IPG ENTREVISTA ROLF DIERINGER

Com os fenômenos climáticos cada vez mais frequentes e intensos, a grande preocupação de moradores de cidades como Petrópolis, com alto grau de vulnerabilidade à tragédias socioambientais, é saber como se adaptar e evitar vítimas fatais. Muitas vezes essas soluções podem surgir de muito estudo que chegam a ideias simples e de fácil acesso à população.

O IPG entrevistou um de seus membros, Rolf Dieringer, engenheiro agrônomo, que desde a década de 80 se dedica a este tema, quando questões climáticas e suas graves consequências ainda não estavam tão presentes nas discussões do cotidiano, mas já eram uma realidade em Petrópolis. Com seu projeto “Vigilantes da Chuva” , Rolf já colaborou não só para informar, como para transmitir conhecimentos que podem salvar vidas.

Confira abaixo a entrevista e deixe seus comentários.

IPG: Em seu trabalho com previsões meteorológicas já vivenciou diversas tragédias em Petrópolis. Com o avanço das mudanças climáticas, explique o que melhorou em termos de previsão desde, por exemplo, a tragédia de 1988, para que se evite ou minimize tragédias.

RD: Em relação às mudanças climáticas, essa variação ao longo dos anos é muito pequena e não tem assim muita influência. Agora a própria previsão melhorou muito nos últimos trinta anos. Hoje com o advento das fotos, as imagens de satélite são muito perfeitas, captadas de dez em dez minutos, e as imagens do radar são muito bem detalhadas. Existem as imagens sobre previsão de intensidade de chuva, muito mais seguras do que há trinta anos. Só para dar um exemplo, temos oito modelos diferentes, computacionais de previsão e, talvez, mais oito globais nos Estados Unidos, Reino Unido e outros países da Europa. São bastante precisos e conseguem ter um horizonte entre cinco e sete dias e com grau de acerto de oitenta a noventa por cento. Quanto mais rápido, quanto menor o prazo, maior a precisão.

Então, podemos dizer que a precisão de vinte e quatro horas, quarenta e oito horas, ela é muito grande. Porém, a própria dinâmica da meteorologia pode mudar muito rápido. Sabemos que a única coisa certa é que ela é incerta, quanto à previsão. Mas, o nível de acerto é muito grande e tem que ser. Porque não é só a questão da cidade. Também por causa da aviação que utiliza muito esses dados. Só no Estado do Rio são cinco ou seis radares meteorológicos diferentes. Entrará mais um agora em Petrópolis e temos em Niterói, Sumaré, Macaé, Guarativa, todos do Inea, além do Pico do Couto, da Aeronáutica. São níveis fantásticos. Você vê a imagem de dez em dez minutos e pode acompanhar tudo pela internet. Outra situação interessante é que além dos modelos computacionais e da previsão do INMET, podemos acompanhar todas as situações nas áreas em termos de formações meteorológicas de todos os aeroportos do Brasil, de hora em hora, e acompanhar a previsão das próximas seis horas de cada um dos aeroportos principais do Brasil.

IPG- Os fenômenos climáticos estão ficando cada vez mais intensos e frequentes. Então quais os desafios para os meteorologistas atualmente realizarem previsões mais precisas?

RD: Quanto aos fenômenos cada vez mais intensos, infelizmente, isso é uma verdade, não é uma estatística, é física pura. Cada grau que aumenta a temperatura do ar, aumenta a evaporação, o que aumenta a quantidade de umidade no ar em 7 por cento. Se tiver temperaturas dois ou 3 graus mais quentes em determinado dia você tem praticamente 20 a 30 por cento mais umidade do ar, ou seja mais 30 por cento de chuva. O grande desafio não é a precisão da meteorologia. O desafio é tornar a cidade mais resiliente a partir de que tipo de chuva. Hoje estamos muito bem em termos de previsão porque diferenciamos dois tipos de chuvas. Uma é quanto a intensidade, quanto chove em termos de milímetros, quantos litros chove por metro quadrado em uma hora. Quanto maior a intensidade, se a chuva for fraca, moderada ou forte, isso vai causar problemas de drenagem, de alagamento, inundação e de transbordamento dos rios. Já a chuva que causa deslizamentos, é uma chuva que encharca bem o solo, pode demorar 10 ou 12 horas para encharcar, e se ainda houver nesse solo encharcado uma chuva forte, aí temos uma grande quantidade de deslizamentos.

