INTERNACIONALISTA PETROPOLITANA PARTICIPA DA CÚPULA DOS POVOS

A internacionalista Ana Lúcia de Lacerda Gonçalves, petropolitana do bairro Alto Independência, participou da Cúpula do Povos, realizada recentemente durante a COP 30. Bacharel e Mestre em Relações Internacionais e doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (PPGRI-UERJ), representou o Movimento de Atingidos por Barragens, que durante a cúpula construiu o eixo de Transição Justa e realizou o IV Encontro Internacional de Atingidos e Atingidas por Barragens e Crise Climática.

Ana atua na linha de pesquisa em Política Externa e sua tese tem como tema principal a cooperação internacional na área ambiental, com ênfase na internalização de parcerias e na formulação de políticas públicas. Possui também experiência em outras associações – foi educadora social no Centro Educacional Comunidade São Jorge – e faz parte da equipe do Projeto Incuba Aí, que será implementado pelo IPG no bairro Independência, através do programa PISTA (Parques de Inovação Social, Tecnológica e Ambiental), promovido pela Faperj.

Durante a Cúpula dos povos Ana participou das discussões da mesa “Atingidos pela Crise Climática- a reconstrução do Rio Grande do Sul”, refletindo sobre o contexto petropolitano, que historicamente tem sido atingido por desastres climáticos. Sobre a conjuntura de sua comunidade, Ana escreveu uma crônica, destacando a realidade do Independência. (Clique aqui para ler a crônica). Também participou da coordenação do alojamento, onde estavam 1200 pessoas, de todo o país, que foram atingidas por desastres socioambientais.

Em entrevista ao IPG, Ana relata que as áreas social e ambiental sempre constituíram para ela um foco central de estudo e reflexão e que a situação de Petrópolis ampliou seu senso de urgência e reforçou suas escolhas profissionais. Sobre os eventos, Ana acredita que “os encontros internacionais são fundamentais para a construção conjunta de soluções frente aos problemas ambientais, já que esses desafios são transfronteiriços” e que o projeto “Incuba Aí”, implementado pelo IPG “potencializa essa perspectiva para a comunidade, podendo transformar a forma como as pessoas compreendem e vivenciam a construção das políticas públicas”.
Para saber mais sobre a experiência de Ana, suas perspectivas e ideias sobre gestão participativa, confira abaixo a entrevista na íntegra.

IPG – Qual a sua motivação para entrar na área ambiental? A situação de
vulnerabilidade de Petrópolis foi um fator que estimulou esta escolha?


AG – As áreas social e ambiental sempre constituíram um foco central de estudo e reflexão para mim, especialmente no que diz respeito ao modelo de desenvolvimento econômico hegemônico intensificado a partir da Revolução Industrial. Ao longo da minha trajetória acadêmica, procurei examinar diferentes formas de organizar os territórios e os Estados a partir de modelos econômicos alternativos ao capitalismo. Por isso, durante a graduação, pesquisei Economia Solidária, e, no mestrado e doutorado, aprofundei o estudo sobre o Vivir Bien boliviano. A situação de Petrópolis ampliou meu senso de urgência e reforçou essa escolha. Ela evidencia, de forma concreta, como o uso desenfreado da natureza intensifica eventos extremos e, simultaneamente, escancara a desigualdade social. A maior parte das pessoas atingidas pertence às periferias, são negras e historicamente marginalizadas pelas políticas públicas e econômicas do Estado.


IPG – Poderia falar um pouco da sua experiência profissional, em movimentos sociais e também em projetos socioambientais? Por exemplo, quais os trabalhos que considera mais importantes.


