Entrevista com o Mestre e Doutor em Geologia, Cleveland Jones, sobre as margens dos rios em Petrópolis
IPG – O tipo de solo em Petrópolis facilita problemas como este da foto?
CJ – O problema das margens erodidas dos rios em Petrópolis é antigo. Boa parte do problema é cultural, já que as pessoas se acostumaram a pensar que margens sem vegetação abundante são mais “bonitas.” Uma visão mais esclarecida, no entanto, leva as pessoas a desejar que as margens estejam cobertas com vegetação mais abundante, como arbustos e árvores.Sem essa visão, e para atender aos anseios dos que não tem essa visão, a Comdep realiza ações e intervenções totalmente equivocadas, inclusive retirando a vegetação arbustiva e arbórea existente, e plantando ou colocando placas de grama.A integridade das margens dos rios é assegurada pela vegetação com raízes mais profundas, enquanto margens só com grama não se sustentam, especialmente em taludes íngremes ou na ausência de vegetação arbustiva ou arbórea. Apesar da grama ajudar a impedir a erosão superficial, quando há chuvas fortes ou inundações, ela é incapaz de evitar a erosão, e até mesmo o desmoronamento das margens dos rios. O solo das margens é geralmente pouco consolidado, e é mais facilmente desagregado, erodido e carreado por chuvas fortes e enchentes. Essa erosão e desmoronamento das margens resulta em grande aporte de sedimentos para os rios, o que gera assoreamento.
IPG – Os rios da cidade estão sempre com problemas de assoreamento e de vez em quando é feita uma limpeza e o rio volta a ficar assoreado e temos as enchentes. Qual a melhor técnica para diminuir esse problema?
CJ – É importante desmistificar o assoreamento como o grande problema no imaginário das pessoas, pois o próprio rio se encarrega de desassorear as partes com excesso de sedimentos, quando volta a encher. Infelizmente, se as margens continuam erodindo e desmoronando, não há como impedir o assoreamento e acúmulo de sedimentos no leito dos rios. Daí a importância de resolver a origem do problema – cuidar das margens.
IPG – Quais seriam as alternativas mais seguras e sustentáveis?CJ – É muito conveniente para as empreiteiras (e para a administração pública) fazer serviços de desassoreamento, que estragam ainda mais as margens, pela movimentação de grandes máquinas, e não resolve o problema fundamental. Adicionalmente, é um serviço de difícil medição, pois não há controle efetivo de quantas carretas de sedimentos são efetivamente retiradas, e a contratação está facilmente sujeita a manipulação, superfaturamento e desvios.Seria interessante que os próprios moradores que, por falta de entendimento da dinâmica natural dos rios, solicitam o desassoreamento, solicitassem mais cuidados assim como o plantio de espécies arburstivas e arbóreas, que embelezariam o ambiente inclusive com flores, e forneceriam condições que beneficiariam os pássaros e a fauna local, além de ajudar a combater a erosão e desmoronamento das margens dos rios.