Hoje já tenho alguns modelos desenvolvidos para Petrópolis, e também as próprias Defesas Civis do Brasil e também o Cemaden possuem modelos bem precisos que indicam quais são as chuvas e, digamos qual o gatilho, que é o momento a partir do qual haverá deslizamentos ou alagamentos e transbordamentos. Temos alguns limites bem definidos para Petrópolis para deslizamentos muito precisos. Podemos resumir isso que também está resumido no próprio pluviômetro artesanal que desenvolvemos, que os deslizamentos começam a ocorrer quando ocorre chuva acumulada de cem milímetros. Ou também quando a chuva for acumulada em quarenta milímetros em uma hora, também começa a ocorrer deslizamentos.

Quanto aos transbordamentos, ocorrem quando a chuva é muito forte. Por exemplo, na Coronel Veiga se tiver uma chuva acima de 26 milímetros já começamos a ver o transbordamento. Já no Bingen, Piabanha, no Santa Teresa ou no centro, aí a questão já é mais de 40 milímetros em uma hora. Nós já sabemos quanto à intensidade, fraca, moderada ou forte, que vai definir se vamos ter alagamentos e transbordamentos. Podemos ter os deslizamentos em função de uma chuva grande de cem milímetros ou acumulada em uma hora de 40. Então, deslizamentos são uma função que pode variar conforme a intensidade com o acumulado. Então, se estiver muito acumulado e pouca intensidade e tiver acumulado em 100 milímetros, vai ter deslizamento. E se tiver chuva forte de 40 milímetros, posso ter deslizamento também. Ou de 70 acumulado mais uma chuva de 30 em uma hora, pode ter também.

O que vemos hoje tanto no Inea, Cemaden, e que ouvimos falar são riscos geológicos e riscos hidrológicos. O hidrológico é quando a chuva e se refere a água, alagamentos e enchentes. E o geológico se refere aos deslizamentos e esses modelos do risco geológico são os que apontam risco de deslizamento e o hidrológico aponta o risco de alagamento e transbordamentos de rios. Hoje também estamos introduzindo mais um parâmetro de risco que chamamos de risco ambiental, que é no momento em que a terra estiver muito seca e houver risco de incêndios florestais ou stress hídrico da planta. Porque a planta (vegetação) pode morrer também e isso vai acarretar problema de instabilidade das encostas e de abastecimento de água da cidade, aumentando diretamente o lençol freático da cidade.

IPG: Como surgiu a ideia do projeto Vigilantes da Chuva?

RD: Eu comecei a pesquisar tudo isso em função de um grande problema que houve em Petrópolis, quando morreram 25 pessoas lá no Independência em 1981, e também teve uma tragédia na serra de Teresópolis, no posto do garrafão, onde morreram 30 pessoas. Não me conformei e pensei “mas isso não pode ser previsto?”. Todo mundo falava que era a chuva e aí naquela época eu estava fazendo o curso de aviação e uma das matérias mais importantes na aviação é a meteorologia. Então, perguntei ao previsor em 1981 se não poderia prever que ia chover tanto, que ia causar tragédia lá em Teresópolis e ele respondeu que sabia que ia chover muito, que ia ser problemático, mas que o seu trabalho era passar as informações para a aeronáutica, para fins de aviação e não avisar para as prefeituras. Foi assim que me dei conta quanto que as prefeituras estavam desconectadas da previsão meteorológica. Comecei a estudar e observar toda chuva que acontecia em Petrópolis. Desde 81 a 84, anotei chuva dia a dia, sabendo qual chuva que dava problema e a que não dava. Tive apoio da aeronáutica, consegui pegar dados meteorológicos de um período de 15 anos, das estações do Galeão, do Santos Dumont e Campos dos Afonsos. Fiquei um mês lá estudando esses dados e consegui levantar qual a quantidade de chuva que dava problema.