AG – Participei anteriormente da construção de movimentos de juventude, debatendo a situação desse segmento na sociedade petropolitana. Como mulher jovem, vivencio diretamente como Petrópolis se tornou uma cidade hostil: não há investimentos políticos voltados para a juventude. Embora existam universidades importantes na cidade, observa-se que a população periférica ainda encontra grandes barreiras para ingressar nelas e, mesmo quando consegue se formar, muitos jovens precisam deixar Petrópolis para buscar empregos de qualidade. O mercado de trabalho local está cada vez mais limitado e pouco valorizado. Além disso, embora Petrópolis tenha uma vida cultural significativa, com juventudes organizadas em diversas expressões, sobretudo periféricas, vinculadas ao hip-hop e às culturas de matriz afro-brasileira, essa estrutura é sustentada essencialmente pela sociedade civil e pelos movimentos sociais, tendo pouca expressão nas políticas municipais.
A partir desse diagnóstico, atuei no Conselho da Juventude, na construção de manifestações populares e na organização do Festival de Cultura Periférica, realizado na Casa Socialista, na Vila São José. Em todos esses espaços, nosso objetivo era intervir no cotidiano político petropolitano, evidenciando a necessidade de debater juventude com foco nas demandas do presente. Afinal, se o jovem é considerado o futuro, não existe futuro possível sem ações concretas no presente e sem incentivos públicos para a juventude atual.
Minha atuação ambiental, especificamente, está mais vinculada ao campo profissional. Como pesquisadora, sempre busquei compreender como as instituições podem se tornar mais democráticas e orientadas por concepções que integrem natureza e ação humana. Por isso, tanto no mestrado quanto no doutorado, foquei a Bolívia, que se tornou uma República Plurinacional ao incluir o Vivir Bien na constituição do Estado. Mais recentemente, passei a integrar o Movimento de Atingidos por Barragens (MAB), que ampliou sua pauta para abranger a luta dos atingidos pela crise climática. O movimento compreende que a emergência climática tem gerado atingidos em larga proporção e que, portanto, é necessário construir saídas populares para essa crise. Desde 2022, o MAB atua em Petrópolis, mas no bairro Independência sua construção se intensificou no último ano. Em 2024, as chuvas provocaram quatro mortes e deixaram mais de 200 pessoas desalojadas.
Nesse cenário, o MAB atuou cobrando do poder público condições dignas para as pessoas atingidas, fortalecendo o poder de decisão das próprias comunidades diante da tragédia, por meio da organização da luta. Desde então, temos discutido direito à reparação, políticas de prevenção e adaptação às mudanças climáticas. Estamos construindo um plano emergencial que visa fortalecer a compreensão da população sobre seus direitos, para que possam cobrá-los diante das tragédias.

IPG – Como foi sua participação na Cúpula?

AG – Durante a cúpula, o MAB construiu o eixo de Transição Justa. Defendemos que o debate
sobre transição, além de considerar as distintas vulnerabilidades das pessoas e dos
territórios diante da crise, intensificadas pelas desigualdades, deve ser constituído com
participação deliberativa da população. Defendemos, portanto, uma transição justa e
popular. Atualmente, a transição energética tem sido tratada principalmente como substituição de fontes fósseis por energias limpas. Embora isso reduza emissões de GEE, não altera a lógica de desenvolvimento vigente, pois permanece a mentalidade de exploração ambiental para sustentar o crescimento econômico. Assim, novos problemas ambientais emergem. Além disso, há anos os impactos das energias renováveis vêm sendo sentidos no interior do país: inicialmente por hidrelétricas e, mais recentemente, pela expansão da energia eólica e solar. Diante disso, o MAB compreende que salvar o planeta exige transformar a lógica humana em relação à natureza, de posse para pertencimento. O impacto sobre as populações também precisa ser discutido de forma horizontal, com participação deliberativa, e não apenas consultiva.
Também realizamos o IV Encontro Internacional de Atingidos e Atingidas por Barragens e Crise Climática. Nele, debatemos as diferentes formas pelas quais territórios no mundo vêm sendo atingidos, traçando caminhos e estratégias para a defesa de direitos internacionais das populações afetadas. Compreendemos que, para que a mudança ocorra, os movimentos sociais do mundo precisam estar articulados, compartilhando experiências e construindo alternativas em união. Essa perspectiva fortalece o movimento nacional e influencia decisões globais. Fui delegada em ambos os encontros. Na cúpula, participei de debates sobre transição energética e reconstrução de territórios atingidos por desastres climáticos. No encontro internacional, a programação teve dois momentos: um primeiro destinado à discussão de conjuntura nacional e internacional e às estratégias do movimento; e um segundo dividido em eixos temáticos, onde participei do eixo destinado à juventude e às mulheres.

