As consequências das mudanças climáticas têm sido bastante debatidas.
Porém, um tema que está relacionado e que não é muito comentado é o racismo
ambiental, um termo utilizado para se referir ao processo de discriminação que
populações periferizadas ou compostas de minorias étnicas sofrem através da
degradação ambiental. *
Recentemente este tema se destacou em Petrópolis por causa de um abaixo-assinado realizado pela Gestora Ambiental, Pamela Mércia, para combater o racismo ambiental em Petrópolis.


Para entender melhor como isto acontece na prática, o IPG conversou com
Pamela. Atuante nas causas socioambientais é Presidente da ONG “Todos
juntos, ninguém sozinho”. Trabalha há sete anos como consultora e educadora
ambiental e começou o trabalho social em 2020 quando fundou a ONG, com o
objetivo de dar assistência emergencial para famílias em vulnerabilidade por
conta da pandemia. O que fez com que se aproximasse mais das questões
sociais e encaixou com o trabalho na área ambiental. Assim a ONG passou a
lidar com questões socioambientais.
O assunto racismo ambiental ficou muito mais forte para Pamela por conta das tragédias ocorridas em Petrópolis, em 2022, quando a família dela foi duramente afetada pelas chuvas de março, sua mãe e irmã perderam a casa, e a ONG de Pamela também foi interditada. Para ela “Foi
muito difícil ter que lidar já com um trabalho que desenvolvia na ONG, atendendo
as famílias que perderam suas casas e familiares em fevereiro, e ao mesmo
tempo ter que lidar de forma muito mais próxima, vendo a casa em que cresci
ser interditada”. explicou. Pamela ressaltou que naquele momento viu como o
racismo ambiental a afetou diretamente e assim “por ser uma pessoa preta e
militar pela justiça social, nada mais lógico e importante que lutar pelo racismo
ambiental”. Além do abaixo-assinado, Pamela também tem participado de
eventos que promovem ações para a sensibilização sobre o racismo ambiental.
Vamos conferir a entrevista.?
IPG– Em Petrópolis quais as áreas onde o racismo ambiental é mais
visível?
PM – Em todas as comunidades onde residem a maioria de pessoas pretas e
pobres, é onde temos o racismo ambiental. E por que essas áreas? São
localidades mais distantes do Centro, onde as pessoas têm mais dificuldades de
acessar escola, hospital, onde não há os serviços básicos ou é precário. Aí
tem o racismo ambiental. O racismo ambiental não está só atrelado a eventos
extremos, dias de chuva e locais onde ocorrem desabamentos. É um problema
contínuo, diário. Quem reside nas comunidades sofre com isso. Se você entrar
numa comunidade vai ver grandes lixeiras cheias de lixo, porque não comportam
a quantidade de lixo que aquela comunidade gera. E se ainda tem um déficit na
coleta, a situação é muito pior. E essa precarização de serviços afeta a saúde,
porque há proliferação de vetores (ratos, baratas, mosquitos, moscas, insetos)
que pode gerar doenças. Você não vê isso em locais de casas bem estruturadas,
visivelmente com poder aquisitivo melhor e onde a maioria são brancos.
IPG – Como a cidade foi inicialmente colonizada por europeus, acredita que
isso pode dificultar a compreensão de que esta situação também ocorre
em Petrópolis? Se concorda, como você acha que é possível sensibilizar a
população petropolitana sobre o racismo ambiental?