Então, em 84 publiquei meu primeiro trabalho no Primeiro Congresso Brasileiro de Defesa do Meio Ambiente. Esses dados também foram inclusive publicados nos jornais de Petrópolis. Achei que publicando isso, todo mundo ia levar em consideração e se prevenir desse tipo de chuva. Mas, em 88 eu vi o que estava acontecendo, avisei à radio, à polícia e falavam “o que que eu posso fazer?” E na rádio ainda falaram que não podiam avisar porque a população entraria em pânico. Aí quem entrou em pânico fui eu, porque eu sabia que ia acontecer uma tragédia aquela noite e não podia fazer nada, parecia que eu era o louco e infelizmente naquela noite morreram 173 pessoas, 1000 ficaram feridas e houve 500 deslizamentos. Se formos analisar os deslizamentos que ocorreram lá, se todo mundo tivesse sido avisado antes poderiam ter saído e não morreria quase ninguém. Foi daí em diante que eu fiz meu primeiro trabalho de diagnóstico. Em 88, dos 500 deslizamentos só quatro foram naturais e os outros 496 tiveram como causa falta de drenagem, aterro inadequado, drenagem ineficaz, corte inadequado de morro. Todas as causas foram por ocupação desordenada e critérios básicos de construção completamente ignorados. Com base nos dados que eu já tinha publicado em 84, avisei a todo mundo quais os níveis de chuva que poderiam acontecer deslizamentos.

Nesse trabalho observei bem claro que Petrópolis, se chover duas horas 90 milímetros vamos ter enchente na cidade e acima de 130 mm, deslizamentos. Quanto mais chuva acumulada, maior a quantidade de deslizamentos. Baseados nesses estudos é que desenvolvemos (Vigilantes da chuva) o pluviômetro. Na época não tinha PET, foi feito em lata de leite em pó e colocava uma régua dentro da lata para medir a altura que atingia o limite. Depois evoluiu para uma garrafa de 51, que a gente cortava em cima e a altura que ela atingia os milímetros era marcada por fora. Depois evoluímos para a lata de soja e o PET foi só em 2010. A primeira vez que foi implantado e que teve sucesso foi no governo Gratacós (década de 90), com o secretário da primeira Defesa Civil Municipal, Sílvio de Carvalho, e implantamos isso como voluntários e assim surgiu o “Vigilantes da Chuva”. Em 1990 e 1991 tivemos chuvas de 150 mm, novamente mais de 500 deslizamentos, só que foi durante o dia e a prefeitura e Defesa Civil orientaram os moradores a saírem de suas residências nas áreas de risco para evitar tragédias.

Esses foram os primeiros casos de sucesso de prevenção. Ocorreram duas vítimas fatais que não quiseram sair da residência. A partir daí ganhou uma dimensão e foi implantado inclusive em Teresópolis em 2000. Em 2002 fizemos pela primeira vez o sistema com a leitura dos pluviômetros e mandamos isso via internet e e-mail para os órgãos de Imprensa e que informava que a partir de um determinado nível a cidade estava correndo tal e tal risco e em tal bairro. Cada vigilante informava o índice e se passava acima de 100mm aquele bairro entrava em área de alerta. Com isso, salvamos dezenas de pessoas e conseguimos junto ao MPE em 2004 implantar o primeiro site do Vigilantes.

IPG: Normalmente as previsões meteorológicas são apresentadas para o público de um modo geral, para um estado ou município, sem muitos detalhes. O seu projeto Vigilantes da Chuva faz uma previsão mais específica para Petrópolis, explicando o que pode acontecer, por exemplo, dependendo do volume de chuva, citando inclusive os bairros, que podem ter previsões diferentes.

RD: Para Petrópolis podemos ter várias previsões e isto está relacionado ao tipo de chuva. Temos por exemplo, uma chuva de frente fria, ela vem mais do sul. Quando é de rios voadores da Amazônia, vem do noroeste, ou seja de Itaipava em direção ao Centro, para o interior de Minas para Petrópolis. No caso da frente fria que vem do sul, no Quitandinha, Bingen e Alto da Serra. Quando vem da frente localizada no mar, joga muita umidade para Petrópolis se concentra Zona Sul, Alto da Serra, Morin, Siméria, Independência, Quitandinha e Bingen. E pode até nem chover em Itaipava. Temos que levar em consideração que Petrópolis tem vários tipos de clima. Há regiões como Alto da Serra e Morin que chove 2 mil milímetros por ano, enquanto Pedro do Rio e Itaipava chove só metade disso, 1.100. Já em Araras 1.600 e no Centro 1.800.

