Promover a ética, a participação cidadã, a sustentabilidade e a conscientização ambiental são objetivos institucionais do IPG. Por isso, sua diretoria está sempre atenta a movimentos que mobilizam a sociedade civil que estejam afinados com estes propósitos e que possam colaborar para o exercício da gestão participativa, a bandeiras de seu fundador, Philippe Guédon. Recentemente Cleveland Jones, Vice-Presidente do IPG, e o conselheiro Ramiro Farjalla, estiveram na 5ª edição do TEDxPetrópolis, uma iniciativa global do TED dedicada a acelerar soluções para a crise climática.

Cleveland e Ramiro concordaram que o evento sincronizou muito com as ideias do IPG e que foi um espaço de cidadania e mobilização que despertou a reflexão sobre mudanças climáticas e que muitos dos assuntos abordados foram também apresentados no PEP 20 (Planejamento Estratégico para Petrópolis), documento elaborado pelo Instituto com a participação da sociedade civil que fez um diagnóstico de várias áreas da cidade e propôs soluções para os próximos 20 anos. O TEDx reforça o propósito do IPG em mobilizar a sociedade civil organizada para colocar em prática qual a Petrópolis que queremos, visto que mobilização para a gestão participativa é a ferramenta geradora de novos direitos porque o cidadão é o pilar principal do ordenamento jurídico como está na Constituição.
Como uma das propostas do IPG também é apresentar à sociedade petropolitana pessoas que se engajam na gestão participativa e no desenvolvimento socioambiental, o Instituto entrevistou Camila Miranda, organizadora do TEDx Petrópolis.

