
A internacionalista Ana Lúcia de Lacerda Gonçalves, petropolitana do bairro Alto Independência, participou da Cúpula do Povos, realizada recentemente durante a COP 30. Bacharel e Mestre em Relações Internacionais e doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (PPGRI-UERJ), representou o Movimento de Atingidos por Barragens, que durante a cúpula construiu o eixo de Transição Justa e realizou o IV Encontro Internacional de Atingidos e Atingidas por Barragens e Crise Climática.
Ana atua na linha de pesquisa em Política Externa e sua tese tem como tema principal a cooperação internacional na área ambiental, com ênfase na internalização de parcerias e na formulação de políticas públicas. Possui também experiência em outras associações – foi educadora social no Centro Educacional Comunidade São Jorge – e faz parte da equipe do Projeto Incuba Aí, que será implementado pelo IPG no bairro Independência, através do programa PISTA (Parques de Inovação Social, Tecnológica e Ambiental), promovido pela Faperj.
Durante a Cúpula dos povos Ana participou das discussões da mesa “Atingidos pela Crise Climática- a reconstrução do Rio Grande do Sul”, refletindo sobre o contexto petropolitano, que historicamente tem sido atingido por desastres climáticos. Sobre a conjuntura de sua comunidade, Ana escreveu uma crônica, destacando a realidade do Independência. (Clique aqui para ler a crônica). Também participou da coordenação do alojamento, onde estavam 1200 pessoas, de todo o país, que foram atingidas por desastres socioambientais.
Em entrevista ao IPG, Ana relata que as áreas social e ambiental sempre constituíram para ela um foco central de estudo e reflexão e que a situação de Petrópolis ampliou seu senso de urgência e reforçou suas escolhas profissionais. Sobre os eventos, Ana acredita que “os encontros internacionais são fundamentais para a construção conjunta de soluções frente aos problemas ambientais, já que esses desafios são transfronteiriços” e que o projeto “Incuba Aí”, implementado pelo IPG “potencializa essa perspectiva para a comunidade, podendo transformar a forma como as pessoas compreendem e vivenciam a construção das políticas públicas”.
Para saber mais sobre a experiência de Ana, suas perspectivas e ideias sobre gestão participativa, confira abaixo a entrevista na íntegra.
IPG – Qual a sua motivação para entrar na área ambiental? A situação de
vulnerabilidade de Petrópolis foi um fator que estimulou esta escolha?
AG – As áreas social e ambiental sempre constituíram um foco central de estudo e reflexão para mim, especialmente no que diz respeito ao modelo de desenvolvimento econômico hegemônico intensificado a partir da Revolução Industrial. Ao longo da minha trajetória acadêmica, procurei examinar diferentes formas de organizar os territórios e os Estados a partir de modelos econômicos alternativos ao capitalismo. Por isso, durante a graduação, pesquisei Economia Solidária, e, no mestrado e doutorado, aprofundei o estudo sobre o Vivir Bien boliviano. A situação de Petrópolis ampliou meu senso de urgência e reforçou essa escolha. Ela evidencia, de forma concreta, como o uso desenfreado da natureza intensifica eventos extremos e, simultaneamente, escancara a desigualdade social. A maior parte das pessoas atingidas pertence às periferias, são negras e historicamente marginalizadas pelas políticas públicas e econômicas do Estado.
IPG – Poderia falar um pouco da sua experiência profissional, em movimentos sociais e também em projetos socioambientais? Por exemplo, quais os trabalhos que considera mais importantes.
AG – Participei anteriormente da construção de movimentos de juventude, debatendo a situação desse segmento na sociedade petropolitana. Como mulher jovem, vivencio diretamente como Petrópolis se tornou uma cidade hostil: não há investimentos políticos voltados para a juventude. Embora existam universidades importantes na cidade, observa-se que a população periférica ainda encontra grandes barreiras para ingressar nelas e, mesmo quando consegue se formar, muitos jovens precisam deixar Petrópolis para buscar empregos de qualidade. O mercado de trabalho local está cada vez mais limitado e pouco valorizado. Além disso, embora Petrópolis tenha uma vida cultural significativa, com juventudes organizadas em diversas expressões, sobretudo periféricas, vinculadas ao hip-hop e às culturas de matriz afro-brasileira, essa estrutura é sustentada essencialmente pela sociedade civil e pelos movimentos sociais, tendo pouca expressão nas políticas municipais.