Muitas vezes chegamos em Petrópolis por exemplo pelo Quitandinha, com nevoeiro, e no Centro faz até sol. A mesma coisa no Alto da Serra ou tem chuva no Centro até o Brazão, dali em diante para Itaipava agente tem um tempo bem ensolarado. Isso está relacionado com a direção dos ventos. Por exemplo, o vento que vem trazer umidade do mar e vai bater no Alto da Serra e quando chega no Brazão já não tem umidade nenhuma. Isso quer dizer que uma chuva de 100mm no alto da serra não acontece em Itaipava. Por isso que as previsões são muito diferentes em Petrópolis em função da localização de cada bairro. Podemos dizer no geral que a região da zona sul, Centro, Castelânea, Alto da serra, Morin, Independência, Quitandinha e Bingen são áreas que tem um índice de chuva bem maiores do que na Mosela ou em Itaipava, Cascatinha. Então, realmente os índices variam muito na cidade e isso acarreta uma diferença enorme também na vegetação. No Alto da Serra praticamente não pega fogo e em Secretário e Itaipava todo o inverno tem seca e muitos incêndios florestais e a própria floresta no alto da serra é uma floresta sempre verde e em Itaipava nós chamamos de floresta caducifólia. Ou seja, caduca as folhas. No inverno as florestas da região de Itaipava e Secretário, as árvores perdem as folhas por causa da seca e em outubro e novembro emitem folhas de novo em um verde até clarinho.

Isso aí é uma diferença da vegetação. Temos quatro biomas diferentes em Petrópolis: escarpa da serra, em Itaipava que já e una característica de região de seca, praticamente não chove no inverno; o clima de altitude, no Açu, onde tem geada e já não tem quase vegetação, é só uma vegetação rasteira; floresta de baixada, quase no Meio da Serra, já é uma vegetação mais intensa, mais forte, por causa do calor. Nota-se na região de Itaipava e Secretário que as gramíneas ficam praticamente secas no inverno e na região do Vale do Cuiabá, estrada para Teresópolis também.

IPG: Acredita que com os projetos desenvolvidos pelo Vigilantes da Chuva é possível alavancar melhorias na segurança não só em relação a deslizamentos, mas também a enchentes e incêndios? Se sim, como?

RD: O aumento da melhoria da segurança em relação aos deslizamentos foi em função desses gatilhos em cima de quais valores tínhamos. Esses dados foram muito importantes e melhoraram a segurança, a implantação em Petrópolis dos sistemas das estações pluviométricas, tanto do Inea quanto do Cemaden, depois da tragédia de 2011. Antes o que funcionava era o pluviômetro artesanal, mas dependia exatamente da leitura feita pelo próprio vigilante da chuva. Na tragédia de Cuiabá só tivemos um único vigilante fazendo a leitura e não houve mobilização. Então, enquanto não houver mobilização, conscientização e respeito aos níveis de gatilho não haverá progresso na segurança. Felizmente nas chuvas de 2024 e 2025 a cidade estava muito consciente sobre esses níveis de gatilho, mandou o pessoal ir para os apoios e houve comportamentos importantes, como feriado escolar, para evitar deslocamentos desnecessários, evitar carros e ônibus presos na rua, então são grandes avanços que a cidade já está tendo.

