ENTREVISTA COM CARLA MAGNO

PESQUISADORA DO PROJETO EIS DESENVOLVIDO PELO INSTITUTO PHILIPPE GUÉDON

Conhecer a rede de interações e transações dos atores do Ecossistema de Inovação Social de Petrópolis é o objetivo do projeto de pesquisa “Cartografia do Ecossistema de Inovações Sociais de Petrópolis – EIS” que está sendo desenvolvido pelo Instituto Philippe Guédon (IPG). O projeto faz parte do programa pesquisador na empresa, da FAPERJ, que financia as bolsas para os profissionais que são encarregados de fazer a pesquisa, e conta também com a parceria do IPPUR (Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional/UFRJ).

A jornalista e escritora carioca, Carla Magno, é uma das pesquisadoras do projeto, coordenado pelo Dr.Gustavo Costa. Formada em Comunicação Social pela PUC-Rio, trabalhou em diversos veículos de comunicação de Petrópolis. Mestre em Educação pela Universidade Católica de Petrópolis (UCP), Carla participa pela primeira vez de um projeto de pesquisa com este tema. Em entrevista ao IPG, descreveu as atividades que desenvolve e também explicou sobre a importância desta pesquisa para Petrópolis.

IPG – O Instituto Philippe Guédon foi a Instituição que submeteu este projeto a um edital da Faperj. Então, poderia explicar sobre a importância de uma Organização da Sociedade Civil dar estímulo e apoio a pesquisas?

CM – Graças a essa disposição do Instituto Philippe Guédon estamos conseguindo trabalhar o nosso olhar cuidadoso e atencioso para algo que é fundamental, que é o envolvimento da população em torno das decisões e das resoluções dos problemas que são públicos, sendo assim, que atingem a todas e todos cotidianamente. Acredito que isso já é um forte indicativo sobre a importância do estímulo e do apoio à pesquisa.

IPG – O que te motivou a participar deste projeto?

CM – Ao longo de toda a minha formação, desde que comecei a tomar consciência das formas sociais extremamente injustas que sustentam esta sociedade, senti a necessidade de participar das questões públicas e de buscar caminhos, não apenas para melhorar a vida da população trabalhadora, mas para envolver as pessoas que constroem a cidade diariamente nas decisões e debates sobre suas próprias vidas, decisões estas que estão, quase sempre, nas mãos de pouquíssimas pessoas, em geral, homens brancos que ocupam os espaços de poder. Este projeto tem um objetivo incrível e muito importante que é facilitar e promover a articulação popular em torno de problemas que atingem a todas e todos nós diante do abismo social que provoca um dia a dia de luta por sobrevivência e não de vivência. Foi isso que me motivou a participar.

IPG – Qual as atividades que você desenvolve no projeto EIS?

CM – No momento estou trabalhando na parte de mapeamento de iniciativas que se encaixam no perfil das inovações sociais, assim como de seus atores de suporte, comunicação, agendamento e realização das entrevistas de cadastro. Também começo a produzir material para comunicação com a imprensa e organização de oficinas.

IPG – Quais os setores da sociedade serão mais beneficiados? Explique o porquê e quais esses benefícios.

CM – Qualquer setor que procure se organizar em torno de problemas públicos será beneficiado pelo projeto, porque ele pretende oferecer uma ferramenta de estímulo à articulação e à participação popular. Entre os benefícios que ele pode oferecer, através da plataforma digital em desenvolvimento, de perfil colaborativo, está o fortalecimento em torno das mesmas lutas com o reconhecimento de iniciativas com propósitos semelhantes; o contato com atores de suporte para apoio, financeiro ou não; a robustez na hora de demandar soluções e ações diante do poder público; ou seja, o benefício da dinamização da organização popular e da possibilidade de se criarem mais iniciativas de inovação social. Essa ferramenta pode estimular melhores práticas de transparência, participação social e gestão de informações. Conectada com uma base cartográfica, a plataforma terá a capacidade de gerar múltiplas leituras espaciais do conjunto de relações que compõem a rede do EIS, conectando suas expressões espaciais, temporais e informacionais. Além da cartografia, a plataforma pode abrigar dados e informações a respeito do EIS em diversas linguagens e formatos, como gráficos, diagramas, infográficos, dashboards, bancos de dados e mapas interativos, dentre outras formas de representação dessa complexa rede.

IPG – Qual a importância deste projeto para o município de Petrópolis?

CM – Petrópolis é uma cidade que, além de todos os problemas que já conhecemos, ligados à educação, à saúde, ao transporte, ao direito à moradia entre muitos outros, vem, mais recentemente, sofrendo com os efeitos das recorrentes alterações climáticas, muito por conta de um péssimo planejamento urbano e uma falta de atenção e de ações urgentes do poder público. Mesmo depois da inesquecível tragédia de 2022, quando terra e água levaram famílias inteiras e deixaram pessoas vivendo com esse trauma diário e com o medo de novos episódios como aquele, ainda não vemos um município preparado para lidar com as chuvas. A importância deste projeto está, justamente, em estimular e oferecer ferramentas para facilitar a organização e para incentivar a participação popular, diante deste cenário de urgência, em torno das decisões sobre nossas próprias vidas.