Camila Miranda, Mestre em Comunicação, se desdobra entre o trabalho empresarial e o voluntário. Head de Marketing na LDSOFT, atua há mais de 15 anos no planejamento estratégico de negócios, marcas e projetos de impacto. “Construir pontes entre propósito, território e desenvolvimento econômico, ampliando a consciência e impulsionando ação concreta” é seu objetivo como organizadora do TEDxPetrópolis.
Continue a leitura e confira entrevista de Camila Miranda.
IPG – Qual a motivação para organizar este evento em Petrópolis?
CM – O TEDxPetrópolis nasce do desejo de usar conhecimento e narrativa como ferramentas de transformação coletiva, por meio da criação de um espaço de pertencimento em que pessoas questionadoras e inconformadas possam imaginar possibilidades de construção de outros futuros. Liderar o TEDx é colocar a cidade no centro de debates relacionados à ciência, cultura, tecnologia e comunidade, temas esses fundamentais na sociedade atual. É uma forma de romper a apatia, ampliar consciência e mostrar que ideias locais podem gerar movimentos concretos. Meu papel, portanto, é unir essas vozes, já que quem transforma a cidade são as pessoas que sobem ao palco e, principalmente, aquelas que saem tocadas em cada um dos eventos que organizamos.
IPG – Esse ano o tema foi “Cuidar é Inteligente”. Sabemos que a forma como cuidamos do meio ambiente varia conforme a experiência de cada indivíduo e nem sempre esse cuidado resulta em bons resultados para o meio ambiente. Então, para você, o que é um cuidado inteligente que, de fato, resulte em uma mudança para a melhoria do meio ambiente para o coletivo?
CM – Cuidar é inteligente quando nossas escolhas consideram consequência, escala e impacto. Nem todo cuidado é eficaz, ou seja, às vezes fazemos o “melhor possível” dentro da nossa experiência, mas sem conhecimento técnico, aquilo não gera benefício coletivo. Para mim, o cuidado inteligente envolve três pilares. O primeiro é a base científica, que significa ouvir a ciência antes de agir. Nesta lógica, a restauração ecológica orientada por especialistas, por exemplo, é muito mais eficiente do que o simples plantio aleatório de mudas. O segundo pilar é a consciência de sistema, entender os efeitos em cadeia. Neste caso, priorizar o transporte público e soluções de mobilidade ativa tem mais impacto na redução de emissões do que ações isoladas de reciclagem. O último pilar é o cuidado comunitário, baseado em soluções que fortaleçam o território. Tomo como exemplo as hortas urbanas que unem segurança alimentar, educação ambiental e ocupação positiva de espaços. Em resumo, é o encontro entre saber técnico, sensibilidade humana e visão de futuro.
IPG – Quais os critérios usados para a escolha dos palestrantes?
CM – A curadoria segue uma lógica de teia, não de lista. Buscamos histórias que, juntas, criam uma jornada de consciência, responsabilização e ação. Nesse contexto, os critérios são: Originalidade da ideia (algo que realmente acrescente ao mundo); relevância territorial ou global (impacto comprovado ou emergente); diversidade de áreas e perspectivas (ciência, tecnologia, arte, cultura, comunidade); clareza narrativa (a ideia precisa ser comunicável, inspiradora e replicável); e alinhamento ético com o espírito TED (não temos alinhamento a nenhuma pauta política, religiosa, comercial ou pseudociência). A curadoria é convidativa, multidisciplinar e construída com especialistas de diferentes áreas do conhecimento. Também nos orgulhamos de trazer conceitos emergentes, que ainda virão a ser hype nos próximos anos, com essa oxigenação de oportunidades para nosso público. Além de dar holofotes para líderes e projetos em ascensão do próprio território, que mereçam espaço em uma plataforma que é, em si, internacional.
IPG – Um dos questionamentos que sempre acontece com os eventos ambientais em Petrópolis é que, na maioria das vezes, são as mesmas pessoas que participam. Na edição do TEDx desse ano, qual o perfil do público participante? Percebeu diversidade?
CM – Sim. Diferentemente de eventos tradicionais que abrem ingressos e você pode participar caso tenha interesse, nós também fazemos a curadoria do público. O que significa que até mesmo o público é convidado a partir de sua relevância no território e capacidade de replicar as ideias que serão compartilhadas no palco. O público é formado por empreendedores, educadores, empresários, gestores públicos, lideranças e ativistas comunitários. Além de estudantes engajados na construção da cidade que desejamos! Nesta edição, tivemos mais de 200 pessoas inscritas, representando um público diverso em idade, formação e áreas de atuação. Havia desde lideranças comunitárias e pesquisadores a artistas, estudantes e empresários. Essa composição mostrou que a pauta climática, quando bem narrada, alcança muito mais do que os já convertidos. Nossa intenção foi transmitir que cuidar do ambiente em que vivemos não é pauta de um grupo só, e cada um, a seu modo, é convidado a promover transformações de forma urgente.
IPG – O evento dedicou uma parte para falar sobre tecnologia. É uma área que pode trazer muitos benefícios econômicos para a cidade, porém complexa, pois ao mesmo tempo que pode encontrar soluções para minimizar, também causa grandes problemas ambientais. Então, explique um pouco sobre como esta temática foi abordada no TEDxPetrópolis.CM –Tratamos tecnologia como meio, não como fim. Nem como salvação, nem como condenação. Ou seja, reconhecemos que ela pode tanto acelerar soluções quanto ampliar impactos negativos. Por isso, trouxemos abordagens que atravessam questões como: 1) tecnologia como ferramenta de prevenção e mitigação (dados, inteligência territorial, energia); 2) tecnologia aliada à economia local (inovação como vetor de desenvolvimento); e 3) tecnologia com responsabilidade socioambiental (ética, governança, limites e riscos).
A conversa, portanto, não foi sobre “deslumbramento tecnológico”, mas sobre como aplicar inovação com cuidado, inteligência e responsabilidade, inclusive pela ótica da captura da atenção, mal da nossa atual sociedade. Esse fator dificulta, e muito, que estejamos atentos às pautas emergentes e à nossa própria sensibilidade humana. Por isso, ao longo do evento com as diversas interações culturais e artísticas, fizemos um convite ao reencantamento do mundo, através da natureza e da arte, daquilo que nos torna genuinamente humanos: a nossa subjetividade. Aquilo que toca você é diferente de algo que me toca, essa sensibilidade é algo que nenhuma inteligência artificial pode sentir ou substituir.
IPG – Mensurar o resultado de um evento como esse é difícil. Mas, na sua experiência, já teve a oportunidade de saber de algum resultado prático que tenha sido efetivado?
CM –Sim. O TEDxPetrópolis, ao longo dos anos, gerou conexões que se materializaram em projetos colaborativos entre palestrantes ou público; parcerias institucionais iniciadas no evento e fortalecidas depois; novos voluntários entrando para iniciativas sociais e ambientais da cidade; amplificação de projetos locais que ganharam visibilidade e apoio após suas talks circularem na plataforma TEDx. O principal resultado, porém, é menos mensurável e mais profundo: mudar mentalidades. Isso transforma a qualidade das decisões que as pessoas tomam a partir dali, e isso, sim, reverbera no território.
IPG – Independente de resultados posteriores, você acredita que eventos assim podem ser um estímulo à gestão participativa e ao exercício da cidadania? Conseguiu percebeu no público algo que sugerisse isso?
CM-Com certeza! No caso do TEDxPetrópolis isso acontece de maneira muito concreta.
Os eventos TEDx são, por natureza, eventos inteiramente construídos por voluntários: a equipe organizadora, os palestrantes, os artistas que sobem ao palco, todos doam seu tempo, suas ideias e seus talentos sem qualquer remuneração. Essa cultura do voluntariado é de difícil assimilação por não quem não entende o valor das coisas, apenas o preço. Mas cria um ambiente onde a participação cidadã deixa de ser ideal e se torna prática. É um espaço que nasce muito do improviso, da humildade de aprender algo que você não tinha percebido antes, daquilo que só surge a partir do que é bem comum ao projeto e pessoas muito certas de seus vieses técnicos, ou uma noção muito própria de mundo, têm uma dificuldade maior de se estar. O trabalho comunitário apesar de mudar vidas, realmente não é pra todo mundo. Nosso público, curiosamente, também carrega esse espírito. É um público generoso com eventuais erros, são curiosos e profundamente respeitosos com quem está no palco, porque entende que cada pessoa ali está oferecendo algo valioso para a cidade por pura entrega, não por obrigação. E quando uma comunidade reconhece e celebra quem se dispõe a contribuir, ela fortalece sua própria capacidade de ação coletiva. Durante o evento, ficou evidente esse movimento de pessoas querendo se engajar, perguntando como participar, oferecendo ajuda, trocando contatos, iniciando parcerias. O TEDx não é um evento que tem intenção de oferecer respostas prontas e sim de abrir campos de possibilidades, e quando vemos voluntários, artistas, palestrantes e público construindo juntos, percebemos que cidadania é isso: criar, cuidar e transformar como comunidade. Isso cria senso de pertencimento autoestima coletiva, acima dos interesses individuais.

Entrevista e edição: Teresinha de Jesus Fidelles de Almeia
