Paradoxalmente, os grandes avanços das estações pluviométricas que foram instaladas, provocaram a desativação do pluviômetro artesanal e aí ninguém mais faz leitura, ninguém tem acesso aos índices das estações. Por isso, houve um retrocesso muito forte e voltamos a ter tragédias, pessoas pouco conscientizadas, o que resultou na grande tragédia do dia 15 de fevereiro de 2022. Porque se os moradores lá no Alto da Serra, no Morro da Oficina, tivessem a informação do pluviômetro, do limite de gatilho, 100mm, sairiam das áreas de risco e não teríamos essa grande tragédia no Morro da Oficina. Teríamos sim a tragédia de desabamento das casas, mas essa área deveria ser desocupada a partir do momento que atingisse o nível de alerta para deslizamento e o nível tinha sido atingido uma hora antes e ninguém estava mobilizado, instruído para isso. Por isso essas 90 mortes no Morro da Oficina. Fora a população tentando atravessar ruas alagadas, problemas dos dois ônibus na Washington Luiz. Todos os problemas ocorreram em função de comportamentos inadequados para grandes precipitações. Quanto à melhoria de segurança dos deslizamentos hoje já se propaga, até através da imprensa, do risco geológico, do risco hidrológico, só está faltando o risco ambiental.

O sucesso da mobilização da cidade é ela entender que não podemos evitar nem a enchente, nem o deslizamento, mas podemos fazer com que as pessoas fujam das áreas de transbordamento, evitem essas áreas onde há mais probabilidades de os deslizamentos acontecerem. Se isso for respeitado e levado a sério pela população, não teremos vítimas fatais em função desse tipo de deslizamento. Não depende só da previsão, depende principalmente do comportamento da população de evitar as áreas de risco, no momento de risco.

IPG: Uma questão que também envolve a meteorologia é a comunicação de risco. Muitas vezes é divulgada uma previsão que não acontece e isso pode desacreditar a meteorologia. Ao mesmo tempo, se essa informação é minimizada ou até descartada, pode fazer com que a população não se previna adequadamente. Então, qual a sua sugestão para que essas informações sejam divulgadas, sem causar pânico ou não serem subestimadas? Como chegar a este equilíbrio?

RD: Esse talvez seja o nosso maior desafio. Uma comunicação direta e reta para a população e que não seja uma informação generalizada. Eu considero que é muito importante se adequar. Por exemplo, muitas vezes os órgãos de meteorologia dizem assim: “amanhã vai chover chuva que pode ser forte algumas vezes” e não informa nada sobre quantidade, se a chuva que está prevista para acontecer em termos de previsão de milímetros atingirá ou não o nível de início de deslizamento ou possibilidade de transbordamento dos rios. Então é nisso que o Vigilantes está tendo uma credibilidade muito grande porque interpretamos as previsões meteorológicas que possam atingir níveis daqueles que temos em nosso modelo, que podem ocorrer deslizamentos, se essa chuva vai chegar ao nível de deslizamento ou se essa chuva vai ter uma intensidade tão forte que possa causar transbordamentos. Acho que é isso que a população precisa saber. Ela não precisa só saber que vai chover ou não, mas se chover, pode dar enchentes? Sim ou não? Pode dar deslizamentos? Sim ou não? É informar o que tipo de chuva vai causar. Esse tipo de informação é que tentamos passar para a população.

Nós não somos um órgão de previsão do tempo. A gente só interpreta as previsões que existem em cada uma das regiões de Petrópolis e analisa isso com a umidade do solo em cada uma dessas áreas. Por exemplo, uma chuva de 100mm em Itaipava, que já não chove há dois meses pode não causar absolutamente nada, mas no Alto da Serra que já choveu talvez semana passada, 100mm, então o solo está encharcado não vai aguentar 100mm sem problemas. Procuramos sempre definir os riscos que existem. geológico e hidrológico. Essa é a nossa principal missão: tentar traduzir isso para a população. O grande problema que está ocorrendo às vezes, é que o INMET manda uma previsão que pode ocorrer chuvas de 100mm, mas não diz nem onde, nem como e a gente procura trazer essa informação só quando está chegando algum temporal na cidade, quando no radar mostra que há possibilidade de chuva forte, nas nuvens que estão no radar e que elas estão chegando a Petrópolis. Nossa previsão procura chegar no nível de precisão de informar uma ou duas horas antes, que esta chuva vai dar problemas. A gente tem um cuidado muito grande sobre comunicação de risco, só informa quando temos uma certeza absoluta, ou se já temos informações concretas.