Entrevista à Teresinha Almeida – Gestora de Comunicação – IPG

POLÍTICAS PÚBLICAS: INSTITUTO PHILIPPE GUÉDON INICIA PROJETO EM JANEIRO

Ecossistemas de inovações sociais. Este é o tema do projeto que o IPG (Instituto Philippe Guédon) submeteu ao edital da FAPERJ e que faz parte do programa pesquisador na empresa. O projeto foi aprovado e agora está na fase de contratação do pesquisador bolsista. Coordenado pelo petropolitano Gustavo Costa, Doutor em Políticas Públicas, tem como principal objetivo mapear o ecossistema de inovações sociais de Petrópolis, começa em janeiro e vai durar um ano.

Para entender melhor sobre o assunto vamos relembrar o que é ecossistema. O termo é o nome dado a um conjunto de comunidades que vivem em um determinado local e interagem entre si e com o meio ambiente, constituindo um sistema estável, equilibrado e autossuficiente*. Este conceito veio lá da biologia, mas também é usado em sociologia. De acordo com Gustavo, “o conceito de inovação social é bastante elástico, vem da sociologia crítica francesa e consiste em compreender como os diferentes atores sociais (associações, cooperativas, coletivos, movimentos sociais, grupos políticos locais etc.) interagem para produzir soluções inovadoras para problemas públicos e como essas soluções podem virar políticas públicas”. Já os ecossistemas de inovação são ambientes que promovem articulações para o desenvolvimento social e econômico. Gustavo cita como exemplo o Programa Cisternas do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS), tecnologia social desenvolvida pelas famílias do semiárido brasileiro para armazenar água durante os períodos de seca e que se tornou uma política pública do Governo Federal instituída pela Lei Nº 12.873/2013. *www.oeco.org.br

A metodologia empregada para identificar os problemas públicos e as inovações sociais é diferente das formas convencionais de se fazer políticas públicas. Tradicionalmente, as políticas públicas foram entendidas como um modo de solucionar problemas “de cima para baixo”, isto é, “de um planejamento que parte das altas cúpulas do governo para a sociedade, esta, compreendida como polo passivo de uma intervenção previamente planejada. Segundo Gustavo, em geral, partem de alguma solução pré-concebida para um determinado problema. Com frequência, esta forma “top-down” de planejar não leva em conta a realidade local, as questões sócio-históricas que caracterizam os territórios, e muito dificilmente consideram as interpretações dos atores sociais situados no terreno e que lidam diretamente com os problemas públicos. Estes muitas vezes têm soluções mais simples, mais baratas e mais facilmente implementadas.

Abordagens mais recentes, de vertente crítica e abordagem pós-positivista, invertem esta relação, levam em conta os saberes locais e procuram compreender como os diversos atores em interação lidam com os problemas públicos e produzem soluções. É, portanto, uma forma de planejar as políticas públicas de baixo para cima, isto é, que parte da sociedade para o Estado.

Gustavo destaca que o conhecimento técnico dos especialistas não mais é suficiente para dar conta da complexidade dos problemas públicos atuais. “Os problemas públicos complexos da atualidade não podem mais ser resolvidos por soluções essencialmente técnicas. É necessário uma abordagem tecnopolítica para enfrentar os problemas públicos que enfrentamos hoje, como a questão do clima, por exemplo”. Na abordagem das inovações sociais, “a diversidade de interpretações e o conflito de ideias em relação aos problemas públicos são entendidos como algo natural e são encarados como positivos para o processo das políticas públicas. A inovação social advém das interações nas arenas públicas, considera as diferenças e valoriza os diversos conhecimentos dos atores engajados no enfrentamento e na produção de soluções para os problemas públicos”.

O envolvimento do IPG no projeto não foi por acaso. Gustavo acredita que este projeto pode dar uma contribuição para estimular a participação social na gestão pública. O PEP 20, Planejamento Estratégico para Petrópolis elaborado pelo IPG com representantes da sociedade civil também pode se beneficiar dos resultados do projeto. “O Instituto tem como foco a gestão participativa e esse mapeamento permitirá conhecer a rede de atores e apoiadores das inovações sociais em Petrópolis. Conhecer este ecossistema permitirá que os agentes públicos promovam ações no sentido de dinamizar não só a inovação social, mas também estimulem a participação social no processo das políticas públicas”, enfatiza. Além disso, “Petrópolis já possui um Polo Tecnológico orientado para o desenvolvimento de inovações empresariais e a promoção do desenvolvimento econômico, estimulando a geração de soluções inovadoras para os mercados. Este projeto pode contribuir também com o Serratec, ao abordar de forma mais ampliada a inovação, agregando as dimensões sociais e culturais do desenvolvimento, potencializando também as inovações sociais e soluções para problemas públicos com a participação de atores da sociedade”, acrescenta.

Para o Presidente do IPG, Cleveland Jones, participar de um projeto como esse “é de suma importância para Petrópolis e é também uma forma de dar continuidade ao trabalho de Philippe Guédon, pois a iniciativa realmente facilita a participação da sociedade, estimula a gestão participativa, como sempre sonhou Guédon”.

Conheça o Coordenador do Projeto – Gustavo Costa

Petropolitano, Doutor em Políticas Públicas, Estratégias e Desenvolvimento (IE/UFRJ), Diretor da Associação Nacional de Ensino, Pesquisa e Extensão do Campo de Públicas (ANEPECP), membro da International Public Policy Association (IPPA), Professor e Pesquisador do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IPPUR/UFRJ) no Programa de Graduação em Gestão Pública para o Desenvolvimento Econômico e Social (GPDES/IPPUR) e na Especialização em Gestão Pública (PPGPUR/IPPUR). http://lattes.cnpq.br/0152465744578116 https://ippur.ufrj.br https://anepecp.org.br