ENTREVISTA COM A URBANISTA CLAUDIA KARINA COSTA

A realização de obras para a reconstrução de Petrópolis após as duas tempestades que resultaram em desastres socioambientais em Petrópolis, tem sido uma grande preocupação dos moradores. O IPG conversou sobre esta questão com Claudia Karina Wilberg Costa, Arquiteta e Urbanista. Karina, como é mais conhecida, é carioca e reside em Petrópolis desde 1986. Atualmente é profissional autônoma e aposentada como servidora pública municipal de Petrópolis/RJ. Participa de diversas Organizações da Sociedade Civil e é membro do Comitê de Bacia Hidrográfica do Rio Piabanha, das Sub-bacias Hidrográficas dos rios Paquequer e Preto (Comitê Piabanha) e representa o CBH Piabanha no Conselho de Meio Ambiente municipal (Comdema). Atualmente é Presidente do NAU, Nucleo Petropolitano do IAB-RJ.
IPG – Após as chuvas de 15 de fevereiro e 20 de março, em relação à estrutura da cidade, a partir da sua experiência, que obras devem ser feitas na cidade nos próximos cinco meses, para queproblemas como os que ocorreram possam ser, pelo menos, minimizados?
Karina – Cinco meses, em termos de planejamento de obras, é um tempo muito curto. Porém, obras emergenciais de recomposição das vias são as mais prementes para que se possibilite a mobilidade urbana e a e podem ser executadas neste período. Obras de remoção de habitações em áreas de risco, grandes contenções e drenagens, novas soluções para nossos rios quanto a retardar os fluxos das águas, demandam estudos, licitações, e devem fazer parte de ações de estado, ter continuidade, não sendo soluções de curto prazo. Seria possível também fazer a remoção dos materiais soltos em locais onde houve deslizamentos, de modo a possibilitar estudos de aproveitamento destas áreas, seja para a proteção, seja para um uso seguro através de obras que minimizem os riscos. Já se chegou à conclusão de que Petrópolis não comporta a população que tem. Precisamos pensar, e digo isso contemplando a sociedade civil e toda a sua vivência, em como podemos viver por aqui comresiliência, com adaptações ao clima e as normas construtivas.
IPG – Petrópolis está dentro da área de proteção ambiental APA-Petrópolis, que é federal. Temos áreas protegidas tanto quanto a sua história quanto ao fato de estar dentro da região de mata atlântica. Poderia explicar em relação às obras emergenciais, quais seriam de atribuição do Estado e quais do Município?
Karina – Esta discussão está acontecendo com o apoio do Ministério Público, que já mapeou obras emergenciais que caberiam ao município e ao estado. Petrópolis é um município com suas peculiaridades históricas e ambientais. Temos áreas de patrimônio histórico tombadas e o município deve chamar os órgãos de tombamento para participar das decisões quanto as obras propostas, inclusive, as emergenciais pois muitos rios são tombados e para a reconstituição de suas margens deve ser ouvido o órgão de tombamento. Não adianta o município se omitir dizendo que o estado é quem vai fazer esta ou outra obra. Cabe a ele fazer esta mobilização e participar também das obras que caberão ao estado. Quanto ao acompanhamento das obras pela Apa Petrópolis, sua existência se dá para evitar a degradação ambiental da região, portanto deve também estar inserida nas discussões e ser ouvida quando de propostas para a reconstrução do município.
IPG – Você já participou e participa de várias Organizações da Sociedade Civil (NAU, IPG, REDE Ser.ra, Comdema). Qual a sua motivação para este engajamento?
Me sinto compelida a fazer algo. Sair da indignação para a ação! Não podemos esperar que alguém vá fazer! Sou apenas uma arquiteta que vivenciou, por dentro, o município por 27 anos e mesmo com a falta de estudos complementares como mestrado e doutorado, consigo contribuir com a minha vivência. Desde 2007, com o apoio de colegas como o Paulo Leite entre outros, comecei a frequentar as reuniões do Comitê Piabanha, onde fui aprendendo sobre gestão as águas, bacias hidrográficas, proteção e produção das águas, saneamento, de modo a propiciar a tomada de decisão com relação ao gerenciamento dos recursos hídricos na bacia. Hoje também estou coordenadora da Câmara Técnica de Saneamento Básico do comitê onde também estou como componente da diretoria.
IPG – Neste momento, como motivar a população petropolitana a participar das Organizações da Sociedade Civil e dos Conselhos?
Karina – Nossa! Superimportante isso! É muito difícil motivar a participação popular. Talvez tenha a ver com não se meter com a vida dos outros, algo cultural! As pessoas precisam abrir um tempinho nas suas lutas diárias, para ajudar a comunidade, a cidade onde vivem. Ficar em casa reclamando para as paredes não leva a nada além de criar uma nuvem pesada sobre si. Já em grupo podemos buscar por soluções, obter apoios. Penso ainda, que cabe ao Estado buscar caminhos e promover a capacitação de representantes da população para os diversos espaços de participação disponíveis através de cursos e apresentações nas diversas localidades. Tem que criar um setor que faça este serviço de modo a contemplar os sonhos e as lutas do Philippe Guedon, do Augusto Zanatta, do Bruno Nascimento, entre outros, todos que já se foram, mas que deixaram suas sementes.