Recentemente, tivemos uma situação de chuva muito significativa em termos de alagamento vindo de muita chuva em Caxias. Já tínhamos informação do que havia caído no Pico do Couto e em Xerém. Aí realmente deu problema no Quitandinha e Bingen, mas parou por ali. Informamos antes que a chuva pudesse causar problemas de inundação, já sabíamos que podia ter um nível mais intenso de transbordamento. Quando falamos no nosso boletim chuva significativa é uma chuva que pode ser significante quanto a deslizamentos e também transbordamentos. Toda vez que a gente fala que a chuva pode ser significativa é um sinal de risco. Quando esses níveis de acumulados já foram atingidos e pode haver mais chuvas, aí a gente é mais incisivo quanto ao risco e informa para a população. Nós temos praticamente acompanhamento de 24 horas das chuvas no Estado do Rio e a Defesa Civil também. Quando não tem mais informação sobre ser significativa, procuramos não criar pânico e só informamos quando ela realmente ocorreu perto daqui. Infelizmente muitos informativos que são dados pelo INMET, por exemplo de hoje até amanhã de amanhã, de riscos de chuvas severos, às vezes a chuva vai embora e fica essa previsão pendente lá.

IPG: Divulgar a previsão é importante para que os moradores possam tomar decisões mais conscientes, porém muitas vezes a informação tem uma linguagem muito técnica e de difícil compreensão para um leigo. Além disso, o problema não se resume apenas se vai ou não chover, mas por exemplo, se numa determinada região pode ser habitada ou não e como as condições meteorológicas podem definir a decisão de um morador em construir uma casa em determinada região. Sendo assim, de que forma poderíamos capacitar os moradores para que possam decidir sobre questões de segurança?

RD: A linguagem em termos das observações meteorológicas é um problema quando falam muita questão técnica. É uma situação muito séria quando falam, por exemplo, sobre convergência do atlântico sul, núcleos, etc., e pouca gente sabe o que é núcleo, que são as nuvens de temporal. Então, é preciso um certo cuidado e evitar falar sobre núcleos. Podem ver que o Vigilantes sempre está falando que está chegando um temporal. Que pode ser forte ou fraco. Tem que tomar cuidado porque se fala forte o pessoal associa que pode ser um problema grave. Mas uma chuva forte se não durar muito, for rápida, não causa problemas. Mas, se durar muito aí sim pode ocorrer. Então a gente evita situar os moradores das áreas de risco porque se a chuva prevista pode ser significativa quer dizer que ela pode atingir níveis de deslizamentos ou causar transbordamentos. Temos um cuidado muito grande com isso para ficar claro que uma chuva forte não quer dizer que vai desabar tudo. Ela pode ter uma intensidade forte e demorada mais do que uma hora, pode sim dar sérios problemas na cidade. Agora se ela for uma chuva forte por algum momento, até 10, 20, 30 minutos não há problema.

Quanto à capacitação para a segurança das encostas, isso é principalmente uma questão de aprendizado dos moradores, e aí é uma questão de engenharia. Temos que trabalhar sobre drenagem, aterros adequados, muros de contenção, calhas nas casas. E, obviamente, na dúvida, o morador deve sempre solicitar orientação técnica da própria defesa civil e da prefeitura para saber o que fazer e ter segurança.

IPG – O Vigilantes da Chuva possui outros projetos, como o desenvolvimento de pluviômetros e de medidores de umidade do solo, que podem ser úteis para a segurança da população? Explique como estes projetos estão sendo desenvolvidos e como os moradores podem ter acesso?

RD: Quanto aos pluviômetros, nós já temos um modelo, padrão, mas pode variar um pouco porque temos tipos de leitura diferentes no pluviômetro de PET artesanal. Um que mede a chuva acumulada em 24 horas, com aquela régua de vigilância, atenção, e alerta acima de 100mm e outro com uma régua que informa que 40mm em uma hora, o que é importante para o risco de deslizamento, e também mede o risco de transbordamento de rios. Ano passado o pluviômetro artesanal foi distribuído pela SOS SERRA para mais de 1000 pessoas. Isso é importante para a conscientização do que é milímetro e da importância de saber o que cada quantidade significa. Temos o pluviômetro artesanal com sirene que leva em conta a intensidade, que apita sobre quais são as chuvas que podem causar transbordamentos. Ao usar o pluviômetro é preciso cuidado para que a graduação esteja correta e que o ponto a partir de onde ele é medido, o ponto zero, esteja num piso seguro para que não seja arrastado pelo vento.