IPG – Qual a sua expectativa para a COP 30 e a Cúpula dos Povos?

AG – A COP ocorre desde os anos 1990 e, apesar do avanço das discussões se dar de forma lenta e
com poucos encaminhamentos efetivos, ela representa um espaço importante de consenso mínimo: a aceitação da necessidade de transformar a matriz de desenvolvimento econômico atual. O maior problema, a meu ver, é a falta de mecanismos de coerção para países que descumprem os acordos, além das desigualdades entre países, já que muitos não dispõem de tecnologias para avançar na transição. Ainda assim, a existência da COP já é, em si, um avanço. Como as duas últimas COPs ocorreram em países petroleiros, que defenderam fortemente a indústria fóssil, havia uma animação maior para esta edição, especialmente porque os movimentos sociais pretendiam ocupar as ruas de Belém, algo inviável nas anteriores devido à forte repressão. Não acredito que os encaminhamentos desta COP serão muito diferentes dos já
existentes, sobretudo no que diz respeito ao Artigo 6º do Acordo de Paris (descarbonização e mercado de carbono) e às responsabilidades comuns, porém diferenciadas (fundos de adaptação e perdas e danos). Entretanto, um possível avanço é o “mapa do caminho” proposto pelo governo brasileiro, que busca construir um consenso mínimo sobre quatro temas: financiamento, lacuna das metas climáticas, medidas unilaterais de comércio e relatórios de transparência.
Quanto à Cúpula dos Povos, sua realização é essencial para trazer à tona a perspectiva
da sociedade civil, diretamente afetada pelas decisões governamentais. Os encaminhamentos da cúpula orientam a construção da agenda climática dos movimentos sociais e fortalecem a capacidade de incidência popular. Esta edição, em particular, foi marcante: reuniu 23 mil pessoas credenciadas, distribuídas em sete eixos, com forte protagonismo indígena.
A carta final da Cúpula apontou os problemas da crise atual, enfatizou o avanço da extrema direita (que dificulta a agenda ambiental) e reforçou a necessidade de mudança sistêmica, já que o modelo vigente se baseia na predação ambiental e na desigualdade. Trouxe 15 propostas fundamentadas na construção coletiva de políticas públicas, com enfoque nas populações vulneráveis e na participação efetiva nos processos políticos e econômicos dos Estados.
Sobre Petrópolis, os eventos climáticos extremos se intensificam devido ao desmatamento e ao aumento de GEEs na atmosfera, que altera o fluxo global de chuvas. Isso evidencia que a cidade não superará a crise sozinha: necessita de políticas nacionais e internacionais que contenham a frequência desses eventos. Ainda assim, permanece a responsabilidade municipal de implementar políticas de prevenção, adaptação e reparação. Desde 2022, houve avanços nos mecanismos de alerta e emergência da Defesa Civil, mas ainda é insuficiente. As políticas habitacionais devem ser prioritárias, pois o modelo atual de aluguel social é insustentável a longo prazo. Os mecanismos de reparação também precisam ser revistos, já que as famílias precisam de condições mínimas para reconstruir suas vidas, nesse aspecto, o Rio Grande do Sul
oferece aprendizados relevantes. As respostas às tragédias devem integrar municípios, estados e União, com orçamentos e planos específicos para territórios vulneráveis. Os encontros internacionais possibilitam cooperações fundamentais para implementar políticas públicas. Nesse contexto, a paradiplomacia é uma ferramenta estratégica para criar redes capazes de financiar políticas climáticas na cidade.

IPG – Em relação a Petrópolis, quais os principais fatores para o agravamento
contínuo dos problemas socioambientais da cidade?