PM – Petrópolis, na verdade, era um espaço de veraneio. Valério Winter,
geógrafo de Petrópolis, conta no livro “Petrópolis e Meio Ambiente”, que a
formação de Petrópolis vem das pessoas muitos ricas que vinham com D.Pedro
passar férias e quando se instalaram as fábricas de tecido, vem a mão de obra,
que são as pessoas mais pobres e começam a se instalar próximo às fabricas
em locais que não são seguros. Moramos numa cidade conservadora onde
pessoas brancas ocupam a maior parte do poder. Então é muito complicado
sensibilizar porque as pessoas brancas não passam por isso, elas nunca vão
entender o que é isso. Aí estamos falando de vários contextos, não só de racismo
ambiental, mas também racismo institucional, racismo estrutural que tem que ser
quebrado por uma visão de quem comanda Petrópolis, que são pessoas
brancas. Precisamos sensibilizar sempre, explorando canais de informação,
apoiando pessoas que abordam esse tema, não só eu, como outros, e abrindo
espaços como esse (referindo-se a essa entrevista). Porque precisamos expor
esse problema de quem é afetado, as pessoas pretas. Mas quem precisa dar
espaço são pessoas brancas.
IPG– Quais políticas públicas relacionadas ao racismo ambiental você
sugere para Petrópolis?
PM – Petrópolis precisa de políticas públicas para melhoria da habitação,
precisamos que essas pessoas tenham locais apropriados para habitar, já que
os locais que elas residem não são adequados. Sobretudo precisamos de
pessoas pretas ocupando lugares de poder, porque são pessoas pretas que vão
poder tomar decisões. Pessoas brancas não passam por isso. Não vão notar
esse problema e, se notarem, não vão notar urgência. O resultado disso é o que
vemos em Petrópolis, não temos pessoas pretas no poder, logo cada ano que
passa mais pessoas são atingidas. Mais pessoas morrem, mais pessoas ficam
desabrigadas e mais pessoas passam por esse problema, ficam completamente
desesperadas a cada chuva que chega, a cada verão. Então, precisamos de
pessoas pretas ocupando esses espaços para fazer políticas públicas.
IPG – Poderia falar um pouco sobre o mito de que as mudanças climáticas
atingem a todos por igual? Essa é uma das dificuldades que muitas
pessoas têm em compreender este conceito de racismo ambiental.
PM – Estamos vivendo uma crise climática global, onde o mundo inteiro está
sendo atingido. Alguns países poluem mais, que são os mais ricos, Estados
Unidos e China. E há países que são completamente devastados por catástrofes,
tsunamis, inundações terremotos e que não possuem estrutura alguma por
serem países muito pobres e poluem muito pouco. Então, sim, as mudanças
climáticas não afetam de forma igual. Aqui no Brasil, a gente vê mais mudanças
climáticas e percebe-se o ônus e o bônus. Se alguém está recebendo o bônus,
alguém tem que estar recebendo o ônus. Vimos isso em Mariana (MG). Quem
se beneficia com o trabalho de grandes mineradoras? Pessoas muito ricas. E
quem leva o ônus disso? Pessoas muito pobres, que residem perto desses
grandes empreendimentos, instalados em lugares mais distantes. São pessoas
pobres racializadas, como povos originários, quilombolas e pessoas pretas.
Então, se essas pessoas que tem menos acesso, menos recursos, menos voz,
menos visibilidade, elas é que serão mais afetadas. Com as mudanças
climáticas, o nível de precipitação vai aumentar, isso é algo que já mudou no
clima, as chuvas não serão como antes, serão mais intensas, mais fortes. Por
causa da grande quantidade de gases do efeito estufa, o aquecimento do planeta
subiu. Um planeta mais quente faz com que a evaporação da água seja mais
rápida e a precipitação também ocorrera mais rápido e será mais intensa. Só
que as cidades não estão preparadas. Um exemplo é aqui em Petrópolis. Em
2022, fevereiro e março, o Centro foi atingido, área nobre, e os bairros também.
E para quebrar esse mito de que as pessoas são atingidas de forma igual, é só
andar pelo Centro e ver que já está estruturado e as comunidades não estão. As
comunidades ainda possuem cicatrizes fortes das chuvas. Muitas não se
reergueram, algumas estão se levantando agora e quem mora lá nas
comunidades também, passando por diversos problemas, de instalação, de
adaptação e psicológicos. Isso é nítido.
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Para acessar o abaixo-assinado de Pamela para combater o racismo ambiental,
clique aqui.
Entrevista e edição: Teresinha de Jesus Fidelles de Almeida