A partir desse diagnóstico, atuei no Conselho da Juventude, na construção de manifestações populares e na organização do Festival de Cultura Periférica, realizado na Casa Socialista, na Vila São José. Em todos esses espaços, nosso objetivo era intervir no cotidiano político petropolitano, evidenciando a necessidade de debater juventude com foco nas demandas do presente. Afinal, se o jovem é considerado o futuro, não existe futuro possível sem ações concretas no presente e sem incentivos públicos para a juventude atual.
Minha atuação ambiental, especificamente, está mais vinculada ao campo profissional. Como pesquisadora, sempre busquei compreender como as instituições podem se tornar mais democráticas e orientadas por concepções que integrem natureza e ação humana. Por isso, tanto no mestrado quanto no doutorado, foquei a Bolívia, que se tornou uma República Plurinacional ao incluir o Vivir Bien na constituição do Estado. Mais recentemente, passei a integrar o Movimento de Atingidos por Barragens (MAB), que ampliou sua pauta para abranger a luta dos atingidos pela crise climática. O movimento compreende que a emergência climática tem gerado atingidos em larga proporção e que, portanto, é necessário construir saídas populares para essa crise. Desde 2022, o MAB atua em Petrópolis, mas no bairro Independência sua construção se intensificou no último ano. Em 2024, as chuvas provocaram quatro mortes e deixaram mais de 200 pessoas desalojadas.
Nesse cenário, o MAB atuou cobrando do poder público condições dignas para as pessoas atingidas, fortalecendo o poder de decisão das próprias comunidades diante da tragédia, por meio da organização da luta. Desde então, temos discutido direito à reparação, políticas de prevenção e adaptação às mudanças climáticas. Estamos construindo um plano emergencial que visa fortalecer a compreensão da população sobre seus direitos, para que possam cobrá-los diante das tragédias.
IPG – Como foi sua participação na Cúpula?
AG – Durante a cúpula, o MAB construiu o eixo de Transição Justa. Defendemos que o debate
sobre transição, além de considerar as distintas vulnerabilidades das pessoas e dos
territórios diante da crise, intensificadas pelas desigualdades, deve ser constituído com
participação deliberativa da população. Defendemos, portanto, uma transição justa e
popular. Atualmente, a transição energética tem sido tratada principalmente como substituição de fontes fósseis por energias limpas. Embora isso reduza emissões de GEE, não altera a lógica de desenvolvimento vigente, pois permanece a mentalidade de exploração ambiental para sustentar o crescimento econômico. Assim, novos problemas ambientais emergem. Além disso, há anos os impactos das energias renováveis vêm sendo sentidos no interior do país: inicialmente por hidrelétricas e, mais recentemente, pela expansão da energia eólica e solar. Diante disso, o MAB compreende que salvar o planeta exige transformar a lógica humana em relação à natureza, de posse para pertencimento. O impacto sobre as populações também precisa ser discutido de forma horizontal, com participação deliberativa, e não apenas consultiva.
Também realizamos o IV Encontro Internacional de Atingidos e Atingidas por Barragens e Crise Climática. Nele, debatemos as diferentes formas pelas quais territórios no mundo vêm sendo atingidos, traçando caminhos e estratégias para a defesa de direitos internacionais das populações afetadas. Compreendemos que, para que a mudança ocorra, os movimentos sociais do mundo precisam estar articulados, compartilhando experiências e construindo alternativas em união. Essa perspectiva fortalece o movimento nacional e influencia decisões globais. Fui delegada em ambos os encontros. Na cúpula, participei de debates sobre transição energética e reconstrução de territórios atingidos por desastres climáticos. No encontro internacional, a programação teve dois momentos: um primeiro destinado à discussão de conjuntura nacional e internacional e às estratégias do movimento; e um segundo dividido em eixos temáticos, onde participei do eixo destinado à juventude e às mulheres.
IPG – Qual a sua expectativa para a COP 30 e a Cúpula dos Povos?