AG – O primeiro fator é a falta de políticas de prevenção. Já sabemos que eventos climáticos
extremos são uma realidade, e, por isso, políticas públicas capazes de prevenir perdas
materiais e, principalmente, mortes devem ser implementadas. A vulnerabilidade de
Petrópolis está vinculada à forma como a cidade foi urbanizada: pessoas foram
empurradas para periferias e áreas de risco, enquanto faltou planejamento adequado para
drenagem das águas de chuva e saneamento básico, resultando diretamente em enchentes. Até hoje, os governos petropolitanos trataram o tema majoritariamente por meio de
políticas de reparação. De um lado, o aluguel social, que, como já dito, é insustentável
porque o número de atingidos tende a crescer. De outro, as contenções nos locais de
deslizamento e o desassoreamento dos rios, que, embora necessários, permanecem insuficientes. Por isso, o segundo fator é a ausência de formas efetivas de reparação. É preciso desenvolver auxílios emergenciais e projetar políticas habitacionais específicas para pessoas atingidas. Um exemplo é o cartão Recomeçar, oferecido pelo governo do Estado, que não contempla todas as pessoas atingidas, dificultando a reconstrução da vida daqueles que já viviam em vulnerabilidade significativa.

IPG – Como o projeto com o IPG e sua experiência na Cúpula podem contribuir para
promover ações em Petrópolis que sensibilizem e ampliem a participação
comunitária nas políticas públicas?


AG – A participação popular nas políticas públicas depende diretamente dos métodos pelos
quais essas políticas são formuladas e implementadas. O modelo institucional atual oferece pouca abertura para a participação efetiva. Embora existam mecanismos constitucionais, como consultas públicas e plebiscitos, eles raramente são incentivados ou divulgados pelos órgãos do Estado, já que a classe política tende a centralizar as decisões no Legislativo e no Executivo, verticalizando o processo decisório.
Minha participação na Cúpula evidenciou como processos decisórios podem assumir
caráter horizontal, com encaminhamentos coletivos e abertos. As políticas debatidas
foram construídas com a participação de diversos setores sociais, buscando consensos
entre os integrantes de cada eixo. O modelo representativo atual concentra a decisão em indivíduos eleitos, que poderiam horizontalizar o debate, mas, na prática, frequentemente individualizam as decisões. Até mesmo os conselhos municipais têm caráter consultivo, e suas deliberações podem ser ignoradas pelos tomadores de decisão.
Dessa forma, é preciso pensar mecanismos que permitam incidência coletiva real. Mas,
antes disso, é necessário reencantar as pessoas para a política institucional, mostrar que
a política vai além da disputa partidária e diz respeito à construção coletiva de soluções
para demandas sociais diversas. Nesse sentido, promover debates sobre gestão participativa e criar espaços que permitam à população apresentar suas demandas e elaborar soluções é essencial para reconstruir o vínculo político. O aumento da incidência popular, por meio desses canais, tende a aproximar os tomadores de decisão da sociedade, já que dependem do voto para
permanecer em seus cargos. Os encontros em Belém mostraram caminhos interessantes para construir mecanismos de gestão participativa do território. O projeto implementado pelo IPG potencializa essa perspectiva para a comunidade, podendo transformar a forma como as pessoas compreendem e vivenciam a construção das políticas públicas.

IPG – Qual a sua percepção de gestão participativa?