Também estamos testando um, e que deve ser implementado em todo o Estado do Rio, através da Emater, com os produtores rurais, que servirá para o produtor acompanhar o que está acontecendo em termos de chuva na propriedade dele. Isso é muito importante para que ele saiba como está o solo para plantio. Estamos negociando com a Emater para ver tecnicamente como viabilizar isso para os produtores. Mas, com certeza é uma ideia que funciona muito bem, porque já temos isso na região de Cachoeiras de Macacu e muitos produtores nos dão retorno através de fotos enviadas pelo whatsapp, nos informando a quantidade de milímetros. Para o produtor, na verdade, ele usa dois pluviômetros. Um que é esvaziado todos os dias e outro que não. Isto informa o quanto choveu e o quanto evaporou, pois assim temos uma aproximação do balanço hídrico para cada região. Isso é muito interessante em termos também de uso sustentável da água. Porque dá uma ideia muito clara se estamos caminhando para uma época de seca, se o solo está ficando também seco, se as florestas estão ficando estressadas, se há riscos de incêndios.

Tudo isso depende do balanço hídrico. E é exatamente isso que estamos lançando em evento na UNIFASE, que é para o risco ambiental, que leva em consideração a questão do balanço hídrico, ou seja, a umidade que está no solo. Desenvolvemos um aparelho chamado medidor de umidade artesanal, que é bastante preciso, tem algumas peculiaridades, mas é muito importante para beneficiar as defesas civis sobre encharcamento. Petrópolis mais uma vez é pioneira, talvez, porque estamos lançando um instrumento que vai identificar exatamente onde a cidade está com riscos de incêndios florestais, baseado no índice da seca, como também previsões meteorológicas em função da seca, das altas temperaturas, da pouca umidade e também se a vegetação está seca ou não. Quando a vegetação de Itaipava está mais seca temos um risco muito maior de incêndios e se tiver temperaturas altas, pouca umidade e ventos, qualquer faísca, como de uma bituca de cigarro, pode causar incêndios de grandes proporções.

O modelo de gatilho para deslizamentos não depende só da chuva em termos de acumulados e intensidade, depende de uma outra coisa, que muita gente quebrou a cara porque não levou em consideração, que é o quanto o solo está seco ou encharcado e esse parâmetro não está sendo medido por nenhuma Defesa Civil. O modelo que estamos implantando, será um instrumento muito preciso porque dá um noção muito clara de quais sãos as regiões do Estado que realmente estarão com problemas de incêndio ou não, porque no Estado do Rio, temos pelo menos seis climas deferentes: Costa verde, Angra dos reis, onde chove bastante e tem muito verde; Baixada fluminense, chove bastante, mas faz muito calor e evapora rápido e o solo seca rapidamente; Baixada Litorânea, que engloba Campos, Cachoeiras de Macacu, Macaé, menos chuvas, bastante evaporação; e uma região que tem menos chuva, bastante evaporação, praticamente clima de nordeste, com floresta de cactos, Búzios e Cabo frio; Médio Paraíba, bastante chuva, atingido pelos rios voadores da Amazônia e a região serrana, que recebe os rios voadores da Amazônia e muita umidade do mar.

Cada uma tem seu balanço hídrico diferente, que vai impactar no gatilho de deslizamentos e inundações. Porque, por exemplo, se o solo tiver muito seco e tiver uma chuva de 100mm ou de 30mm ou 40 mm precisa encharcar o solo primeiro para jogar a água para o rio. Então a resposta à inundação é mais demorada se o solo estiver já encharcado.

Se a população compreender o que é ou não uma chuva significativa, aprender a medir, com certeza a população estará mais segura pois saberá da possibilidade de ter um deslizamento e poderá se proteger. Fico contente que hoje a população já entende o significado de milímetro. Há trinta ou quarenta anos até engenheiros não sabiam bem. Isso já mudou muito e se estiver enraizado na população, não vamos nos preocupar.

Entrevista e edição: Teresinha de Jesus Fidelles de Almeida