AG – A COP ocorre desde os anos 1990 e, apesar do avanço das discussões se dar de forma lenta e
com poucos encaminhamentos efetivos, ela representa um espaço importante de consenso mínimo: a aceitação da necessidade de transformar a matriz de desenvolvimento econômico atual. O maior problema, a meu ver, é a falta de mecanismos de coerção para países que descumprem os acordos, além das desigualdades entre países, já que muitos não dispõem de tecnologias para avançar na transição. Ainda assim, a existência da COP já é, em si, um avanço. Como as duas últimas COPs ocorreram em países petroleiros, que defenderam fortemente a indústria fóssil, havia uma animação maior para esta edição, especialmente porque os movimentos sociais pretendiam ocupar as ruas de Belém, algo inviável nas anteriores devido à forte repressão. Não acredito que os encaminhamentos desta COP serão muito diferentes dos já
existentes, sobretudo no que diz respeito ao Artigo 6º do Acordo de Paris (descarbonização e mercado de carbono) e às responsabilidades comuns, porém diferenciadas (fundos de adaptação e perdas e danos). Entretanto, um possível avanço é o “mapa do caminho” proposto pelo governo brasileiro, que busca construir um consenso mínimo sobre quatro temas: financiamento, lacuna das metas climáticas, medidas unilaterais de comércio e relatórios de transparência.
Quanto à Cúpula dos Povos, sua realização é essencial para trazer à tona a perspectiva
da sociedade civil, diretamente afetada pelas decisões governamentais. Os encaminhamentos da cúpula orientam a construção da agenda climática dos movimentos sociais e fortalecem a capacidade de incidência popular. Esta edição, em particular, foi marcante: reuniu 23 mil pessoas credenciadas, distribuídas em sete eixos, com forte protagonismo indígena.
A carta final da Cúpula apontou os problemas da crise atual, enfatizou o avanço da extrema direita (que dificulta a agenda ambiental) e reforçou a necessidade de mudança sistêmica, já que o modelo vigente se baseia na predação ambiental e na desigualdade. Trouxe 15 propostas fundamentadas na construção coletiva de políticas públicas, com enfoque nas populações vulneráveis e na participação efetiva nos processos políticos e econômicos dos Estados.
Sobre Petrópolis, os eventos climáticos extremos se intensificam devido ao desmatamento e ao aumento de GEEs na atmosfera, que altera o fluxo global de chuvas. Isso evidencia que a cidade não superará a crise sozinha: necessita de políticas nacionais e internacionais que contenham a frequência desses eventos. Ainda assim, permanece a responsabilidade municipal de implementar políticas de prevenção, adaptação e reparação. Desde 2022, houve avanços nos mecanismos de alerta e emergência da Defesa Civil, mas ainda é insuficiente. As políticas habitacionais devem ser prioritárias, pois o modelo atual de aluguel social é insustentável a longo prazo. Os mecanismos de reparação também precisam ser revistos, já que as famílias precisam de condições mínimas para reconstruir suas vidas, nesse aspecto, o Rio Grande do Sul
oferece aprendizados relevantes. As respostas às tragédias devem integrar municípios, estados e União, com orçamentos e planos específicos para territórios vulneráveis. Os encontros internacionais possibilitam cooperações fundamentais para implementar políticas públicas. Nesse contexto, a paradiplomacia é uma ferramenta estratégica para criar redes capazes de financiar políticas climáticas na cidade.
IPG – Em relação a Petrópolis, quais os principais fatores para o agravamento
contínuo dos problemas socioambientais da cidade?
AG – O primeiro fator é a falta de políticas de prevenção. Já sabemos que eventos climáticos
extremos são uma realidade, e, por isso, políticas públicas capazes de prevenir perdas
materiais e, principalmente, mortes devem ser implementadas. A vulnerabilidade de
Petrópolis está vinculada à forma como a cidade foi urbanizada: pessoas foram
empurradas para periferias e áreas de risco, enquanto faltou planejamento adequado para
drenagem das águas de chuva e saneamento básico, resultando diretamente em enchentes. Até hoje, os governos petropolitanos trataram o tema majoritariamente por meio de
políticas de reparação. De um lado, o aluguel social, que, como já dito, é insustentável
porque o número de atingidos tende a crescer. De outro, as contenções nos locais de
deslizamento e o desassoreamento dos rios, que, embora necessários, permanecem insuficientes. Por isso, o segundo fator é a ausência de formas efetivas de reparação. É preciso desenvolver auxílios emergenciais e projetar políticas habitacionais específicas para pessoas atingidas. Um exemplo é o cartão Recomeçar, oferecido pelo governo do Estado, que não contempla todas as pessoas atingidas, dificultando a reconstrução da vida daqueles que já viviam em vulnerabilidade significativa.