AG – Compreendo a gestão participativa como um processo político e administrativo
fundamentado na construção coletiva das decisões, no qual as políticas públicas são
formuladas, implementadas e avaliadas com a participação direta da população. Trata-se
de um modelo que rompe com a lógica verticalizada e centralizadora, ainda predominante
no Estado brasileiro, e que busca promover uma relação horizontal entre governo e
sociedade, reconhecendo que as pessoas que vivem os problemas do território são
também aquelas que melhor conhecem caminhos possíveis para solucioná-los. A gestão participativa pressupõe, portanto, a democratização do processo decisório. Isso significa não apenas oferecer espaços formais de escuta, mas garantir mecanismos reais de deliberação, transparência e corresponsabilidade. É uma prática que valoriza o diálogo entre diferentes setores sociais, a diversidade de experiências e saberes, e a construção de consensos que reflitam os interesses coletivos, especialmente das populações historicamente marginalizadas dos processos políticos. Além disso, a gestão participativa envolve pedagogia política: é preciso criar ambientes que incentivem a população a compreender a política como parte do cotidiano e não
apenas como disputa institucional ou partidária. Isso significa investir em processos
formativos, fortalecer conselhos, promover assembleias territoriais e construir instrumentos permanentes de participação, não apenas consultivos, mas deliberativos. Por fim, percebo a gestão participativa como uma estratégia fundamental para responder aos desafios contemporâneos, sobretudo os socioambientais. Em territórios vulneráveis, onde as desigualdades se expressam de forma mais intensa, a participação popular não é apenas desejável, mas necessária, pois garante que as políticas públicas sejam mais justas, eficazes e enraizadas nas realidades locais. É, portanto, uma forma de produzir decisões mais legítimas, sustentáveis e conectadas às necessidades reais da população.


    Entrevista e edição: Teresinha de Jesus Fidelles de Almeida

    IPG ENTREVISTA ESPECIALISTAS EM REFLORESTAMENTO URBANO

    Petrópolis é intitulada a Capital Estadual das Unidades de Conservação. Porém, no primeiro distrito, área urbana que faz parte da APA-Petrópolis, portanto uma UC também, a vegetação, tanto no que se refere às árvores e às matas ciliares dos rios que percorrem toda a cidade, tem diminuído bastante ao longo dos anos. Em tempos de mudanças climáticas, é fundamental ter uma boa vegetação nessas áreas. Mas, como reflorestar uma área urbana como Petrópolis onde ainda convivemos com árvores exóticas antigas, espécies da mata atlântica e animais como as capivaras passeando pelo asfalto, pássaros como quero-quero, jacus, em áreas tombadas pelo Patrimônio Histórico? Será possível essa convivência? Devemos trocar as espécies exóticas por nativas? Para tirar essas e outras dúvidas que surgiram nos grupos de discussão que elaboram o PEP 20 (Planejamento Estratégico para Petrópolis),o IPG conversou com especialistas em reflorestamento urbano: o biólogo e professor Dr. André Micaldas , a engenheira Florestal, Erika Melo Brandão Assis e a arquiteta do IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional),Isabelle Cury.

    Siga a leitura e compreenda com os especialistas como deve ser feito um reflorestamento em áreas urbanas.

    REFLORESTAMENTO: UM DESAFIO NAS ÁREAS URBANAS

    Elaborar um projeto de reflorestamento urbano não é algo tão simples, não basta apenas plantar árvores de forma aleatória. De acordo com a engenheira florestal Erika Melo Brandão Assis, petropolitana, que possui larga experiência na área e hoje atua no Instituto Ação Socioambiental “é preciso que a equipe que vai fazer esse planejamento, que podem ser composta por biólogos, engenheiros florestais, paisagistas, sejam profissionais com conhecimento em dendrologia (ramo da ciência que compreende o estudo das árvores, identificação, características e distribuição natural das mesmas).

    O reflorestamento urbano é um processo meticuloso, que o biólogo e também Educador Ambiental Dr.André Micaldas, explicou quais critérios devem ser seguidos, que são:

    Dr.André Micaldas
    • As espécies devem ser autóctones, ou seja, nativas do local, pois já estão adaptadas ao clima, ao solo e servem de alimento e abrigo para a fauna local e podem fornecer sementes que podem ser utilizadas pela população para plantio.
    • Se a rede elétrica for aérea e as árvores forem ser plantadas sob a rede elétrica não podem crescer muito.
    • Se as árvores forem plantadas no calçamento e/ou próximas a muro, as raízes não podem ser do tipo emergentes ou adventíceas (como figueiras); devem ser do tipo pivotante (uma raiz principal com crescimento vertical em profundidade).
    • Deve-se evitar o plantio de espécies tóxicas para seres humanos e fauna (plantas com látex).
    • Se o lugar for frio, deve-se dar preferência para espécies que percam as folhas no período do inverno pois facilitam a entrada do sol na cidade como, por exemplo, os ipês.
    • Deve-se evitar o plantio de árvores com frutos grandes (abricó de macaco) que podem provocar danos a veículos e ser um risco a vida de pedestres e animais como cães e gatos.
    • Devem ser evitadas espécies que apodreçam facilmente ou possam ser atacadas por cupins e outros organismos xilófagos (que se alimentam de madeira).
    • Devem ser evitadas espécies que liberem substâncias alergênicas e que possam causar coceira (como o fruto da palmeira rabo de peixe ou a folha que protege a gema do caule dos bambus).
    • As árvores devem ser plantadas respeitando a exposição ao sol ou ao sombreamento do local, caso contrário a maioria morre.
    • As mudas devem ser plantadas o maior possível para evitar o vandalismo.

