o local esteja gerando receitas significativas, isso deve ser ainda mais improvável, infelizmente. A falta de transparência suscita ainda mais dúvidas, assim como o fato que após a visita de 2014, não me foi mais concedida a autorização para realizar outra visita técnica de inspeção.

    IPG – Poderia dar exemplos de descomissionamento de aterros bem-sucedidos?

    CJ – Um exemplo de um descomissionamento de um aterro que considero bem-sucedido é justamente o que eu coordenei no projeto de Diagnóstico Socioambiental da região do Aterro Metropolitano de Jardim Gramacho (AMJG). Como esse era o maior aterro da América do Sul, naturalmente o projeto envolveu muitos profissionais, e muitos aspectos a serem considerados, envolvendo questões técnicas, operacionais, ambientais e sociais. O trabalho foi realizado em duas partes: uma, analisando e fazendo recomendações referentes ao meio biótico e aspectos ambientais e operacionais, e outra, analisando e fazendo recomendações referentes aos aspectos socioeconômicos.

    O MP-RJ respaldou o projeto (e minha indicação como coordenador geral), e assim conseguiu fazer com que a UERJ (através da qual eu participei) e o município de Caxias celebrassem o acordo que permitiu esse derradeiro trabalho para diagnosticar a realidade do AMJG e orientar seu encerramento e as respectivas recomendações. Certamente isso contribuiu para empoderar a equipe, viabilizar seu trabalho e permitir sua realização em um difícil ambiente de muitas pressões e interesses locais e regionais, que representavam históricos entraves ao efetivo e adequado encerramento do AMJG. Entretanto, a premência da necessidade de encontrar uma alternativa para a situação do lixo do Rio de Janeiro também deve ter sido chave, pois nesses casos, a vontade política é essencial para o êxito de qualquer iniciativa, e a falta de vontade política mais efetiva, no passado, condenou o AMJG a operar por bem mais tempo do que poderia ser justificado.

    IPG – Poderia falar um pouco da sua experiência em Gramacho?

    CJ – Apesar dos desafios, o encerramento operacional do aterro se deu apenas três anos após a conclusão de meus relatórios, que apontaram a triste realidade do AMJG e seu entorno, a necessidade de cessar o destino de RSU para o AMJG, e apresentaram propostas para mitigar os impactos ambientais e sociais daquela época e os que viriam após o descomissionamento do AMJG.

    Aterro de Gramacho antes do encerramento

    As dificuldades de lidar com as questões dos resíduos sólidos no Brasil, sempre relegados a um segundo plano, e notadamente no cenário local, onde inúmeras irregularidades existiram abertamente durante anos a fio, sugeriam a todos que o objetivo de eliminar completamente os problemas ambientais, operacionais e sociais do AMJG e de seu encerramento era uma meta que ninguém, inclusive eu, esperava alcançar plenamente.

    Ainda assim, as principais conquistas foram justamente as mais importantes: a de precipitar a criação de uma alternativa ao AMJG, que foi a implementação e operacionalização do aterro em Seropédica, RJ; o descomissionamento efetivo e adequado do AMJG; o cadastramento e os cuidados e indenizações aos quase dois mil catadores que diretamente trabalhavam no AMJG; a oferta de novas oportunidades de trabalho com a implementação de centros de reciclagem de resíduos; a realização de ações técnicas para minimizar e mitigar os impactos ambientais do encerramento (tratamento de chorume e planta de biogás e geração de energia).

    Diversas outras recomendações acabaram não sendo implementadas, ou pelo menos não plenamente, e algumas foram posteriormente descontinuadas, já que poder assegurar sua efetiva continuidade por muito tempo estava fora do alcance do projeto, especialmente considerando que o tema lixo é altamente contaminado pela política, e é volátil e sujeito à interação dos interesses locais, estaduais e federais.

    Mas cabe ressaltar que nem todos os aterros oferecem tantos desafios, nem tampouco tantas oportunidades para implementar medidas para mitigar impactos negativos. Dada a escala do AMJG, por exemplo, a captação e tratamento de chorume conseguiu ser realizada em plantas maiores e mais eficazes, assim como a captura do biogás pode ser realizada com o aproveitamento do gás na geração de energia, já que o volume justificava essa instalação, e inclusive permitiu a emissão de créditos de carbono associados. As medidas socioeconômicas sugeridas foram as mais precarizadas, pois naturalmente são de longo prazo e exigem constante apoio financeiro e político, algo que tende a não se sustentar por muito tempo.

    Contudo, considero o descomissionamento do AMJG um sucesso, ainda mais considerando o histórico de fracassos anteriores nesse sentido, e o próprio fracasso do Brasil em eliminar os lixões em todos os municípios brasileiros, algo que ainda está distante de ser alcançado, e representa uma vergonha nacional.

    Lembremos que o grau de civilização de uma sociedade pode ser observado pelos seus cuidados com seu lixo. Por essa ótica, estamos mal no Brasil, mas também deficientes em Petrópolis.