IPG – Como o projeto com o IPG e sua experiência na Cúpula podem contribuir para
promover ações em Petrópolis que sensibilizem e ampliem a participação
comunitária nas políticas públicas?
AG – A participação popular nas políticas públicas depende diretamente dos métodos pelos
quais essas políticas são formuladas e implementadas. O modelo institucional atual oferece pouca abertura para a participação efetiva. Embora existam mecanismos constitucionais, como consultas públicas e plebiscitos, eles raramente são incentivados ou divulgados pelos órgãos do Estado, já que a classe política tende a centralizar as decisões no Legislativo e no Executivo, verticalizando o processo decisório.
Minha participação na Cúpula evidenciou como processos decisórios podem assumir
caráter horizontal, com encaminhamentos coletivos e abertos. As políticas debatidas
foram construídas com a participação de diversos setores sociais, buscando consensos
entre os integrantes de cada eixo. O modelo representativo atual concentra a decisão em indivíduos eleitos, que poderiam horizontalizar o debate, mas, na prática, frequentemente individualizam as decisões. Até mesmo os conselhos municipais têm caráter consultivo, e suas deliberações podem ser ignoradas pelos tomadores de decisão.
Dessa forma, é preciso pensar mecanismos que permitam incidência coletiva real. Mas,
antes disso, é necessário reencantar as pessoas para a política institucional, mostrar que
a política vai além da disputa partidária e diz respeito à construção coletiva de soluções
para demandas sociais diversas. Nesse sentido, promover debates sobre gestão participativa e criar espaços que permitam à população apresentar suas demandas e elaborar soluções é essencial para reconstruir o vínculo político. O aumento da incidência popular, por meio desses canais, tende a aproximar os tomadores de decisão da sociedade, já que dependem do voto para
permanecer em seus cargos. Os encontros em Belém mostraram caminhos interessantes para construir mecanismos de gestão participativa do território. O projeto implementado pelo IPG potencializa essa perspectiva para a comunidade, podendo transformar a forma como as pessoas compreendem e vivenciam a construção das políticas públicas.
IPG – Qual a sua percepção de gestão participativa?
AG – Compreendo a gestão participativa como um processo político e administrativo
fundamentado na construção coletiva das decisões, no qual as políticas públicas são
formuladas, implementadas e avaliadas com a participação direta da população. Trata-se
de um modelo que rompe com a lógica verticalizada e centralizadora, ainda predominante
no Estado brasileiro, e que busca promover uma relação horizontal entre governo e
sociedade, reconhecendo que as pessoas que vivem os problemas do território são
também aquelas que melhor conhecem caminhos possíveis para solucioná-los. A gestão participativa pressupõe, portanto, a democratização do processo decisório. Isso significa não apenas oferecer espaços formais de escuta, mas garantir mecanismos reais de deliberação, transparência e corresponsabilidade. É uma prática que valoriza o diálogo entre diferentes setores sociais, a diversidade de experiências e saberes, e a construção de consensos que reflitam os interesses coletivos, especialmente das populações historicamente marginalizadas dos processos políticos. Além disso, a gestão participativa envolve pedagogia política: é preciso criar ambientes que incentivem a população a compreender a política como parte do cotidiano e não
apenas como disputa institucional ou partidária. Isso significa investir em processos
formativos, fortalecer conselhos, promover assembleias territoriais e construir instrumentos permanentes de participação, não apenas consultivos, mas deliberativos. Por fim, percebo a gestão participativa como uma estratégia fundamental para responder aos desafios contemporâneos, sobretudo os socioambientais. Em territórios vulneráveis, onde as desigualdades se expressam de forma mais intensa, a participação popular não é apenas desejável, mas necessária, pois garante que as políticas públicas sejam mais justas, eficazes e enraizadas nas realidades locais. É, portanto, uma forma de produzir decisões mais legítimas, sustentáveis e conectadas às necessidades reais da população.


Entrevista e edição: Teresinha de Jesus Fidelles de Almeida





