    Os reflorestamentos urbanos, seguindo os critérios acima, de acordo com André ainda são muito poucos. Ele cita o exemplo “da Alameda Sandra Alvim, localizada no Recreio dos Bandeirantes, em que foram utilizadas espécies autóctones de restinga ecossistema original do Recreio dos Bandeirantes e Barra da Tijuca, onde participei plantando algumas mudas de paineira que produzi no meu apartamento, como o humus do meu minhocário”.Erika citou também exemplos de Maringá no Paraná e Curitiba que são bem arborizadas.

    Engenheira Florestal Erika Assis
    Exemplo de falta de critérios.

    Se os critérios não forem seguidos e, por exemplo, termos podas feitas de forma errada, sem a participação de técnicos e que são planejados muitas vezes movidos apenas pela questão do paisagismo, ou seja, só pela beleza da árvore, André explica que “Sem planejamento, as árvores que crescem muito ou têm raízes emergentes podem destruir a rede elétrica, se ela for aérea, destruir calçamento, muros, e sua queda pode ser um risco, os frutos grandes podem danificar carros, casas e causar acidentes até fatais com pessoas e animais. Árvores de espécies tóxicas podem causar envenenamento de pessoas, sobretudo crianças e também animais, filhotes de cachorros e gatos”. Também destaca que “A poda drástica às vezes pode matar a árvore ou causar a redução de abrigo e alimento para animais e redução de sombra para pessoas e carros além de diminuir a beleza do local”.Por isso, Erika, lembra que “é preciso ter também na equipe alguém especializado em fauna, deve ser feito um trabalho integrado para que os corredores sirvam de poleiro, mas também como alimento, é preciso trabalhar com frutíferas da mata atlântica em locais que comportam para atender nosso público especial que são as árvores”.

    Polêmica: Exóticas ou nativa ?

    Uma questão que sempre surge quando é pensado um reflorestamento urbano é se serão colocadas árvores nativas ou exóticas. De acordo com Erika essas árvores podem conviver sim. Mas quanto à preservar o que já existe, ela salienta que é necessária uma avaliação. “Se não estão bem, pode ser pensado um manejo para essas árvores, que podem ser substituídas por um tipo de floração, de cor, de algum grupo parecido, podemos fazer diversos tipos de composição. Assim exóticas e nativas podem conviver, dentro de um plano. Isso deve ser avaliado, é preciso ver o custo-benefício de uma intervenção e pode sim ser feito um manejo priorizando as nativas”, explica.

    O que fazer em áreas tombadas pelo IPHAN?

    Na prática, às vezes surgem situações onde é preciso lidar com a inserção ou manutenção de árvores exóticas. Em Petrópolis uma parte do Centro Histórico teve o conjunto paisagístico tombado pelo IPHAN. Então há uma polêmica na cidade, porque alguns acham que quando as árvores antigas morrerem devem ser substituídas por nativas, mas por causa do tombamento, outros acham que precisam plantar a mesma espécie, porque as raízes de muitas dessas árvores, causam problemas no calçamento. André explica que é “sempre favorável ao plantio de espécies autóctones ou nativas do lugar, já que estão adaptadas ao clima e ao solo e servem de alimento e abrigo para a fauna local”. Mas, destaca que se ocorrer a escolha por espécies exóticas que, pelo menos, atendam aos outros critérios que ele explicou. Em relação ao tombamento. Erika acredita que isto ocorreu “num momento que queriam mostrar a variedade botânica de diversos lugares do mundo, tinha um objetivo esse paisagismo” e acrescenta que hoje observa “que existe um grande desconhecimento da nossa botânica, de um ponto de vista popular” e acrescenta que “trabalhar um paisagismo com as nativas é uma forma de mostrar para a população as nossas árvores, é também um trabalho de Educação Ambiental. Petrópolis ter uma arborização com nativas, seria um movimento, um passo, muito interessante em diversos sentidos para a Educação Ambiental. Poderiam ser feitos corredores de fauna, se eu pudesse votar, votaria num paisagismo com nativas.”

    Já em relação às exóticas, quando morrerem, Erika, acha que “não deveriam plantar as mesmas espécies, temos que priorizar as nativas e pensar em quais seriam interessantes, pois existe a questão do calçamento, de toda estrutura de uma cidade, temos que pensar também na questão dos alagamentos, avaliar como um todo, a fisiologia da planta e todo o cenário que está no entorno dela”, destaca. Erika também esclarece que não é só desenhar o projeto dessa estrutura, mas mantê-la. “A gente precisa de um serviço olhando para as nossas árvores, para orientação de poda, para ver a sanidade delas, adubação, isso tudo, por exemplo, para o centro histórico porque é um patrimônio e elas fazem parte de todo esse visual.”

    Dra,Isabelle Cury

    Mas para fazer um reflorestamento em uma área tombada é preciso avaliar outros aspectos, além dos mencionados pelo biólogo. De acordo com a arquiteta Isabelle Cury, “há diferentes critérios a serem considerados nas áreas históricas, onde originalmente se incluíram as espécies exóticas”. Ela explica que “é exigido um maior conhecimento, já que existem exóticas que foram utilizadas no século XIX, algumas invasoras* e outras não”. Isabelle destaca também que “o critério não é o de espécies da Mata Atlântica e sim o de arborização urbana, pois é uma área antropizada”. Para este reflorestamento, é necessário analisar as características do local e o projeto de arborização original para definir o que será realizado. Independente do que for escolhido pela equipe que estiver elaborando o projeto em uma área onde o conjunto paisagístico foi tombado, Isabelle frisa que “o IPHAN precisa ser consultado pois a arborização interfere diretamente na preservação e na ambiência do bem tombado”.

    *(As espécies exóticas invasoras são aquelas plantas e animais que estão fora da sua área de distribuição natural e que ameaçam hábitats, serviços ecossistêmicos, e a diversidade biológica, causando impactos em ambientes naturais.)

    Mudanças climáticas: árvores são fundamentais

    Independente das espécies sabemos que árvores em áreas urbanas em tempos de mudanças climáticas são fundamentais, pois como explica André “as árvores ao crescer retiram o gás carbônico da atmosfera (um dos responsáveis pelas mudanças climáticas) e o imobilizam na celulose do tronco e galhos e raízes, diminuem a temperatura ambiente em até 5 ou 6 graus C, diminuem o efeito das células de calor das cidades, absorvem as águas das chuvas, auxiliam as águas das chuvas a penetrar no solo e atingir o lençol freático mantendo a vazão dos rios por mais tempo, umidificam o ar deixando-o menos seco, retiram poeira do ar que ficam presas nas folhas e que depois são lavadas pelas chuvas, fornecem sombra para todos. As árvores ainda tem um papel no bem-estar psicológico das pessoas, tendo em vista que a cor verde acalma”.

    Erika salienta que percebemos como o clima muda, “é nítida a diferença quando você está embaixo de uma árvore ou exposto ao sol. Além disso, toda área que uma copa ocupa, o impacto de cada gota é importante. Porque uma coisa é ela cair direto na superfície e escoar, outra coisa é cair nesse guarda-chuva enorme, que é a árvore, e ela vai batendo folha por folha, vai escorrendo no tronco, aí acontece a infiltração no solo, ela vai sendo disponibilizada de forma lenta para o lençol freático, o que vai ajudar na drenagem, em uma escala grande”.

    Matas ciliares também entram no projeto de reflorestamento urbano.

    Ponte do Colono – Piabanha

    As matas ciliares dos rios de Petrópolis, que cortam a cidade, também entram em um projeto de reflorestamento urbano. Segundo os especialistas é possível reflorestar, de uma forma rápida para evitar a construção de muros de pedra, gabião e outras intervenções que não são naturais. Erika explica que, “temos espécies como sangra d’água, ingás, entre outras, que se desenvolvem bem nesse ambiente úmido” E ela esclarece: “É uma estratégia. Pois a gente coloca espécies chamadas de preenchimento, as pioneiras, e as secundárias iniciais, porque elas vão crescer rápido, aí depois você vem com as espécies que são as tardias, as espécies de diversidade e elas vão crescer mais lentamente, mas também vão ficar mais tempo, e também vão fazer essa função de estruturação do solo, fazendo esse paisagismo pensado, no caso, por exemplo, da rua Piabanha, servindo como um grande corredor das margens fazendo essa integração para que essa fauna possa se movimentar. Isso seria muito lindo de ver”.

    Reflorestamento urbano e APA-Petrópolis.

    Será que o fato do primeiro distrito de Petrópolis estar dentro da APA-Petrópolis faz alguma diferença na forma de reflorestar as áreas urbanas? Para André “ estar dentro de uma APA é um privilégio que poucas pessoas têm consciência e o reflorestamento deve levar em conta ser uma APA, uma Unidade de Conservação”. Nesse contexto, “a restauração indica a necessidade de espécies autóctones”, ressalta André.

    E para Erika o reflorestamento urbano “só agrega para APA e é bem interessante, porque se realmente fizerem um reflorestamento de nativas, um olhar assim pode até compor a revisão do plano da APA, alguma coisa nesse porte pensado como cidade, utilizando árvores nativas, isso pode estar integrado no plano de manejo da APA, com uma proteção maior, até para desenvolvimento de projetos.”

    Benefícios para a economia local

    André e Erika concordam que a economia também pode ser beneficiada por um reflorestamento urbano. André cita exemplos, como “a diminuição no uso do ar-condicionado que pode resultar em economia na conta de energia elétrica de estabelecimentos comerciais e o aumento do conforto térmico pode favorecer a vinda e permanência de turistas e clientes. Além disso “ a cidade vai ficar muito mais agradável e a economia ser beneficiada indiretamente, será uma consequência” destaca Erika que também alerta para o fato deste reflorestamento ter um custo, porque “para manter uma cidade assim, tão planejada com árvores, tem que ter uma resposta muita rápida, tem que primeiro estruturar e estar preparado, por exemplo, para uma chuva forte, com ventania, a resposta tem que ser rápida, um serviço eficiente para atender essa demanda”.

    Mudança de comportamento: Educação Ambiental integrada ao projeto de reflorestamento

    Como educador Ambiental André acredita que para mudar essa cultura urbana de que árvores atrapalham, sujam, é preciso “realizar vivências com troca de saberes para esclarecimento em instituições de ensino e outros espaços públicos e plantio de mudas das espécies autóctones em espaços urbanos com crianças e adultos, com participação do poder publico municipal, se houver interesse e disponibilidade”. Para André “o reflorestamento urbano pode ser realizado junto com a Educação Ambiental, auxiliando na mudança de mentalidade do ser humano com o ambiente do qual faz parte em busca de uma vida mais harmônica”.

    Situação de algumas árvores de Petrópolis

    DICAS DE LEITURA SOBRE REFLORESTAMENTO

    Sugestões do Prof. André.

    benefícios das árvores urbanas.pdf

    Manual técnico Arborização Urbana.pdf

    Manual_Arborizacao Urbana.pdf

    plano diretor de arborização urbana.pdf

    Entrevistas, redação e edição Teresinha Almeida, Jornalista, Educadora Ambiental e Gestora de Comunicação do IPG. // Fotos: Karina Wilberg, participante do IPG.